Crítica | Alita: Anjo de Combate

“Não subestime quem eu sou.”

São grandes as diferenças de uma computação gráfica à serviço da narrativa de uma estética encantadora que pouco possui a comunicar para os seus espectadores. Um maravilhamento tão efêmero e superficial sustenta uma mentira cinematográfica? James Cameron, em entrevista para o Television Critics Association, disse: “Não importa quanto você mascare com ótimo design de produção e efeitos visuais. Se a história não está funcionando, você não se conecta com o personagem, simplesmente não vai funcionar.” Pois Alita: Anjo de Combate, que possui justamente James Cameron assinando o seu roteiro, é um caso encontrado no meio-termo entre o que funciona e o que não funciona. E o texto é o maior dos problemas, ou seja, parece que o premiado cineasta se contradisse nessa sua pertinente afirmação. Mas a questão é mais complexa que isso.

Uma adaptação do mangá homônimo, o enredo se centra na personagem de Alita (Rosa Salazar), uma ciborgue que é reconstruída pelo Dr. Dyson Ido (Christoph Waltz) após ser encontrada em um ferro velho de um mundo futuro. Quem é essa garota? James Cameron estaria assinando um pedido de desculpas caso esse fosse um cinema inteiramente compreendido em uma narrativa interessada na grandiosidade, um plot maior, ou no relacionamento amoroso. Contudo, Alita: Anjo de Combate é basicamente sobre o processo de descobertas da protagonista. E a mistura de Robert Rodriguez, experiente em ficções científicas e fantasias, com Cameron, envolvendo-se recorrentemente em projetos interessados no espetáculo e na criação de espaço cinematográfico, é um pote de ouro no final do arco-íris. Duas obras, contendo valores distantes, emergem do longa.

O primeiro cenário é mais crítico. James Cameron, compartilhando o cargo de roteirista com Laeta Kalogridis, se acovarda em deixar tudo na mão de Rodriguez. O universo apresentado precisa passar pela verborragia. Determinados monólogos acabam servindo como mero pretexto para inúmeras explicações expositivas serem dadas, pois o público, aparentemente, não consegue compreender olhares, suspeitas e imagens. Mesmo exposições acerca da natureza dos personagens acontecem, como é um caso referente ao Dr. Ido. O coadjuvante possui uma conexão mais profunda com o nome Alita – dado à ciborgue -, que é introduzida aleatoriamente na narrativa, sem um devido respaldo sentimental. Pelo menos, Christoph Waltz consegue criar o seu personagem por si só, moldando-o, antes de qualquer receio nosso, como um “médico” caridoso.

Nesse ponto entra, pela primeiríssima vez, o tratamento visual de Rodriguez e sua direção. O cineasta cria um ambiente extremamente convidativo para a personagem e, com isso, Waltz é um complemento ao cenário de descobertas, ainda consideravelmente adocicado à protagonista. Comer uma laranja é divertido. Comer um chocolate é divertido. Alita é retratada com um senso de inocência fantástico, que é contraditório com o mundo em questão, sendo esse o primeiro passo da obra para o desenvolvimento do seu coração. Os efeitos visuais, portanto, são essenciais, por estarem sendo a comunicação entre o design da garota, completamente em computação gráfica, e o cenário em questão. Os momentos iniciais de Anjo de Combate no exterior da residência do Dr. Ido traçam uma visão futurista que é enxergada em um único corredor, mas recheado de pessoas.

E o longa-metragem entende ser almejado, na narrativa, certos componentes da sua criação estética. O sonho de muitos personagens, por exemplo, é morar na cidade voadora encontrada sobre as suas cabeças. Curiosamente, as desigualdades sociais, presentes nessa realidade em questão, são percebidas através da intangibilidade, sobre o que não pode nem ser visto. Utopias são sussurradas aos espectadores por meio dos sonhos supostamente impossíveis que são apresentados. O garoto Hugo (Keean Johnson) é uma dessas pessoas, atualmente pobre e tendo que enfrentar certos pesares cotidianamente, mas que ainda acredita no amanhã. Uma das características mais contraditórias de Anjo de Combate é ser, ao mesmo tempo, um filme corretíssimo na noção de motivações, enquanto tão fracassado na exploração emocional conjunta.

