Crítica | Água Fria (1994)

É uma tarefa curiosa voltar 25 anos no passado para revisitar o começo da carreira de Olivier Assayas. Hoje seus filmes tratam de aflições maduras, de um mundo mais enrijecido do que era para o diretor nos anos noventa, mas seus primeiros longas sempre foram antenados ao não pertencimento juvenil francês. Foi logo depois de Água Fria que Assayas dirigiu Irma Vep e caiu nas graças do público internacional, transição na carreira e nos caminhos direcionais e temáticos do autor. Antes desse momento, o francês não estava aguçado para expressar em palavras as suas inquietações, por isso as resolveu nos silêncios e dúvidas nos olhares de adolescentes, que em um mesmo sentimento combinam a paranoia política, solidão e medo de amar.

 A abertura do filme, um jovem casal roubando discos de uma loja, remete à euforia que precede o tédio da geração retratada pelo diretor, a fuga da melancolia sintonizada na ideia do par romântico e do crime. Essa conceituação é comum a outros autores franceses da época, como Techiné e Carax, cujos protagonistas sempre foram figuras marginalizadas em busca de experiências de catarse, de energia, de consequência. Essa geração europeia dos anos 70 retratada em Água Fria era vítima de um período inevitável de mudanças, uma herança conservadora em um crescente retorno, uma sociedade de consumo, e consequentemente uma juventude  drenada. 

Água Fria nada mais é que a impossibilidade de resolver todos esses problemas, seja pela dificuldade de identificar quanto de enfrenta-los. A revolução pessoal se dá pega fuga e pela ruptura, uma câmera viva e imparável, acompanhando os personagens em cena na mesma agilidade que eles. A apuração sensorial de Assayas atinge outro nível aqui, uma proposta de usar elementos do horror para exemplificar a inexplicável ansiedade juvenil e seu vazio existencial, uma tradução sólida da experiência de ser adolescente.

Esse foi seu último filme desta fase mais “jovem” de Assayas. Depois de Água Fria, seus filmes tinham como estudo o amadurecimento, personagens mais velhos, e inquietações mesmo que comuns às de seus primeiros filmes tratadas de maneira muito mais sóbria. Água Fria é a última deriva do diretor antes de assumir essa nova postura de voltar-se para o futuro e confrontá-lo, é a história de formação do próprio Assayas, que diante de um novo mundo resolveu acender sua última fogueira e ouvir seus últimos discos de rock. O garoto do filme não via luz no fim do túnel e resolveu voltar para trás, o diretor que esse menino se tornou continua sem ver nada, mas segue caminhando.

Água Fria (L’eau froide) — França, 1994
Direção: Olivier Assayas
Roteiro: Olivier Assayas
Elenco: Virginie Ledoyen, Cyprien Fouquet, László Szabó, Jean-Pierre Darrousin, Dominique Faysse, Jackie Berroyer
Duração: 95 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.