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Crítica | Alien: O Roteiro Original

por Ritter Fan
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Quando se fala em Alien, o Oitavo Passageiro, o primeiro nome que vem à mente é o de Ridley Scott e não sem razão, claro. No entanto, se puxarmos mais pela memória, é possível que os nomes seguintes sejam os de Sigourney Weaver, talvez John Hurt e, em termos de bastidores, o artista suíço H.R. Giger que criou a criatura e os perturbadores desenhos biotecnológicos com linguagem sexual que povoam o longa, e, para os mais conhecedores, talvez até mesmo Jean Giraud (ou Moebius) e Ron Cobb, responsáveis pelos demais designs não alienígenas do longa, como as vestes de astronauta e a nave Nostromo. Dan O’Bannon, o roteirista, costuma entrar apenas em uma segunda ou terceira lista de nomes conectados com esse clássico sci-fi de horror, o que, claro, é uma tremenda injustiça.

Depois de co-escrever e participar do elenco de Dark Star, que pode ser considerado como o embrião de Alien, O’Bannon envolveu-se na produção da mítica versão de Duna, por Alejandro Jodorowski, que jamais chegou à fruição. Seu retorno aos EUA deu-se em desgraça, com o roteirista tendo que viver de favores de amigos até que, morando com Ronald Shusett, conseguiu emplacar o roteiro de Star Beast, que viria a ser seu maior triunfo, mesmo considerando que ele ainda viria a co-roteirizar O Vingador do Futuro (leiam mais sobre o processo criativo de Alien, aqui). É de O’Bannon toda a estrutura básica de Alien, o Oitavo Passageiro e o que exatamente isso significa pode ser conferido na HQ que adapta seu roteiro original, publicada pela Dark Horse Comics em seu último projeto antes de perder a licença da franquia para a Disney, que comprou a Fox, em um grande golpe para a editora que já havia perdido Star Wars há alguns anos.

Publicada entre agosto e dezembro de 2020, a minissérie conta com roteiro adaptado por Cristiano Seixas e arte de Guilherme Balbi, ambos brasileiros, a partir das descrições e da história original de O’Bannon. O que se percebe imediatamente é o evidente carinho com que esse trabalho foi feito e o cuidado para entregar algo que é ao mesmo tempo familiar e diferente para os leitores de longa data do material da franquia publicado pela Dark Horse há décadas e também dos filmes, especialmente, claro, o primeiro.

Em termos de pinceladas macro para não entrar em minúcias que possam estragar a HQ para quem ainda não tiver lido, vale dizer que o roteiro adaptado por Seixas é uma planta detalhada do que o filme é, com a mesma lógica e a mesma estrutura narrativa que encontramos na obra de Scott. No entanto, a visão de O’Bannon, que Seixas deixa muito evidente em um excelente trabalho de adaptação para a linguagem de HQ, era mais objetiva, mais direta, sem os elementos que tornaram Alien o filme cheio de nuanças e implicações filosóficas que ele inegavelmente é. Pela janela vão os elementos sócio-políticos como a divisão de classes entre a tripulação e a manipulação corporativa de seus “empregados”, sendo substituídos por uma abordagem mais simplificada de astronautas voltando para a Terra depois de uma potencialmente lucrativa campanha mineradora no espaço profundo.

Além disso, obviamente, todo o espetacular visual de Giger, Moebius e Cobb inexiste aqui. Novamente, o mesmo conceito “simplificado” acima é aplicado: tripulação responde a uma mensagem potencialmente alienígena e um deles acaba servindo de incubadora para um monstro alienígena sanguinário que passa a matar um a um na nave. A conotação sexual e lasciva que o design das criaturas e da estrutura alienígena no planeta em que eles pousam é exclusiva do longa-metragem, algo que foi sendo desenvolvido a partir da base de O’Bannon, com a visão realmente incrível de Ridley Scott sobre o potencial do material para ser algo mais do que apenas outro sci-fi. Porque, sem papas na língua, o que O’Bannon escreveu é “apenas outro sci-fi” que não teria o alcance amplo e duradouro que o filme teve se tivesse chegado às telas da forma que a HQ mostra.

Mas de forma alguma eu quero insinuar que o roteiro de O’Bannon era ruim ou, mais ainda, que a HQ é ruim. Muito ao contrário, os trabalhos são muito bons e Seixas realmente consegue extrair o máximo do texto original, dando vozes e personalidades aos tripulantes que, aqui, são seis no total, não sete, mais o gato. Por seu turno, Guilherme Balbi não perde tempo em desenvolver o texto em personagens vibrantes, bem individualizados, com figurinos muito bonitos e uma nave muito limpa, bem mais na linha de ficção científica heroica do que passando a impressão de “mundo vivido” do longa. Não sei se o traje de astronauta com capa foi ideia dele ou veio do roteiro de O’Bannon, mas, ainda que funcione visualmente, é de se coçar a cabeça sobre a praticidade de algo assim. A criatura, por sua vez, mesmo longe de ser aquele monstro humanoide esguio de Giger, cumpre sua função de criar tensão e de chocar quando aparece, até porque Balbi não hesita em ser explícito nos momentos de violência, outro aspecto que diferencia a HQ do filme, aliás.

O resultado, portanto, é uma leitura agradabilíssima que, graças ao trabalho da dupla brasileira, destaca exatamente a importância de O’Bannon na “equação Alien” como o grande pai da infraestrutura do que acabou se tornando um clássico até hoje imbatível. Uma homenagem merecida a um nome muitas vezes esquecido e um respeitoso adeus da Dark Horse Comics à uma de suas mais férteis licenças que a editora soube desenvolver maravilhosamente bem ao longo de exatos 32 anos.

Alien: O Roteiro Original (Alien: The Original Screenplay – EUA – 2020)
Contendo: Alien: The Original Screenplay #1 a 5
Roteiro: Cristiano Seixas (baseado em história de Dan O’Bannon)
Arte: Guilherme Balbi
Cores: Candice Han
Letras: Michael Heisler
Editoria: Randy Stradley, Judy Khuu
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: agosto a dezembro de 2020
Páginas: 144

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