Crítica | Alice Não Mora Mais Aqui

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SPOILERS!

Alice Não Mora Mais Aqui é um filme que funciona amparando-se em duas camadas principais de sua narrativa: superficialmente, a história de uma mãe tentando se reencontrar na vida e criar seu filho após a morte do pai e marido; essencialmente, a transição do papel da mulher na sociedade após as conquistas sociais e culturais alcançadas pela contracultura no âmbito do movimento feminista. Afinal, Alice Hyatt (Ellen Burstyn, em uma atuação que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz) pode ser vista como uma representação de inúmeras mulheres que, principalmente nos anos 1960, tomaram poder sobre suas decisões e sua própria vida, saindo do arcaico american way of life e se encontrando na emancipação feminina.

Quarto longa-metragem de Martin Scorsese, Alice acompanha a trajetória da personagem-título após o falecimento de seu marido Donald (Billy Green Bush) em um trágico acidente. Desamparada e sem rumo, ela parte de sua antiga casa em busca de uma recomeço ao lado de seu filho Tommy (Alfred Lutter III), com a promessa de retornar à Monterey, cidade onde ela cresceu. Porém, sem dinheiro para tanto, ela passa a oferecer seus serviços como cantora em bares de diversas outras cidades, conhecendo entre idas e vindas o jovem Ben (Harvey Keitel), a excêntrica Flo (Diane Ladd) e o simpático David (Kris Kristofferson).

A breve primeira sequência do filme explicita o sonho da então criança Alice de ser cantora, em uma cena que serve como uma homenagem não apenas bela como orgânica à O Mágico de Oz, pois a maneira com que Scorsese a filma – o cenário e a paleta de cores são fantasiosos – constrói a ideia de aspiração da garota. Adentrando pela janela na casa de Alice com um travelling associado a um travelling para frente, é assim que o cineasta nos mostra a protagonista já adulta pela primeira vez, costurando sua roupa e preparando o jantar; é um movimento de câmera eficiente e que permite ao diretor fazer uma sutil rima visual momentos depois, quando a mulher decide que irá partir de sua casa, e o cineasta recua a câmera do interior da casa em direção ao exterior, saindo da janela – ou seja, é um movimento contrário ao anterior que traduz visualmente que ela está prestes a sair de sua casa em direção ao mundo que a espera.

Mesmo que um tanto quanto contido em termos de linguagem (ao contrário de seu longa anterior, Caminhos Perigosos), Scorsese é hábil ao trazer a seu filme outras composições visuais interessantes: nota-se como os bares que Alice se oferece para cantar sempre surgem escuros e mal iluminados (com exceção da cafeteria), com a única fonte de luz clara e brilhante provinda do lado de fora, indicando que aqueles locais não irão lhe trazer a satisfação que busca. Igualmente, a composição da personagem de Burstyn é enriquecida ao aparecer inúmeras vezes com bandanas no cabelo e lenços no pescoço – este último indicando sua impotência com relação à sua voz tanto no próprio anseio de ser cantora quanto na sua voz como mulher em meio àquela sociedade marcada pela submissão e obediência das mulheres perante os homens.

E se restam dúvidas dessa visão proporcionada pelo filme, basta observar algumas passagens do roteiro de Robert Getchell, como quando um sujeito homem fica surpreso ao ver Alice recusar seu pedido de “dar uma voltinha” para que ele pudesse “dar uma olhada” nela antes de contratá-la. Dito isso, é justamente na tomada de poder de Alice sobre suas decisões que reside a elegância temática de Alice Não Mora Mais Aqui, e Getchell é hábil ao compreender que isso ocorre de maneira gradual e não repentina, pois a mulher vinha sendo dona de casa há vários anos, e seu contato com o mundo exterior se resumia a basicamente jogar conversa fora com a amiga Bea (Lelia Goldoni).

O que nos leva à principal conquista pessoal de Alice: a percepção de que não precisa viver sem um homem em sua vida, bastando apenas que este respeite sua liberdade, desejos e opiniões, pois ela precisa, assim como todos nós, dar e receber amor, bem como seguir seus próprios sonhos. É um pequeno detalhe, uma sutil mudança de comportamento que faz toda a diferença.

Ancorado pela performance de Ellen Burstyn, a protagonista de Alice é uma mulher tridimensional, com sonhos e desejos, inseguranças e medos, e a atriz consegue transmitir ao espectador todos esses sentimentos de maneira absolutamente genuína – quando ela chora, sente raiva, se irrita, se apaixona e se entrega, nós jamais desconfiamos de tudo que ela está sentindo. Com um relação difícil com seu filho Tommy, o roteiro também explora isso de maneira elegante; percebe-se que Alice raramente dá espaço para o menino se expressar, e quando o faz, ela logo perde a paciência com as brincadeiras dele – mas quem pode a culpar, saindo de uma vida que por anos foi marcada pela ausência de expressão?

O restante do elenco também está eficiente: Harvey Keitel faz seu personagem mais memorável do que deveria, o cantor Kris Kristofferson surge com um sorriso fácil e um carisma que funciona e Diane Ladd se torna uma espécie de porto seguro para a protagonista ao mesmo tempo de funciona bem como alívio cômico. Por fim, aparecendo em pouquíssimos minutos em cena, a desde então talentosa Jodie Foster rouba a cena como Audrey, uma amiga de Tommy.

Servindo tanto para mostrar a versatilidade de Scorsese e Burstyn quanto para representar um sentimento pertinente àquela época, a mensagem principal de Alice Não Mora Mais Aqui pode por vezes estar nas entrelinhas, além de apresentar uma narrativa que pode soar clichê e batida em alguns momentos. Mas a forma com que o filme resolve a situação de Alice Hyatt no clímax da projeção deixa uma coisa clara: ela não deixará de seguir seus sonhos, custe o que custar; sua voz será ouvida, ou, pelo menos, ela irá batalhar por isso, assim como milhões de mulheres ao redor do mundo o fazem até os dias de hoje.

Alice Não Mora Mais Aqui (Alice Doesn’t Live Here Anymore, EUA, 1974)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Robert Getchell
Elenco: Ellen Burstyn, Kris Kristofferson, Alfred Lutter, Diane Ladd, Harvey Keitel, Billy Green Bush, Lelia Goldoni, Vic Tayback, Valerie Curtin, Harry Northup, Jodie Foster
Duração: 112 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.