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Crítica | Alegre Prisão

por Luiz Santiago
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A vida de casado, as relações entre homens e mulheres e a configuração ou mesmo a representação dos gêneros foram elementos que já se mostraram bem fortes e foram amplamente utilizados nos primeiros anos de Ernst Lubitsch como diretor, recebendo, a cada pequena comédia, um olhar ainda mais ácido, mais irônico e mais engraçado, como o que temos neste curta de 1917, chamado Alegre Prisão.

O primeiro ato — que é o mais fraco do filme, especialmente nos primeiros minutos — estabelece as raízes da história, na qual um casal aparentemente cheio de liberdades em relação às aventuras noturnas do parceiro, cria subterfúgios para diferentes fins: o esposo Alex von Reizenstein (Harry Liedtke), quer viver mais uma noite paquerando o maior número de mulheres possíveis, bebendo, dançando e se divertindo com seu melhor amigo. Já a esposa Alice (Kitty Dewall) procura não só pegar o marido no flagra, como também criar uma situação para impedir que essas escapadas noturnas do marido continuem acontecendo.

No momento em que assenta todos esses elementos na base simbólica do “casamento como prisão“, o diretor passa a usar o seu toque humorístico para mostrar como o comportamento de cada um pode ser julgado e como as mais simples ações cotidianas podem gerar encontros, desencontros e desentendidos que tornam situações até então delicadas ou ruins em um verdadeiro caos. A base de sua comédia está entre o humor de costumes e a quebra de expectativas somada a dubiedades nas ações de alguns personagens (vejam como o policial vivido por Emil Jannings sai beijando outros homens na boca), tornando-se ainda mais curiosa quando a analisamos sob um olhar de cento e poucos anos depois.

E não é só comédia e o texto melhoram a partir do finalzinho do primeiro ato. A direção de Lubitsch e a montagem também criam momentos visualmente impagáveis, conseguindo, através de cortes muitíssimo inteligentes (destaque para todas as passagens do baile para a “prisão feliz” e vice-versa), experimentações de perspectiva (o policial bêbado tendo o olhar turvo e tonto representado pela câmera) e planos ou ângulos não muito comuns nesse momento da História do Cinema (os plongées panorâmicos nas cenas do baile ou a cena através do vidro que uso como destaque nessa crítica) dão um charme a mais à obra, fortalecendo visualmente aquilo que o enredo já se encarregara de tornar bom e engraçado.

A cadência de eventos entre o penúltimo e o último ato é a minha favorita, concentrando alguns dos melhores momentos do filme, como a chegada do verdadeiro Reizenstein à prisão e a posterior sequência em que o esposo vai acarear a esposa e acaba atendendo a porta para dois diferentes homens segurando buquês de flores. O tom irônico do diretor nos faz pensar sobre aquilo que normalmente é exigido em um casamento, e como a quebra desse contrato acaba sendo vista pelos diferentes lados da relação. O assunto é até bastante sério, mas aqui acaba sendo trabalhado de maneira hilária, com um humor recheado de cinismo e comportamentos — especialmente os amorosos — que por mais comicamente exagerados que estejam na tela, são facilmente encontrados em muitas das relações que temos hoje em nosso mundo. Uma prova que essa visão do diretor não envelheceu nadinha.

Alegre Prisão (Das fidele Gefängnis) — Alemanha, 1917
Direção: Ernst Lubitsch
Roteiro: Ernst Lubitsch
Elenco: Ernst Lubitsch, Harry Liedtke, Emil Jannings, Paul Biensfeldt, Erich Schönfelder, Käthe Dorsch, Kitty Dewall, Agda Nilsson
Duração: 48 min.

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