Crítica | Aliens: Dead Orbit

É muito raro encontrar artistas de quadrinhos fora do círculo das publicações indie e realmente independentes que abrace, sem perda de qualidade, todas as “posições” de uma HQ. O canadense James Stokoe, que começou seus trabalhos com o sensacional Wonton Soup, é um desses criadores que, mesmo mantendo-se à margem das grandes editoras, volta e meia vem para o mainstream – ou quase lá – para brindar os leitores com maravilhas como Godzilla – The Half Century War, publicada pela IDW.

Em 2017, Stokoe embarcou em um projeto para o cada vez mais expansivo universo Aliens em quadrinhos da Dark Horse Comics, lançando uma minissérie em quatro edições entre abril e dezembro batizada de Dead Orbit (Órbita Morta em tradução literal) em que trabalhou como roteirista, desenhista, colorista e até letrista, mantendo controle completo sobre sua criação que pode ser encarada ou não – fica à escolha do leitor – como parte do cânone da franquia, já que conta uma história fechada e independente até de conhecimento prévio sobre um dos mais sensacionais monstros do cinema.

Mantendo-se fiel ao espírito original da seminal criação setentista de Ridley Scott, Stokoe lida com uma ameaça mortal em espaço confinado em uma história que aborda duas linhas temporais, uma no “presente” em que vemos o aparentemente único tripulante da Scphacteria, um “posto de gasolina” espacial em ruínas na órbita do gigante gasoso Pylos e outra algum tempo no passado que conta o que aconteceu, com as duas pontas narrativas, claro, encontrando-se no final. O problema, lógico, começa quando a tripulação da base sai para investigar uma nave que se aproxima, mas que não responde às comunicações, levando ao salvamento da outra tripulação em criogenia que, óbvio, carrega algo mais do que apenas DNA humano. A partir daí, vê-se muito claramente a repetição do que o roteiro de Dan O’Bannon e Ronald Shusett estabeleceram no primeiro filme da franquia.

No entanto, quando afirmo que é uma repetição, não quero de forma alguma diminuir o trabalho de Stokoe. Se alguma coisa, minha intenção é justamente o contrário, pois o que realmente interessa não é a premissa, mas sim como ela é executada. Afinal, James Cameron fez basicamente a mesma coisa em Aliens, o Resgate e ele criou outra obra-prima, muitas vezes considerada até melhor que a obra original. E o mesmo vale aqui, pois Stokoe tem uma enorme capacidade de manter-se minimalista na narrativa e deslumbrante na apresentação visual, com seu estilo ultra-detalhista – mas não realista – de desenhar tomando as páginas de assalto e arrebatando o leitor a cada momento.

A reunião do uso econômico de balões de fala com uma progressão visual de cair o queixo (como em Half Century War, a leitura de Dead Orbit em formato digital para a ampliação dos detalhes da arte dele é altamente recomendada) vai, aos poucos, formando um crescendo de tensão que torna a leitura extremamente fluida, ainda que as idas e vindas temporais possam, por vezes, confundir um pouco, exigindo um retorno mais cuidadoso para algumas páginas atrás. Aliás, muito sinceramente, tamanha é a qualidade do traço e das cores de Stokoe, que ler essa HQ muito rapidamente é um verdadeiro crime contra a Nona Arte, ainda que seja uma tarefa complicada resistir ao passo apertado e incomodamente claustrofóbico que ele imprime à narrativa e que literalmente força a virada de página.

Claro que o desenvolvimento de personagens é substancialmente sacrificado por Stokoe. O protagonista, o oficial de engenharia Wascylewski, não é muito mais do que um artifício narrativo para impulsionar a história, o que por vezes impede que o leitor sinta por ele mais do que algo acima do primal, do perigo real e imediato representado pelos xenomorfos. Teria sido muito mais interessante se o personagem ganhasse pelo menos algumas camadas dramáticas antes que a ação engrenasse, nem que fosse por intermédio dos flashbacks em que ele se beneficiava da interação com os demais tripulantes. Infelizmente, porém, Stokoe só entrega um sujeito unidimensional, recortado em cartolina, mesmo que, no frigir dos ovos, ele funcione como a engrenagem necessária para fazer o motor narrativo funcionar.

Aliens: Dead Orbit é mais uma leitura imperdível de um James Stokoe fazendo mais um magnífico jogo solo, trabalhando em todas as capacidades sem deixar a peteca cair em nenhuma delas. Não é todo autor de quadrinhos que consegue sair incólume de uma tarefa dessas!

Aliens: Dead Orbit (EUA, 2017)
Contendo: Aliens: Dead Orbit #1 a 4
Roteiro: James Stokoe
Arte: James Stokoe
Letras: James Stokoe
Editoria: Daniel Chabon, Rachel Roberts
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: abril, maio, julho e dezembro de 2017
Páginas: 111

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.