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Crítica | Além das Muralhas do Sono e Outras Histórias, de H. P. Lovecraft

por Luiz Santiago
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No presente compilado, trago as críticas para os  contos escritos por H. P. Lovecraft entre os anos de 1918 e 1921. São eles: Polaris, O Velho Bugs, A Transição de Juan Romero, Além das Muralhas do Sono, Memória, A Nau Branca, Doce Ermengarde ou O Coração de uma Moça do Campo e O Depoimento de Randolph Carter.

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Polaris

Polaris é considerado um dos contos mais fortemente autobiográficos de H.P. Lovecraft, revelando de maneira muito clara a frustração do autor como “um inútil” durante a 1ª Guerra Mundial — o conto é escrito no ano de encerramento do conflito. Como já estamos acostumados nas aventuras do autor, a história começa com uma visita onírica escrita com angustiante atmosfera, especialmente na forma como a Estrela Polaris é apresentada, como um olho maléfico que olha para o protagonista, quase querendo passar algum tipo de recado, ao mesmo tempo que emana uma energia opressiva.

Uma das coisas que sempre gostei em contos de caráter onírico é a passagem sutil e ao mesmo tempo forte que se faz entre a vigília, o mundo da realidade e a entrada consciente no mundo dos sonhos. Neste conto, o narrador começa como uma presença tímida, amedrontada e confusa numa certa cidade, mas alguns períodos à frente do texto já o vemos vivendo ali, com um grande amigo e um compromisso patriótico que, para sua grande tristeza, não consegue honrar. Este conto ainda tem uma marca importante por nos trazer a primeira aparição dos Manuscritos Pnakotic. Aqui também temos a citação dos Pais Zobnarianos e da cidade de Lomar, na Terra dos Sonhos (Dreamlands), onde o protagonista vive as suas angústias.

O conto nos lembra consideravelmente certas narrativas de Edgar Allan Poe, mas carrega um tom de horror próprio de Lovecraft, com um encerramento tenebroso e muito inteligente, colocando os demônios do mundo do sonho lutando com o sonhador, algo que nos faz discutir a própria natureza da realidade desse personagem e daquilo que ele nos relata. Uma história curta, mas que consegue fazer com que a gente tenha medo de qualquer estrela brilhante no céu… vai que ela está olhando para nós com uma intenção não muito acalentadora, não é mesmo?

Polaris — Estados Unidos
Datas de escrita e publicação originais: entre 1918 e dezembro de 1920
Publicação original: The Philosopher
Autor: H. P. Lovecraft
8 páginas

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O Velho Bugs

Algo importante a se considerar nesse conto é o fato de que Lovecraft era um abstêmico. E desse fato podemos entender bem o caminho que ele trilhou na escrita dessa narrativa de cunho moral, assumidamente endereçada ao amigo Alfred Galpin, que virou o personagem central do conto, visto em seus dias de alta velhice em estado patético, decadente e conhecido por todos apenas como “Velho Bugs”.

O ponto sobre o que o vício pode fazer com uma pessoa é muitíssimo válido e todos nós sabemos o quão verdadeira é a representação que o escritor cria de um alcoólatra aqui. Mas há evidentemente um enorme exagero na estrutura do conto, na exposição de toda essa jornada de desgraças que o Velho Bugs teve em sua vida (até a linha romântica é forçada), tentando inutilmente impedir que jovens aventureiros experimentassem o seu primeiro gole de bebida.

O Velho Bugs (Old Bugs) — Estados Unidos
Datas de escrita e publicação originais: c. julho de 1919 e 1959
Publicação original: The Shuttered Room and Other Pieces
Autor: H. P. Lovecraft
10 páginas

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A Transição de Juan Romero

Lovecraft escreveu A Transição de Juan Romero como um exercício particular, destinado apenas aos olhos de um amigo, que foi quem preservou o original e permitiu a sua publicação em 1944, alguns anos após a morte do autor. A ideia de Lovecraft era tornar interessante e um tanto amedrontadora a vida em um cenário absolutamente mundano, como o ambiente de uma cidade mineradora (cenário de alguns westerns). O narrador, que não revela o seu nome, volta da Índia para os Estados Unidos e passa a trabalhar numa recém-descoberta mina de ouro, ganhando um amigo pouco tempo depois, o tal Juan Romero do título.

O que me intrigou aqui foi a estranha “ligação” que o autor estabelece entre um anel indiano e um deus da mitologia asteca, Huitzilopochtli, divindade do Estado e da guerra e o padroeiro da cidade de Tenochtitlán, capital da confederação asteca. Há a sugestão de que o abismo aberto dentro da mina que o narrador visita com o estranho Romero, numa noite de tempestade, manifestou essa divindade asteca e que a transição do mexicano para “o outro lado” tenha sido horrenda, sendo ele, em simples palavras, o objeto de um sacrifício. Mas trata-se de indicações fraquinhas, com o final do conto carecendo daquela paulada que normalmente encontramos nos melhores escritos lovecraftianos.

