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Crítica | Águas Negras (2021)

por César Barzine
350 views (a partir de agosto de 2020)

Muitos são os atritos que atordoam Tara (ela ainda se encontra traumatizada pela morte do irmão, vive uma vida medíocre como garçonete e terminou o relacionamento com o seu namorado), apesar de tantos problemas, a imagem que ela transmite prende a sua personagem a superfície, carecendo de maior ênfase sob tal sofrimento. Águas Negras se inicia justamente expondo a raiz de um desses problemas, que é a morte estranhamente acidental de seu irmão, que imediatamente demonstra ter um comportamento que importuna a jovem Tara. Essa primeira cena já indica todo o anticlima que acompanha boa parte do longa de Nanea Miyata: a situação é encenada de uma forma completamente banal, com atuações frias e diálogos inócuos. O que não são, como dito, fatores isolados aqui.

Apesar dessa sequência se configurar como um flashback que antecede dez anos da narrativa principal, ela acaba sintetizando a abordagem precária de Águas Negras, que se confirma na apresentação da protagonista mais velha e sua melhor amiga, Amy. Esta, uma personagem pessimamente construída e interpretada por Angela Gulner: antipática de modo involuntário, vulgar e insípida na caracterização de mulher rica sustentada pelos pais. A dupla de amigas não possui a menor química e transmitem uma atmosfera mecânica nas constantes conversas monolíticas (Amy tentando levantar o ego de Tara), constituindo uma relação homogênea que se altera somente mediante a alguns conflitos que carregam a mesma natureza da bajulação presente nelas: a vida meio desolada de Tara e a vida mesquinha de Amy.

O que provoca essa inversão na relação das duas é a presença de Lucas, um desconhecido que acaba residindo na mansão que a família de Amy possui no campo. De início, as duas se encontram sozinhas, portanto a chegada de um estranho é a peça-chave para o suspense do longa – e um baita clichê, diga-se de passagem. A direção é dona de algumas boas ideias na orquestração desse suspense, fazendo um constante uso de planos em ângulos distorcidos, dando a ideia de que há uma terceira pessoa escondida observando as conversas entre Tara e Amy, ou simplesmente qualquer coisa estranha habitando aquele espaço. Outro maneirismo que merece destaque são os breves travellings usados em volta de alguns personagens, fornecendo fluidez e uma pequena dose de tom fantasmagórico ao filme.

Em contrapartida, o espectador sofre com o péssimo uso de plano-contraplano utilizado numa cena de conversa à beira-mar em que Amy e Tara aparecem separadamente em enquadramentos fechados, dando um incômodo e falta de coesão na ligação entre os planos. O mesmo nível de incômodo se encontra em momentos que buscam realçar movimentos corporais dos personagens em consonância com uma montagem picotada a fim de transparecer a intensidade de tais passagens. O instante em que Amy e Lucas estão flertando na sala de jogos mais os flashbacks e trechos “tensos” envolvendo a identidade de Lucas são os exemplares de uma busca brochante por evocar certa excitação, mas que terminam sendo apenas momentos de vergonha alheia – o que é reforçado pelo péssimo uso de músicas pop na trilha sonora.

A mesma técnica é colocada em prática mirando, neste caso, exclusivamente em Tara, porém com o objetivo de perturbá-la ao resgatar seu grande trauma do passado (a morte do irmão). O que, desta vez, além de causar a já repetida sensação de constrangimento, ainda trabalha como um artifício extremamente frágil para a resolução da trama, ocupando parte do papel de um plot twist, no mínimo, bem risível. A figura de Lucas, que até então mantinha razoável suspense – apesar de seu personagem não ser nada demais -, revela-se a partir dessa reviravolta; que se apresenta como uma sacada preguiçosa e desconcertante, sendo tão burra que seria difícil imaginar algo pior.

Essas mudanças no terceiro ato formam uma trama que consegue ser inferior a fanfic mais fuleira encontrada por aí. O filme vai de algo meio lento e sugestivo – o que não é sinal de sofisticação – para uma série de intrigas desleixadas com revelações genéricas que beiram ao nonsense. Em seguida, Águas Negras chega ao seu clímax, que também pode ser chamado de anticlímax, já que é justamente um dos piores momentos do longa: uma situação de risco em que Tara é a grande heroína, mas que atinge tal triunfo de modo previsível e dentro de uma situação tão pobre que faz jus a reviravolta que a levou para o perigo que se encontrava.

Apesar do quão jocoso é a presença de Lucas no terceiro ato, é Amy que mais se destaca negativamente por ser antipática do início ao fim. É deprimente acompanhar ela como uma dondoca rica que não faz absolutamente nada da vida, e que nem sequer consegue criar uma personalidade firme no estereótipo de patricinha. Além disso, o figurino brega e vulgar que ela costuma usar também não ajuda muito em qualquer identificação positiva que o público possa ter com ela. Mas o filme em si não é muito diferente dela própria: frio, chato e tosquinho.

Águas Negras (Dead in the Water – EUA, 2021)
Direção: Nanea Miyata
Roteiro: Nanea Miyata
Elenco: Angela Gulner, Sam Krumrine, Michael Blake Kruse, Catherine Lidstone, Peter Porte
Duração: 92 minutos.

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