Uma jornada de amor preguiçosa, portanto, é um dos equívocos que se iniciam. Entre tantas coisas a serem descobertas no universo, a si mesmo e o seu passado, o amor é uma delas. O ator Keean Johnson, no entanto, não consegue ser uma versão John Cusack dos anos 80 interessante, calhando a prejudicar ainda mais o valor romântico do projeto. Cenas com teor melodramático pungente desmontam-se porque tornam-se inverossímeis sentimentalmente para o espectador. “Por que ela está oferecendo isso ao garoto?”, perguntamos. Em termos narrativos, Hugo possui a função, primeiramente, de ser uma manivela para a apresentação de universo à Alita, que estaria mais acordado a uma verdade caso não fosse acompanhado de texto simplório. A garota se apaixona em decorrência disso. O romance nunca funciona, porém, os imensos olhos de Alita sim.

Com isso nasce uma segunda percepção possível à obra. Saindo do caráter que é convidativo em primeira instância, como o charme do par romântico e a claridade do dia, Anjo de Combate ganha uma substância mais soturna gradualmente. As mazelas se revelam. Alguns assassinatos acontecem. Os caçadores de recompensa aparecem. Apesar de tais mudanças, Anjo de Combate continua sendo um espaço confortável para a diversão tornar-se realidade. É uma obra que basicamente não tem um plot mais concreto, com premissas complexas aos protagonistas e antagonistas, apenas se interessando mesmo, quase episodicamente, nas descobertas da protagonista diante de um mundo novo à garota. Tudo está à serviço da emancipação da jovem mulher, saindo do seu âmbito ingênuo para explorar outras possibilidades, chances, por si mesma.

A constatação de estarmos verdadeiramente empolgados com a sucessão de acontecimentos desponta consequentemente, por vermos mudanças de tom, contudo, não transformações sensoriais. Anjo de Combate sai do ambiente esportivo casual, jogando um jogo com os seus amigos, e vai para o ambiente esportivo mortal, participando de um campeonato em uma arena brutal. Continua sendo imensamente livre em oportunidades cinematográficas. Robert Rodriguez mistura Pequenos Espiões 3-D com um orçamento gigantesco e cria composições visuais magníficas, sempre centradas na experiência de Alita com as cenas. Tudo é sobre o que irá mudar para a personagem depois disso. Várias situações climáticas – que cansam pontualmente o espectador, entretanto – encaminham a protagonista para a sua derradeira missão. É ainda lúdico.

Sob um outro ponto de vista, se formos julgar certas figuras antagônicas independentemente, o maniqueísmo impera. O caráter mais dramático, por ora, vai aparecendo como oriundo do antagonismo em si à permissão por quebrarmos com os paradigmas ancestrais. Será que sonharmos é uma imbecilidade nossa? Não é à toa que a jornada de Alita, mais do que se descobrir guerreira e esportista, também comporta as suas tentativas de ajudar as pessoas ao seu redor, principalmente Hugo e o seu “pai”. Conquistando isso, Rosa Salazar possui uma voz simpática, que carrega o espírito da garota durante as cenas de ação. Uma sequência em um bar, cenário que não poderia se ausentar dessa produção de Rodriguez, é comandada com uma leveza condizente com a energia da garota em cena. Como nos videogames, ser guerreira é ser jogadora.

Suas expressões, tão entusiasmadas quanto sérias, se misturam, acordadas a um semblante propositalmente destoante de um genérico realismo conformado. O longa quer, em outros casos, apresentar momentos que reflitam, entretanto rasamente, sobre quem a garota é, ao mesmo tempo que mercenários a perseguem. O texto do longa-metragem é realmente contraditório ao interesse tão honesto de Rodriguez na fomentação de mitologia através de sensibilidade imagética, mas Anjo de Combate é um preciosidade quando encaminha seus personagens e sua narrativa através dos seus gêneros em estado puro. Quando tudo é sobre construir sequências enormes de ação e mover a sensibilidade dos personagens assim, sem mais. Jogar videogame não tem tanta graça quanto assistir à Alita surpreendendo e dando surras em criminosos e caçadores de recompensa.

Alita: Anjo de Combate (Alita: Battle Angel) – EUA, 2019
Direção: Robert Rodriguez
Roteiro: James Cameron, Laeta Kalogridis
Elenco: Rosa Salazar, Christoph Waltz, Ed Skrein, Mahershala Ali, Jennifer Connelly, Keean Johnson, Michelle Rodriguez, Lana Condor, Jackie Earle Haley, Eiza González
Duração: 122 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.