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Crítica | Albéniz: Iberia Livros 1 & 2 / Espanha, de Daniel Barenboim

por Marcelo Sobrinho
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Daniel Barenboim nunca foi o meu pianista predileto para a interpretação de nenhum compositor ou período da História da Música. Apesar de ser um artista do mais alto quilate e com atuação brilhante como regente de grandes orquestras (destacando-se inclusive na regência de óperas), enquanto pianista nunca o considerei na mais alta prateleira. De estilo interpretativo bastante cerebral e analítico, o pianista e maestro argentino entrega gravações corretas, mas sem o brilho musical de outros intérpretes cerebrais. Em resumo, Barenboim sempre foi para mim algo como um Alfred Brendel com menor brilhantismo. Exatamente por isso, sua gravação dos dois primeiros livros de Iberia, de Isaac Albéniz – obra máxima da música erudita espanhola, juntamente com a suíte Espanha, me surpreendeu positivamente de forma tão intensa.

É verdade que Barenboim não se aventurou a gravar os dois últimos livros de Iberia, que são ainda mais exigentes do ponto de vista técnico. Mas o trabalho que faz com os dois primeiros cadernos quase ombreia com as duas melhores e mais importantes gravações da mesma obra – os registros fulgurantes dos espanhóis Alicia de Larrocha e Estéban Sanchez. O argentino, tanto por sua musicalidade fora do comum como por sua latinidade que o aproxima da concepção musical espanhola, toca as seis peças como um autêntico espanhol. Seu traquejo com o toque percussivo de tal música, de sabor violonístico, e com as respirações e a ornamentação do fraseado albeniziano conquistam logo de saída, com uma belíssima leitura de Evocación.  Sente-se todo o clima de reminiscência em uma interpretação matizada e com um perfeito controle de dinâmica e agógica. A beleza com que se faz a reexposição do segundo tema é extasiante.

A seguir, o pianista argentino apresenta as demais peças de Iberia com a mesma desenvoltura da primeira. Destaque especial para uma leitura quase lisztiana de Corpus Christi em Sevilha, em que Barenboim usa toda a beleza timbrística do piano e poderosos fortíssimos para dar o caráter coral da peça, que retrata a tradicional festa religiosa dessa cidade, que reúne um enorme número de pessoas, que cantam e marcham juntas para celebrar a ressurreição de Cristo. Já a interpretação de Almeria não perde o colorido espanhol, mas as passagens mais suaves lembram as texturas da música de Claude Debussy. Esse é possivelmente um diferencial da gravação de Barenboim em comparação às dos pianistas espanhóis que citei – o argentino mergulha com profundidade no caráter ibérico, mas não se furta a incrementar sua interpretação com seu próprio pensamento musical. O resultado é muito bom e não há qualquer deformação estilística, visto que o próprio Albéniz compôs a obra quando morou na França e foi enormemente influenciado pelos compositores daquele país, como Debussy e Ravel.

A segunda obra do disco é bem menos dispendiosa do ponto de vista interpretativo e técnico e, ao meu ver, menos interessante. Talvez, em sua segunda metade, o disco empolgue menos não pela execução de Barenboim ao piano, que segue inspirado e correto em tudo o que faz, compreendendo o caráter dançante, festivo, melancólico e recitativo das diversas peças nas quais adentra. A suíte Espanha traz um breve panorama do país. Destaco a interpretação cheia de verve do famosíssimo Tango, que o pianista enche de cores e graça ao ressaltar toda a beleza contrapontística que artistas menos capazes muitas vezes deixam passar ao largo. Barenboim fecha sua gravação com Zortzico, uma dança bastante típica do País Basco. A aventura espanholda do pianista e regente argentino não é concluída com uma peça de efeito, é verdade, mas ao menos com mais uma interpretação vigorosa e de compreensão plena do texto musical.

Essa gravação de Albéniz realizada por Daniel Barenboim, especialmente a da suíte Iberia, é provavelmente um de seus últimos grandes registros. Depois dela, pianistas de renome voltaram a se aventurar nesse repertório, que está longe de figurar entre os mais apresentados e gravados. O chinês Lang Lang, por exemplo, gravou diversas peças da famosa suíte, mas considero o registro bem pouco exitoso. Quem quiser ouvir Isaac Albéniz em sua concepção mais pura continuará procurando por Alicia de Larrocha. Mas para quem quiser conhecer uma versão igualmente interessante, mas um pouco mais cosmopolita do compositor espanhol, é bom não se esquecer dessa pérola gravada por Daniel Barenboim, no ano de 2001, pelo selo Teldec.

Albéniz: Ibéria Livros 1 & 2 / Espanha – Espanha, 2001
Artista: Daniel Barenboim.
Selo: Teldec
Duração: 62 minutos.

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