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Crítica | Alerta Vermelho

Um prelúdio entediante.

por Kevin Rick
7.461 views (a partir de agosto de 2020)

Eu sei o que alguns de vocês estão pensando. Um crítico de cinema dando uma nota ruim para um blockbuster de ação e comédia que é claramente um filme de entretenimento descerebrado para passar o tempo? Mas é óbvio que sim, já que críticos esperam que longas bobos como Alerta Vermelho tenham a substância de O Poderoso Chefão, certo? Errado. Eu dei play no recente lançamento da Netflix esperando uma experiência genérica, mas possivelmente divertida e carismática dado o elenco e o enredo até intrigante sobre um filme de heist (assalto/roubo) global, envolvendo o mundo da arte e artefatos históricos, combinado com uma perseguição de aventura cômica de alto orçamento. Então, antes de alguém querer me chamar de chato, vamos falar sobre entretenimento cinematográfico.

O começo de Alerta Vermelho é até promissor. Em seus estágios iniciais, o filme entrega uma sequência em que o analista de perfis do FBI John Hartley (Dwayne Johnson) está perseguindo o famoso ladrão de artes Nolan Booth (Ryan Reynolds). O cineasta Rawson Marshall Thurber não tem grande inventividade com ação recreativa, mantendo uma câmera quase sempre em plano médio, apenas acompanhando os movimentos dos personagens, mas ele consegue fazer o feijão com arroz aqui, usando do cenário para criar coreografias cômicas, claramente inspirado em Indiana Jones (mas sem qualquer nível do senso tátil de Steven Spielberg). Também temos uma pegada de 007 com humor, com Booth usando gadgets e o cenário italiano carregando uma certa elegância. A sequência até termina com uma boa piada subversiva quando Hartley falha na captura de Booth.

Infelizmente, depois que esse bloco inicial acaba, Alerta Vermelho nunca mais desfruta do divertido jogo de gato-e-rato entre The Rock e Reynolds. A linha narrativa que o roteiro adentra não é a de um filme de assaltos ou de perseguição, mas da clássica dinâmica de buddy comedy de dois personagens masculinos opostos juntando forças. O resto do filme é basicamente centrado na relação entre os dois, enquanto eles batalham O Bispo (Gal Gadot), para obter os três ovos de Cleópatra e vendê-los para um egípcio bilionário. O que sai disso é uma estrutura cômica cansativa, desperdiçando o carisma do trio em um filme sem personalidade e compactado para ser um produto de algoritmos de marketing da Netflix.

Thurber dita uma direção sem intenção artística, simplesmente colocando Reynolds, Johnson e Gadot na câmera para que eles carreguem o filme com carisma e interação, envoltos por um texto que não tem um pingo de criatividade para desenhar diálogos cômicos ou desenvolver características dos seus personagens para além das personas dos intérpretes. As superestrelas até tentam, mas há um claro limite do que eles podem transmitir sem um material minimamente regular, resultando em um The Rock inexpressivo e desconfortável em um tipo de papel que ele normalmente domina, enquanto Reynolds sofre para entregar humor com comentários sarcásticos e piadas mal escritas e sem timing cômico. Gadot até se sai um pouco melhor como a antagonista charmosa, considerando que seus momentos em tela são bem esparsos, mas sua personagem é muito mal definida e pouco apresentada para deixar algum tipo de impacto ou dinâmica com o duo masculino.

Se Alerta Vermelho falha miseravelmente para oferecer o mínimo de imaginação em diálogos para um trio que já está acostumado a se destacar em blockbusters ruins, dá até vergonha alheia de abordar a construção narrativa da boa premissa. Primeiro que é um filme de roubos sem… roubos. Aliás, objetos são roubados, mas não temos qualquer tipo de desenvolvimento visual para esses momentos. Os assaltos são postos em tela com uso tedioso de tecnologia, reviravoltas cretinas e saídas fáceis do roteiro, sem qualquer nível de estilo, malandragem ou charme durante os atos criminosos. É como ver um filme de heist sem expressividade, tentando emular Onze Homens e um Segredo sem a construção do ambiente, do planejamento e da dinâmica do roubo.

Além disso, a trama de ação/aventura global é mais uma área do filme desperdiçada. Para um um blockbuster que custou 200 milhões de dólares, o design de produção consegue ser bem pobre, com locações genéricas, sem personalidade ou peso visual esperado de uma obra desse porte, mas o principal problema reside na direção de Thurber. O cineasta não tem qualquer senso de escala ou de set pieces para um longa desse tamanho, oferecendo uma dieta de lutas mal coreografadas, perseguições de carro cafonas e explosões sem emoção que só vão piorando à medida que a narrativa avança, resultando em um clímax com ode a Indiana Jones no ambiente florestal e o contexto nazista derivativo, em que – pasmem! – eles caem de cima de uma cachoeira…

Então eu retorno ao que comecei a expor no primeiro parágrafo da crítica, deixando uma pergunta: Alerta Vermelho é realmente um bom entretenimento genérico e descompromissado? Porque para mim é só um entretenimento ruim. Uma paródia sem graça de si mesma, que tenta se inspirar em vários clássicos para oferecer um enlatado com grande nomes. Entre a comédia pastelona que não provoca risos, o desperdício de atores carismáticos, a péssima direção para aventura/ação e a trama global de heist sem escopo ou assaltos, Alerta Vermelho está bem longe de conter um desejo honesto de entreter. E ainda tem a coragem de nos carregar por um desfecho anticlimático para expor que vimos um prelúdio para uma possível sequência e franquia que está porvir, e que provavelmente será feita com o mesmo descaso.

Alerta Vermelho (Red Notice) – EUA, 12 de novembro de 2021
Direção: Rawson Marshall Thurber
Roteiro: Rawson Marshall Thurber
Elenco: Dwayne Johnson, Ryan Reynolds, Gal Gadot, Ritu Arya, Chris Diamantopoulos
Duração: 118 min.

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