Crítica | Água Negra (2005)

De todas as refilmagens estadunidenses oriundas da cultura oriental, Água Negra pode se considerar a mais bem concebida cinematograficamente. O Chamado, lançado anteriormente, é um cuidadoso exercício de linguagem, trouxe uma mitologia bem concebida de personagens, desempenhos dramáticos cuidadosos, em especial, o trabalho da dupla protagonista, isto é, mãe e filho, interpretados por Naomi Watts e David Dorfman. No entanto, os elementos visuais e sonoros de Água Negra, juntamente com a espetacular direção de Walter Salles, transformaram a releitura do horror dramático familiar nipônico num filme que não fica a desejar em nenhum aspecto em relação ao seu ponto de partida. Ele acrescenta, na verdade, elementos interessantes, trabalhados de maneira mais intensa, num trabalho que soube mesclar bem os aspectos do drama em simbiose com traços peculiares das narrativas de horror sobrenatural.

Tal como Dark Water, de Hideo Nakata, sua contrapartida oriental respeitada no processo de tradução cultural, Água Negra nos apresenta uma mãe diante da angustiante luta para se reinventar depois de um divórcio doloroso, algo que parece longe da superação, principalmente por conta da sua filha, personagem que fica entre os seus desejos maternais e os interesses e preocupações paternais do ex-marido, um homem em dúvida quando o assunto é a capacidade psicológica da ex-esposa em cumprir as suas demandas básicas como mãe. No meio do caminho ainda há duas questões que tornam tudo ainda mais insuportável: os vazamentos no apartamento e a presença de algo sobrenatural que vai tornando-se mais explicado ao passo que a narrativa avança e nos demonstra que parece não haver fim para o tormento da protagonista.

Antes de continuar, um breve exercício de recapitulação para não nos perdermos. Na versão estadunidense, acompanhamos o cotidiano burocrático de Dahlia (Jennifer Connelly), uma mulher que amarga o processo recente de separação e precisa enfrentar o ex-marido, Kyle (Dougray Scott), um homem preocupado em relação à capacidade da esposa de prover o mínimo para a filha, Cecil (Ariel Gade). Em busca de situações ajustáveis à sua situação, Dahlia arruma um apartamento num prédio que tem como administrador, o Senhor Murray (John C. Reilly), e, como agente de portaria, o Senhor Veeck (Pete Postlethwaite). O segundo, em especial, é um personagem importante para compreendermos o desfecho da história. Jeff Platzer (Tim Roth) surge como o único fio de esperança para a sua situação, advogado que se revela paciente e preocupado com o desfecho da história de sua cliente.

Assim, o que aparentemente era um lugar horroroso, mas única opção perto da escola e do metrô, torna-se o pior de seus pesadelos, pois um vazamento insiste em se fazer presente, oriundo do andar de cima. O problema é que não mora ninguém no local. Além disso, Dahlia começa a ser questionada pelas pessoas e depois se autoquestiona diante da presença da amiga imaginária de sua filha, responsável por uma mudança brusca de comportamento da garota, tanto na escola quanto em casa. Nós, espectadores, sabemos que não há nada de suposto nesta história, mas para Dahlia será preciso mais tempo para que a presença sobrenatural se manifeste com maior esforço e exponha os seus interesses, com necessidades dramáticas que giram em torno do mesmo que Samara e Sadako, de O Chamado e Ringu, respectivamente, buscavam: o desejo maternal declarado, haja vista os seus históricos familiares traumáticos em vida. A entidade em Água Negra não chega a ser tão macabra quanto Kayako, de O Grito, mas tal como o espírito vingativo criado por Takashi Shimizu, é irredutível diante de seus propósitos, sem pudor algum em ceifar a vida da filha de Dahlia para ocupar o seu lugar no seio familiar. Importante observar que nos flashbacks memorialísticos da protagonista, tal como a entidade, ela também desejou ter tido uma representação maternal mais ideal em sua vida.

Ademais, ao longo de seus 105 minutos, Água Negra nos apresenta uma atmosfera que de alguma forma nos leva rumo aos trabalhos de Roman Polanski, um dos diretores mais competentes diante do processo de construção de atmosferas opressivas e angustiantes, impossíveis de deixar espectadores reflexivos incólumes, dispersivos ou sem uma fagulha de sensibilidade perante o cotidiano de Dahlia e sua filha em busca de uma chance na vida para recomeçar. Uma resposta para essa interpretação está na assinatura de Rafael Yglesias no roteiro, o mesmo de A Morte e a Donzela, um filme renomado do cineasta. O restante é competência da equipe de maneira geral, grupo de profissionais que conseguiu construir uma narrativa com graduais progressões dramáticas, sem apelar para o típico final feliz, comum nas produções da terra do american way of life.

