Crítica | Alce & Alice

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Com produção da Mourão Filmes e Verte Filmes, Alce & Alice (2017) é uma websérie brasileira criada por Diego Barrios e Tiago Rezende, uma história de amor, ódio e produção de uma série (isso, dentro da série) envolvendo um alce, um ator que não sabe o que é Cidade de Deus, Se Eu Fosse Você e Tropa de Elite, e uma estagiária-atriz-produtora-faz-tudo que mantém o barco seguindo… para o abismo.

A primeira coisa que o espectador deve levar em consideração aqui é o formato, o histórico de produção e a intenção de Alce & Alice (na verdade isso deve ser considerado quando se vai analisar qualquer produção, mas vocês entenderam). Uma série de formato pequeno, com recursos limitados, distribuição praticamente nula e uma temática metalinguística que possivelmente só atingirá ao público cinéfilo ou seriador. Mas nenhuma dessas partes aqui está colocada como algo negativo. A identidade de Alce & Alice é, em essência, direcionada a essa parte das pessoas que consegue entender piadas e brincadeiras estéticas com House of Cards, CSI e Breaking Bad, Game of Thrones, mas, principalmente, que consegue sentar e assistir a uma jornada metalinguística, criativa e fora da cartilha do “quero ser polêmico” de contar uma história.

Mesmo como comédia, Alce & Alice não é uma série comum. O riso vem através de diálogos cínicos, de situações irônicas e clichês cinematográficos ou televisivos que podemos pegar nos diálogos, nas atuações fake (que acabam sendo um problema a partir de determinado ponto) e do comportamento completamente díspar entre os três indivíduos que produzem a série dentro da série. Na história, William (Thiago Prade) é um playboy filho de uma Senadora com ambições de ser Governadora do Rio Grande do Sul. Solitário e pseudo-cinéfilo o rapaz contrata Alice (Kaya Rodrigues) e Stive (Gabriel Faccini) para atuarem na “série do alce”, uma ideia completamente absurda (e por isso mesmo, hilária) que William teve para um “programa revolucionário”. Ocorre que o jovem não tem a mínima ideia de como avançar com a produção e nem de como administrar o sucesso da série, quando enfim acontece.

Ao longo dos quatro episódios é possível ver de tudo. Bordões clássicos da TV, recriação da famosa “cena do biscoito” (ou bolacha?) de Friends, brincadeira com western spaghetti, pôster de Pulp Fiction na parede e mais uma infinidade de indicações da Sétima e de outras artes que se aglutinam organicamente na produção da “série do alce”, tendo um dos momentos mais absurdos e que me fizeram ter cólicas de rir, quando chegam as sequências do dublê. Nisso tudo, o único ponto que realmente me incomodou foi uma opção mais natural e leve do trio protagonista para levarem as suas atuações como “pessoas reais”. Quando comparadas com as atuações fake e afetadas deles na “série do alce” ou com os depoimentos, esses momentos como “pessoas reais” deveriam ter um peso diferente, justamente para marcar a diferença emocional deles em cada um dos estágios: o presente desgraçado, o passado insano e os papéis afetados.

Alfinetando digital influencers, críticos, produtores e o próprio sistema de comunicação de massa no Brasil (mas a crítica serve para qualquer lugar onde exista um monopólio de comunicação), Alce & Alice é uma série inteligente sobre como fazer uma série inteligente e insana. O capítulo final, com participação de Jorge Furtado (de quem já percebíamos a vibe de Saneamento Básico) é a cereja do bolo e vem em um momento onde todos os sonhos, tentativas ou brincadeiras sobre como produzir algo para a internet e depois para a TV já tinham sido feitas. A chegada de um cineasta veterano para “salvar” a série é uma piada (das grandes!) que tem um fundo de verdade capaz de deixar muita gente discutindo por horas. Fazia bastante tempo que eu não me divertia tanto vendo uma série brasileira. Que o Deus-Alce nos traga a Segunda Temporada!

Alce & Alice (Brasil, 2017)
Criadores:
 Diego Barrios, Tiago Rezende
Direção: Diego Barrios, Tiago Rezende
Roteiro: Gabriel Faccini, Tiago Rezende, Tomas, Tomas Fleck, Rafael Duarte
Elenco: Áurea Baptista, Gabriel Faccini, Eduardo Mendonça, Thiago Prade, Kaya Rodrigues, Jorge Furtado
Duração: 4 episódios de 30 minutos

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.