A Transição de Juan Romero (The Transition of Juan Romero) — Estados Unidos
Datas de escrita e publicação originais: 16 de setembro de 1919 e 1944
Publicação original: Arkham House
Autor: H. P. Lovecraft
11 páginas

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Além das Muralhas do Sono

Joe Slater é um paciente de alta periculosidade internado em um Instituto. Sendo preso após um cruel assassinato nas Montanhas Catskill, onde vivia, o homem foi transferido para um hospital de doentes mentais para ser tratado por seus comportamentos violentos e principalmente por seus sonhos inquietos. Nos sonhos desse homem é onde supostamente existia o lugar de onde vinham todas as coisas que o perturbavam e que o faziam cometer terríveis atos em estado de vigília. Esse é o ponto de partida de H. P. Lovecraft neste fantástico texto de 1919, narrado por um Doutor não nomeado e que aparentemente é especialista em distúrbios do sono, além de ter uma pesquisa pessoal (e academicamente mal vista) envolvendo transferência de ondas mentais.

Como sempre, o elemento perturbador utilizado por Lovecraft realmente nos toca em seu horror. Primeiro as descrições do paciente (importante destacar que há um forte preconceito na forma como o autor trata o personagem e “a gente das montanhas“) de uma determinada criatura que o perseguia e ria de modo demoníaco. Depois, breves exposições desse espaço onírico, até o derradeiro encontro com a “criatura de luz” que fala coisas absolutamente fascinantes sobre o ciclo da vida, os encontros e reencontros de algumas forças espirituais e os caminhos que a nossa consciência toma em cada uma de nossas existências. É um conto ontológico, de certa forma, mas que lança sementes no solo do misticismo, considerando aí as forças indescritíveis e inomináveis que povoam o Universo lovecraftiano.

Além das Muralhas do Sonho é uma daquelas histórias que a gente lê e toma para a vida alguns pequenos traumas, nesse caso, o de sonhar e simplesmente se esquecer do sonho no dia seguinte. A propósito, é também muito interessante o argumento que o autor sustenta sobre a nossa experiência enquanto estamos dormindo e tudo o que é possível vir ao nosso encontro ou ser visitado por nós durante essas frágeis e inconscientes horas de nossos dias.

Além das Muralhas do Sono (Beyond the Wall of Sleep) — Estados Unidos
Datas de escrita e publicação originais: outubro de 1919
Publicação original: Pine Cones
Autor: H. P. Lovecraft
17 páginas

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Memória

Memória é um conto onde se narra eventos do passado a partir de uma perspectiva totalmente adversa, no tempo presente. Estamos no antigo vale de Nis. As ruínas de pedra estão cobertas de vegetação e sapos cinzentos e cobras fazerem seus ninhos entre as ruínas monolíticas e as folhagens. Nas grandes árvores que rondam esses restos de civilização, pequenos macacos atravessam de um lugar para o outro e, no fundo deste vale, um rio chamado Than corre o grande e viscoso. Todos os detalhes desse território são descritos pelo autor, dando uma sensação de abandono e de atmosfera macabra, uma espécie de consequência para um grande cataclismo ou algo nessa linha.

O final do texto realmente nos faz entender essa ideia apocalíptica. Algo aconteceu para que a humanidade involuísse e voltasse ao estágio de primatas. O demônio do vale e o gênio da luz do luar conversam sobre a natureza de todo aquele terreno e seus habitantes. Um cenário cheio de vida bizarra e com uma espécie pulando nas árvores. Uma espécie cujos antepassados foram chamados de homens. O que aconteceu? Não sabemos. A memória do demônio do vale também não consegue alcançar esse ponto no passado. E isso é o que torna a história ainda mais interessante e um tantinho mais medonha.

Memória (Memory) — Estados Unidos
Datas de escrita e publicação originais: 1919 e maio de 1923
Publicação original: The National Amateur
Autor: H. P. Lovecraft
1 página

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A Nau Branca

Integrando o Ciclo dos Sonhos de Lovecraft, A Nau Branca nos conta a história de um faroleiro chamado Basil Elton, que segue a profissão que fora de seu pai e de seu avô, embora em seu tempo não haja assim tantos navios que dependam do farol. Ele tem um contato particular com o Oceano, que “lhe conta” diversas histórias. Essa relação nos parece indicar o produto de uma mente realmente solitária e isolada no farol, que cria diálogos com essa entidade oceânica e está com olhares e ouvidos abertos para um mundo além do nosso. É nessa esteira que entendemos o por quê Basil consegue enxergar um misterioso navio branco que constantemente aparece na região.

Em certa ocasião, um homem barbudo, vestindo um manto e conduzindo o navio branco, chama o faroleiro. Elton atravessa a água em uma ponte de raios lunares e se junta ao homem barbudo, e juntos eles exploram uma cadeia mística de ilhas, diferente de tudo que pode ser encontrado na Terra. Essa passagem de Elton pelas ilhas desse mundo imaginário (ou maravilhosamente real?) não é exatamente macabra, mas carrega alguma coisa de ameaçadora. Talvez porque Lovecraft sempre teve um jeito sombrio de escrever sobre lugares que precisam ser explorados, então o leitor já fica com aquela ideia na cabeça de que alguma criatura cósmica irá sair do meio das ruínas e perturbar para toda a eternidade o pobre humano que visita esse lugar.