Água Negra não chega a ser exatamente um filme pessimista, mas parece algo mais realista para a condução de trajetórias que diante de nossa realidade, dificilmente encontraria um desfecho mais fácil. Diante do exposto, temos uma narrativa que funciona muito bem, por ser dirigida de maneira cuidadosa, interpretada com cautela por seu elenco e também por trabalhar adequadamente os elementos da linguagem cinematográfica, dispostos num bom serviço para condução narrativa.  A começar pela direção de fotografia de Afonso Beato, consistente na captação de quadros angustiantes do espaço por onde circulam os personagens. Toda essa angústia, por sinal, às vezes ganha tons oníricos, haja vista os filtros utilizados nas cenas dos espaços externos e na iluminação proposta como base para por e sobrepor pessoas e objetos nos cenários de Clive Thomasson, adornados pela direção de arte de Nick Evans, ambos integrantes do design de produção de Therese DePrez, focado na paleta com traços de três cores dominantes: azul, verde e cinza.

No desenvolvimento dos elementos visuais da narrativa, a designer trouxe espaços alegóricos para a tristeza que cerca o cotidiano de Dahlia e de sua filha. Elas vivem no espaço com vazamentos e goteiras que ganham uma dimensão asquerosa do meio para o final, além de ter que conviver com paredes sujas, escadarias escuras e tortuosas, completamente tomada pelo clima local na Ilha de Roosevelt, onde moram, anexo pobre de Manhattan, local com arquitetura, digamos, industrial, padronizada e opressiva, sem lampejo algum de “arte” ou sensibilidade estética em sua construção apenas em busca do funcional. É um ambiente de compartimentos, alegóricos para a situação de muitas pessoas em espaços urbanos movimentados, mas com indivíduos fechados dentro de suas caixas sem identidade, numa gravitação constante em torno da solidão. O apartamento é cheio de desenhos da garota, expostos de maneira a tornar o ambiente num espaço em busca por algo que lhe aproxime do que se convencionou a chamar de lar. O setor ganha mais dimensão quando associado aos efeitos visuais da equipe de Mark O. Forker, eficientes na construção da sensação de melancolia diante da chuva que parece não ter fim, ora mais calma, ora torrencial.

Mais impactante que Dark Water em termos visuais, não apenas por maior orçamento da produção, mas pelo cuidadoso trabalho de Walter Salles e de sua equipe, Água Negra também é uma narrativa dramaticamente magnética por conta dos desempenhos da dupla protagonista, interpretada por Jennifer Connelly e Ariel Gade. Há muito de sua personagem em Casa de Areia Névoa na performance de Connelly, haja vista o tom temático relativamente semelhante entre as duas histórias, ambas sobre habitação, dignidade, melancolia e uma sensação de opressão em espiral agonizante. Ah, e com finais desfavoráveis para os desejos iniciais de seus personagens. Ao fim, a produção se revela bem próxima dos pontos de partida, isto é, o filme de Hideo Nakata e o conto de Konji Suzuki, histórias sobre os desdobramentos de situações que nos cobram algo como parte de suas consequências.

É um ciclo narrativo excepcional, das páginas às telas, entre o oriente e o ocidente, como poucas ocasiões diante da febre das refilmagens de produções orientais que tomou a indústria cinematográfica, em especial, ao longo da década de 2000, mas com alguns ecos distantes na década atual, 2010, manifestações ainda presentes, mesmo que menos ressoantes e memoráveis, haja vista a incursão, em pleno 2020, no território de O Grito e Takashi Shimizu, seara narrativa relativamente recente e sem necessidade, ao meu ver, de um reboot, além do anúncio de uma série sobre o universo de Kayako e Toshio.

Água Negra (Dark Water) — Estados Unidos, 2005
Direção: Walter Salles
Roteiro: Kôji Suzuki, Rafael Yglesias
Elenco: Jennifer Connelly, Ariel Gade, John C. Reilly, Tim Roth, Dougray Scott, Pete Postlethwaite, Camryn Manheim, Perla Haney-Jardine, Debra Monk, Linda Emond, Bill Buell, Warren Belle
Duração: 110 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.