Crítica | Água Negra (2002)

Mesmo diante da publicação dos contos de Koji Suzuki em língua inglesa em 2004, nem todo o ocidente conhecia mais detalhadamente a produção literária do escritor japonês que deu origem ao filme em questão, Dark Water, de Hideo Nakata, refilmado no ano seguinte, tendo Walter Salles como responsável por assumir o comando da produção. Antes de adentrar pela análise do filme japonês, torna-se interessante trafegar um pouco pelos caminhos literários, tendo em vista compreender melhor o material de base, ponto de partida, publicado em 1996, com o título de Honogurai Mizu No Soka Kara, algo como “Das Profundezas das Águas Escuras”. Trata-se de uma coletânea de sete contos, todos envolvidos com o elemento “água”, condutor universal, utilizado como texto e subtexto para as histórias apavorantes situadas em Tóquio.

Especialista em tramas de suspense, terror e ficção científica, Suzuki, por sinal, também é conhecido por sua autoria na Trilogia Ringu (Ringu, Rasen e Rupu, publicados em 1991, 1995 e 1998, respectivamente). Em Águas Flutuantes, tradução mais próxima para o conto em nossa língua portuguesa, acompanhamos a história de uma mulher amargurada que aluga um apartamento em Tóquio, tendo em vista ficar com a filha enquanto enfrenta o divórcio nada confortável com o seu ex-marido. O prédio em ruínas, além dos elementos sobrenaturais que começam a se sobrepor colocam em xeque a sua sanidade, num desdobramento angustiante de dores, mágoas e incertezas. Alegoria para o seu estado espiritual, o local começa a ficar cada vez mais opressor, principalmente depois da insistente presença espiritual que deseja comunicar algo misterioso no passado recente do prédio. É quando começa a sua investigação minuciosa.

No filme, acompanhamos a mãe, Yoshimi Matsuba (Hitomi Kuroki), juntamente com a sua filha Ikuko (Rio Kanno), numa saga que segue os traços narrativos da história literária. Paredes sujas, elevadores com funcionamento questionável, mas a proximidade com a escola e outros elementos que tornam a sua vida menos complexa fazem com que Matsuba aceite morar num espaço tão degradado, mas com proposta de se tornar um lar harmonioso em breve. O problema é que o síndico não é lá muito ético, o agente de portaria é ineficiente e o seu ex-marido, pressionador, espera o primeiro deslize dela para ganhar a custódia total da menina. E assim, a sua missão parece caminhar para dar certo depois que a sua filha começa a apresentar um comportamento a ser analisado. Uma amiga imaginária preocupa a mãe, para logo depois, se fazer presente em aparições insistentes com a sua capa de chuva amarela e uma bolsa vermelha que conecta a história do começo ao fim.

São elementos que aparecem constantemente, até descobrirmos, junto com a protagonista, que a presença sobrenatural parece focada em comunicar algo e não sossegará até ter a sua missão completada. Ao que parece, a menina caiu na gigantesca caixa de distribuição de água que fica no último nível do prédio. A sua morte por incompetência da gestão a levou cedo demais dessa vida e o espírito não busca uma revanche mais estrondosa como a de Samara de O Chamado, mas promete não deixar ninguém sossegado até conseguir se comunicar e ter o que tanto deseja: uma mãe para si. Água escura a jorrar das torneiras, um vazamento oriundo do andar de cima, aparentemente inabitado, fios de cabelos que saem das tubulações, dentre outros elementos tornam a convivência no prédio um pesadelo. Tal como no conto, encontramos como subtexto, algumas reflexões sobre atrocidades oriundas dos seres humanos, além de uma representação do Japão após a estagnação econômica entre os anos 1980 e 1990, responsável por crises que promoveram descontroles financeiros, processos inflacionários, etc., além de problemas no campo imobiliário, questões que desdobram, na ficção e na realidade, no bojo das famílias e suas organizações internas.

Assim, tendo Hideo Nakata na direção, a versão cinematográfica chamada Dark Water contou com o roteiro de Yoshihiro Nakamura e Kinichi Suzuki, dramaturgos responsáveis por captar os trechos mais cinematográficos do conto, numa boa proposta de tradução intersemiótica. O filme é eficiente ao trabalhar medos comuns na infância de qualquer ser humano, tais como a incerteza se alguém vem te buscar depois da escola, ou então, se você conseguirá reencontrar-se com a sua mãe ou tutor após um breve momento em que as mãos se desencontram. São elementos aparentemente muito simples, mas com carga dramática importante para a história se desenvolver, sendo o equivalente dramático ao medo do monstro que pode habitar a região embaixo de nossa cama, como nos sentimos, por exemplo, diante das entidades de O Grito, de Takashi Shimizu.

Importante ressaltar que em seu processo adaptativo, Dark Water consegue ser eficiente ao construir uma narrativa com traços visuais e elementos sonoros que contemplem todo o material disponibilizado pelo conto. A direção de fotografia de Junichiro Hayashi trabalha bem a iluminação dos espaços, pondo e sobrepondo luz em determinados espaços, num contraste com outros, sem luz abundante, justamente os ambientes por onde devemos começar a desconfiar. A profundidade de campo também é um ponto forte da história, pois coloca os personagens diante de espaços opressores, ou então, incertos, haja vista a sobreposição de planos entre quem é ameaçado por algo e quem traz o perigo para a cena. A trilha sonora de Kenji Kawai também merece pontos por não ser intrusiva demais, num acompanhamento que não faz o espectador dispersar diante dos poucos personagens que circulam pela trama. Os efeitos sonoros investem em alguns breves ferrões sonoros, para não ficarmos apenas na crítica ao sistema hollywoodiano e seus efeitos exagerados.

Mesmo que utilize com cautela, há alguns trechos com o que podemos chamar de versão nipônica do jumpscare. Ainda na seara dos efeitos, a cena do elevador é “completamente” Stanley Kubrick e O Iluminado, mesmo que os realizadores neguem as ressonâncias de um dos mestres do cinema ocidental. Ademais, ao longo de seus 101 minutos, Dark Water apresenta ao público alguns momentos de horror sobrenatural, todos muito sutis, diferente dos costumeiros ferrões sonoros e efeitos visuais do cinema estadunidense, recursos que ao contrário do que muita gente fala, acredito que sejam atmosféricos também, mas que não devem ser utilizados de maneira abusiva, como desculpa para promover entretenimento diante de uma história anêmica. Sendo assim, temos uma história de horror genuína, psicologicamente forte, revestida por camadas generosas de um ótimo drama familiar, tão eficiente quanto à sua refilmagem.

Dark Water (Honogurai mizu no soko kara) — Japão, 2002
Direção: Hideo Nakata
Roteiro: Kôji Suzuki, Ken’ichi Suzuki, Takashige Ichise, Yoshihiro Nakamura, Hideo Nakata
Elenco: Hitomi Kuroki, Rio Kanno, Mirei Oguchi, Asami Mizukawa, Fumiyo Kohinata, Yu Tokui, Isao Yatsu, Shigemitsu Ogi, Maiko Asano, Yukiko Ikari, Shinji Nomura, Kiriko Shimizu
Duração: 114 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.