Crítica | Alemanha no Outono

estrelas 4

Quando nos reunimos, no início, um dos motivos que nos levaram a concluir pela necessidade de fazer o filme era enfrentar o medo. Era necessário que as pessoas que não tinham nenhum meio de produção e estavam, talvez, ainda mais amedrontadas do que nós, não se deixassem intimidar pelo sentimento que reinava então na Alemanha, de que a crítica era inoportuna em qualquer de suas manifestações e deveria ser calada.

R.W. Fassbinder
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Alemanha no Outono (1978) é um filme coletivo, feito por um grupo de 11 cineastas alemães no calor de uma série de acontecimentos sociopolíticos que abalaram a opinião do país no segundo semestre de 1977: o assassinato de Hanns-Martin Schleyer (o odiado Presidente da Confederação de Empregadores da Alemanha Ocidental); o sequestro do avião da Lufthansa (famoso caso do voo 181, que desencadeou a operação “Fogo Mágico” em Mogadíscio, na Somália); e o posterior suicídio na prisão de Andreas Baader, Gudrun Ensslin e Jan-Carl Raspe, da RAF, Fração do Exército Vermelho.

A onda do “terrorismo de extrema esquerda” e o recrudescimento do Estado para políticas de controle da população e permanência intensa da polícia no cotidiano das pessoas fizeram que muitas vozes se levantassem e questionassem os dois lados da moeda, procurando encontrar um caminho que não indicasse o flerte da Alemanha dos anos 1970 com as ideias que deram origem ao III Reich, nos anos 1930. De olho nesses acontecimentos, os tais 11 diretores resolveram fazer um filme que representasse uma ideia coletiva (é curiosíssimo que não haja nenhuma divisão dos segmentos, o que dá ainda mais essa ideia de um pensamento único executado por várias pessoas) sobre essa crise política na Alemanha Ocidental que ficou historicamente conhecida como Outono Alemão, daí, inclusive, o título do filme.

O longa não possui, como já era de se esperar, uma história fechada. Há sim uma ideia coesa e bem arquitetada, mas isso não é colocado de forma sequencial. Começamos com o segmento de Rainer Werner Fassbinder (é impossível não distinguir a estética do diretor frente a de seus colegas), que interpreta a si mesmo — ou a um diretor chamado Fassbinder — e cujo principal elemento em análise é a discussão sobre democracia e penalidade do Estado sobre os indivíduos, sejam terroristas ou pessoas comuns.

Em um dos melhores momentos do segmento, quando o diretor escala sua própria mãe* para falar sobre liberdade e representação política em um Estado cada vez mais centralizador, conservador, temos a seguinte frase: “Você disse que, por cada pessoa assassinada, queria ver um terrorista fuzilado. E isso é democrático?“. Esse diálogo inicia o tom de polarização de opiniões que o longa teve no mundo todo, sendo bem recebido por parte dos espectadores e execrado por outra parte, acusado de defender ideias de terroristas de esquerda, etc. Mas o fato é que Alemanha no Outono dá atenção tanto para o Estado quanto para os integrantes do Baader-Meinhof, mostrando os acontecimentos de forma anti-jornalística, ou seja, dramatizando, problematizando e opinando criticamente sobre os assuntos em pauta.

Em muitos aspectos o filme é um documento de seu tempo, um instantâneo que tentava agrupar as principais ideologias em conflito no país e entender a atuação de cada grupo que as apoiavam, gerando diversas situações como a recepção da morte de Schleyer, questionamentos sobre a prisão de alguns cidadãos, críticas à censura que se estabeleceu nos meios de comunicação (questão dissecada em um segmento onde um cineasta tenta vender uma versão moderna de Antígona para uma distribuidora) e exames metalinguísticos da própria ação dos cineastas e outros intelectuais nesse momentos da História.

Talvez com uma edição mais organizada e algumas cenas de ligação que diminuíssem a sensação de desnorteamento do espectador, o filme se apresentasse mais acessível. Particularmente estes são os meus únicos problemas com o longa: seu ritmo e sua organização narrativa um tanto falhos. Mas tenho conhecimento de que muitos espectadores acham o longa terrivelmente chato, algo que posso entender, embora não concorde. Seja como for, Alemanha no Outono é um filme extremamente importante para se estudar os acontecimentos de 1977 à luz do Cinema Novo Alemão. Uma oportunidade rara, complexa, experimental e necessária para cinéfilos e interessados em História e Política.

** Esta não foi a primeira vez que Fassbinder escalaou a mãe em um filme seu. Na verdade, Lilo Pempeit apareceu em 24 trabalhos do filho, de O Pequeno Caos, em 1966 até O Desespero de Veronika Voss, em 1982.

Alemanha no Outono (Deutschland im Herbst) — Alemanha Ocidental, 1978
Direção: Rainer Werner Fassbinder, Alf Brustellin, Alexander Kluge, Maximiliane Mainka, Beate Mainka-Jellinghaus, Peter Schubert, Bernhard Sinkel, Hans Peter Cloos, Edgar Reitz, Katja Rupé, Volker Schlöndorff
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder, Alf Brustellin, Heinrich Böll, Hans Peter Cloos, Alexander Kluge, Maximiliane Mainka, Beate Mainka-Jellinghaus, Edgar Reitz, Katja Rupé, Volker Schlöndorff, Peter Schubert, Bernhard Sinkel, Peter F. Steinbach
Elenco: Wolfgang Bächler, Heinz Bennent, Wolf Biermann, Joachim Bißmeier, Caroline Chaniolleau, Hans Peter Cloos, Otto Friebel, Hildegard Friese, Michael Gahr, Vadim Glowna, Helmut Griem, Hannelore Hoger
Duração: 123 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.