Crítica | Aliança do Crime

estrelas 3

Em Aliança do Crime Johnny Depp volta a ter uma notável interpretação no cinema, depois de um bom tempo de performances apagadas e medíocres. Aqui ele é James ‘Whitey’ Bulger, principal foco do livro Black Mass: The True Story of an Unholy Alliance Between the FBI and the Irish Mob (2001), de Dick Lehr e Gerard O’Neill, cuja adaptação nos dá a impressão de estarmos em um daqueles filmes tardios de máfia (sem o glamour sanguinolento de Scorsese ou Coppola) durante a década de 1970 e 1980. O filme se passa em três tempos narrativos: o presente dos depoimentos; o flashback e o “nosso” presente, que ocupa um curto espaço de tempo e é dedicado à finalização da obra com a revelação do destino dos envolvidos em todo o processo da máfia irlandesa na cidade de Boston.

Nessas idas e vindas do passado onde os crimes acontecem e o presente punitivo/investigativo, o espectador se vê entre cenas tensas ou de ação modulada e o cenário nada interessante de uma sala de interrogação. O formato adotado pelo roteiro e executado pelo diretor Scott Cooper de forma a tentar disfarçar o impacto negativo na continuidade da história não se sai bem e deixa clara a quebra de ritmo do filme, especialmente no desenvolvimento. A princípio, esse tipo de regressão surge como um caminho válido — não o melhor, é importante ressaltar –, mas a cada retorno e a cada novo interrogado que aparece temos uma mudança temporal no filme que poderia ser melhor conseguida de forma orgânica e não em blocos motivados pelos depoimentos.

Mas este ainda é o menor problema do roteiro de Aliança do Crime. As verdadeiras pedras no sapato aqui são o trato pouco verossimilhante para a organização semi-feudal entre os personagens, a ligação ao mesmo tempo forte e etérea que existe entre eles (especialmente no caso dos irmãos Jimmy e Billy) e a ausência de tentativas do roteiro em criar algo mais plausível e que se sustentasse dramaticamente do que a afirmação “somos parentes” ou “crescemos juntos / nos conhecemos desde criança“. O fato de cada um dos personagens estar em uma esfera da sociedade — o crime, a política a polícia — torna essas afirmações vazias, carentes de um trabalho mais profundo no relacionamento dos indivíduos, o que acaba acontecendo minimamente em um ponto ou outro da história mas não o bastante para fazer valer toda a enorme quantidade de personagens que formam a aliança.

E com isso chegamos ao elenco. Um time de estrelas em boa atuação mas em papéis insossos que nos deixam em completa indiferença em relação a eles. Este é o caso dos personagens de Kevin Bacon, Peter Sarsgaard e Adam Scott (com um horrendo bigode que o faz parecer tremendamente ridículo), que só se sustentam na tela pelo trabalho dos atores mas cuja importância para a história é fugaz, pouco explorada e, infelizmente, marcada por um período de forte presença, completo desaparecimento e posterior retorno em um molde encaixista para, supostamente, fechar a participação. A pergunta é: se a intenção não era tornar o personagem importante para a trama, qual a necessidade de trazê-lo, fazer algumas ações girarem em torno dele e depois esquecê-lo? Eu entendo a proposta marqueteira que isso tem para a obra, mas o marketing dele falar a favor de um produto e não contra, o que é exatamente o problema da escalação e alta população de personagens “mocinhos” sem impacto estrutural para o texto.

Benedict Cumberbatch, apesar de sua ótima atuação, também sofre com essa abordagem minimizadora, vivendo um personagem pseudo-importante que na verdade só está lá para servir de tapete vermelho para Johnny Depp, o único bem desenvolvido no filme e o que faz Aliança do Crime valer a pena. Após o espectador se acostumar com a maquiagem pesada e as lentes azuis que ele usa, apreciar a atuação de Depp acaba sendo o verdadeiro sentido do longa, cujas sequências ganham força e entretém muito mais porque são motivadas pelo desenvolvimento da maldade e império criminoso de James ‘Whitey’ Bulger, no melhor estilo “ascensão e queda”.

Scott Cooper consegue fazer um jogo perspicaz (e uma grande aposta) ao colocar o filme nas costas de Johnny Depp e investir tudo em seu personagem. O resultado final é um bom filme de gângster, mas nada primoroso e nem inesquecível. O espectador certamente irá gostar da reconstituição de época, dos excelentes figurinos e da direção de arte, principalmente nas tomadas externas, que guardam igualmente os melhores planos e padrões de luz da direção de fotografia. Aliança do Crime é burocrático, mas diverte e ainda consegue tirar Johnny Depp do pântano das atuações esquecíveis para uma performance cotada para a corrida do Oscar. Não é um filme grandioso mas vale muito a pena assistir.

Aliança do Crime (Black Mass) — EUA, Reino Unido, 2015
Direção: Scott Cooper
Roteiro: Mark Mallouk, Jez Butterworth (baseado na obra de Dick Lehr e Gerard O’Neill)
Elenco: Johnny Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson, Kevin Bacon, Peter Sarsgaard, Jesse Plemons, Rory Cochrane, David Harbour, Adam Scott
Duração: 122 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.