Crítica | Alguém Especial (2019)

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Escrito e dirigido por Jennifer Kaytin Robinson (a criadora de Sweet/Vicious, da MTV), Alguém Especial é o tipo de história romântica misturada com um drama de amadurecimento na vida adulta + reforço de laços fraternos que aquece o coração do espectador e entrega bem embrulhadinho uma boa quantidade daqueles clichês dos quais a gente vive reclamando mas que, quando bem trabalhados em um filme, só têm saldo positivo para apresentar.

A trama gira em torno do fim de um relacionamento de 9 anos entre Jenny (Gina Rodriguez) e Nate (LaKeith Stanfield, que parece estar o tempo inteiro chapado). Sofrendo e tentando processar a dor do término, Jenny se reúne com as amigas Blair (Brittany Snow) e Erin (DeWanda Wise) com quem passa um dia e uma noite inesquecíveis.

A primeira coisa que nos chama a atenção aqui é a química imensa que existe entre o trio. O roteiro vai pouco a pouco explorando a personalidade de cada uma das mulheres e o espectador realmente conhece e se importa com cada uma delas, o que faz com que as brigas, as trocas de carinho e as muitas frases de verdades ditas umas para as outras pareçam orgânicas, reais, algo que podemos encontrar no dia a dia — e conseguimos dizer isso de basicamente toda a estrutura amorosa do enredo também. Robinson escreve em uma linha majoritariamente agradável entre a comédia e outros pontos emocionais, com poucos momentos de exagero em diálogos ou situações-limite para os personagens.

Como existe uma atmosfera de futura separação em toda a obra (Jenny conseguiu o emprego dos sonhos e está prestes a mudar de cidade, sendo este um dos motivos pelos quais seu relacionamento terminou), toda a jornada de drogas, dança, música e memórias que as três amigas compartilham acaba tendo um significado maior, ajudando, inclusive, o realinhamento do drama toda vez em que temos a quebra para um flashback. E embora tenhamos um bom uso do recurso — inclusive na direção de fotografia, adicionando algo diferente para cada memória do relacionamento de Jenny –, essas voltas ao passado se acumulam a tal ponto que atrapalham o verdadeiro assunto da fita, que é o aproveitamento do momento presente e a tentativa de se curar ou distrair de um coração partido.

Uma vez que se estabelece a ideia de um “fim de namoro”, o público já entende o que está envolvido, mas Robinson parece não partilhar muito dessa opinião. A roteirista retorna aos muitos votos de amor e promessas de “felicidade para sempre” apenas para delinear algo já muito bem amarrado. E como as melhores cenas, atuações e momentos divertidos da obra estão no presente, esses olhares para trás — sem nada narrativamente muito distinto para oferecer — acabam sendo quebras deslocadas para momentos que se desenvolviam muito bem. Como resultado, tendemos a ver esses flashbacks com cada vez menos simpatia.

A segunda parte da história se passa à noite, então o espectador ganha de presente um trabalho fotográfico dos mais interessantes para esse tipo de filme. Do meio para o final, notamos um salto no uso da trilha sonora, no aprimoramento dos figurinos e principalmente da direção de fotografia, com padrões de cores, intensidade (e tipos) de luz e sombra que servem até de marcação para as emoções ou momentos de aprendizado/percepção da realidade por parte dos personagens.

Com um trio de protagonistas muitíssimo bem alinhadas e um texto muito gostoso de se acompanhar, temos em Alguém Especial uma obra de chegada à vida adulta madura, momento que vem com todo o peso, responsabilidade e entrega para algumas pessoas, enquanto outras demoram, inclusive, a aceitar que chegaram ao momento de tomar decisões com os pés no chão. Alguns espectadores podem estranhar ou não gostar da quantidade de temáticas transversais da obra, mas para mim, este não é o problema. O filme funciona bem nesse ponto, sabendo alternar essas muitas realidades para o trio de amigas. E mesmo com o grande impasse na narração do romance em flashback, a obra ainda termina bem, nos fazendo rir e com o coração aquecido diante de um aprendizado para a vida e fortalecimento dos laços de amizade. O mais fofo e real dos clichês da vida.

Alguém Especial (Someone Great) — EUA, 2019
Direção: Jennifer Kaytin Robinson
Roteiro: Jennifer Kaytin Robinson
Elenco: Gina Rodriguez, LaKeith Stanfield, Brittany Snow, DeWanda Wise, Michelle Buteau, Rebecca Naomi Jones, Alex Moffat, Joe LoCicero, Peter Vack, Megan Haley, Ben Sidell, Jaboukie Young-White, Rosario Dawson, RuPaul, Kenneth De Abrew
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.