Aqui, porém, nada disso acontece. O que temos é um homem que consegue viver por Eras em Sona-Nyl, um lugar onde não existe a morte e onde viver é realmente algo maravilhoso. A ânsia do homem, porém, o impele para descobrir Cathuria, além dos pilares de basalto do Ocidente. Aquele é o lugar da esperança, o lugar “onde brilham os ideais perfeitos de tudo quanto sabemos haver em outro lugar“. Mas o faroleiro não imaginava que essa sua ânsia de descoberta o faria reiniciar o ciclo, voltando para o lugar de onde saíra e, após perder para sempre “a magia“, o lugar do qual não poderia mais sair. Pelo menos não em vida.

A Nau Branca (The White Ship) — Estados Unidos
Datas de escrita e publicação originais: novembro de 1919
Publicação original: The United Amateur
Autor: H. P. Lovecraft
10 páginas

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Doce Ermengarde ou O Coração de uma Moça do Campo

Considerada pelos estudiosos do autor “a única obra de ficção de H.P. Lovecraft que não se pode datar com precisão“, o pequeno conto Doce Ermengarde ou O Coração de uma Moça do Campo é uma comédia romântica sobre uma moça de 30 anos que diz a todos ter 16 (eu ri demais com essa “pequena diferença”). Escrita sobre o pseudônimo de Percy Simple, essa história só foi publicada em 1943, numa coletânea de contos do autor que saiu nos Estados Unidos pela Arkham House.

É impossível ler as aventuras de Ethyl Ermengarde Stubbs sem rir muito diante da grande cadeia de improbabilidades que o texto nos traz, o que nos faz pensar que a obra seja, na verdade, uma grande zombaria do autor para o estilo de escrita de alguém ou para um determinado gênero literário. Sobre esse assunto, na An H. P. Lovecraft Encyclopedia (2001), os autores S. T. Joshi e David E. Schultz chegaram a sugerir que o escritor mirava Fred Jackson, romancista “cujas novelas tinham exatamente a dose de implausibilidade de enredo, sentimentalidade e ação que as vistas em Sweet Ermengarde“.

Sendo ou não uma paródia, o fato é que o conto nos satura muito rapidamente com o seu nível de imbecilidade. É verdade que existem momentos tão estúpidos que chegam a ser verdadeiramente engraçados, mas toda a estrutura desse bizarro melodrama clama pelo riso de nervoso, como se fossem trechos de várias histórias de amor impossível costurados num único relato em formato parcial de uma peça de teatro. Lovecraft ainda faz piadinhas com o modo de falar dos apaixonados e reserva um plot twist maluco no final. Apesar de valer muito mais como observação metalinguística, Doce Ermengarde tem alguns charmes e vale a pena ser lido por fãs do autor, que encontrarão aqui um escrito raro em sua bibliografia.

Doce Ermengarde ou O Coração de uma Moça do Campo (Sweet Ermengarde: Or, the Heart of a Country Girl) — Estados Unidos
Datas de escrita e publicação originais: entre 1919 e 1921 / 1943
Publicação original: Arkham House
Autor: H. P. Lovecraft
10 páginas

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O Depoimento de Randolph Carter

Este é um dos primeiros contos, dentro da bibliografia de Lovecraft, que mais relevância terá para o seu trabalho posterior, tanto na abordagem da temática ligada ao oculto e aos mistérios assombrosos do Universo, quanto à presença de dois personagens específicos: Randolph Carter (um estudante de ocultismo que simboliza o próprio Lovecraft) e Harley Warren (personagem ocultista baseado em Samuel Loveman, um amigo do autor).

A ação se passa no Pântano do Cipreste Grande, uma localidade geograficamente propensa a coisas terríveis, pela forma como o autor descreve o espaço. Há também um interessante mistério na forma como a narrativa se constrói, porque Carter está prestando depoimento devido a algo muito ruim que aconteceu com seu amigo, e esse tom de “o que será que ele fez?” junto ao tom de “que coisa tão terrível foi essa que surgiu?” marca o início do conto e intensifica todo o restante do drama.

Mesmo que não existam muitos detalhes sobre a criatura vista no ossuário, o leitor tem uma clara noção do nível de horror que ela causou no ocultista Harley Warren. Só a voz da tal criatura fez com que Carter desmaiasse e perdesse a memória do que aconteceu, e por isso imaginamos o poder maligno que foi destravado naquele lugar. Embora o desenvolvimento do conto tenha muito mais reticências do que deveria, em termos de detalhes para que o leitor pudesse aproveitar melhor a história, o início e principalmente o fim deste Depoimento de Randolph Carter são assustadoramente maravilhosos.

O Depoimento de Randolph Carter (The Statement of Randolph Carter) — Estados Unidos
Datas de escrita e publicação originais: dezembro de 1919 e maio de 1920
Publicação original: The Vagrant
Autor: H. P. Lovecraft
18 páginas

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