Home TVMinisséries Crítica | Allen Contra Farrow (Allen v. Farrow)

Crítica | Allen Contra Farrow (Allen v. Farrow)

por Luiz Santiago
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ADVERTÊNCIA: se você é alguém que fica muito tristinho ou tristinha lendo qualquer coisa que não diga exatamente aquilo que você quer ler, e sente grande orgulho não em apenas pensar, mas em escrever coisas do tipo “parei de ler quando…” ou “perdi X minutos da minha vida lendo essa…“, saiba que o texto abaixo não é para você. Mas não sofra. Eu tenho algo especialmente para o seu temperamento. Clique aqui e descubra.

Allen v. Farrow é uma curiosa peça de propaganda da HBO feita em defesa de Dylan Farrow contra Woody Allen, que segundo um relato mantido por Dylan desde o início dos anos 1990, abusou sexualmente dela, quando tinha apenas 7 anos. O abuso sexual teria acontecido no sótão da casa da família Farrow em Connecticut, em algum momento num espaço de 20 minutos, quando Allen e Dylan não podiam ser encontrados em nenhum lugar pela casa, segundo depoimentos da tutora e da babá da menina, ainda hoje mantendo a história — contra os relatos dos empregados da casa, que não apareceram em nenhum momento no decorrer dessa minissérie. Duas investigações foram abertas, uma no Estado de Connecticut e outra no Estado de Nova York. O promotor de um dos casos concluiu que havia “causa provável” para abertura de um processo contra Allen, mas que, para proteger Dylan, ele não iria abrir esse processo. As investigações dos dois Estados, os relatos médicos (inclusive corporais) e o parecer jurídico apontaram que não haviam indícios de abuso sexual contra a garota. Em 2014 e 2018, Dylan veio a público juntamente com seu irmão Ronan Farrow, falando publicamente contra Allen, reafirmando o abuso sexual. Primeiro surgiu a carta-acusação, dita “ensaio“, onde Dylan adotou uma linha de julgamento do consumo de arte alheio, apontando o dedo para qualquer pessoa que tivesse um filme favorito de Woody Allen, e construiu o seu argumento de denúncia, desabafo e posição política (esteira que ela posteriormente percorreu com vigor, amparada pelos movimentos Time’s Up e #MeToo) sobre um molestador de criança com base na demonização de pessoas que não têm nada a ver com isso, a saber, qualquer um que admire Woody Allen como artista. A forma da narrativa, todavia, parece ter sido bastante confortável para o caso Farrow, tanto que desde a pré-produção desse documentário, em finais de 2017 e início de 2018, os diretores Kirby Dick e Amy Ziering fixaram a mesma linha de abordagem para a minissérie, que ao longo de quatro episódios conta o lado da história do ponto de vista de Dylan e de Mia, esta última, em silêncio desde os breves comentários que fez sobre o caso em 1993. Por esse aspecto de existência, o projeto é louvável. Na maioria dos casos, todos têm o direito a dar o seu ponto de vista sobre algo (e digo “na maioria dos casos” porque sou um ferrenho defensor da intolerância à intolerância e Cia. Ltda.), de modo que a minissérie ser uma peça de propagando dos Farrow não é, em nada, um problema. Todo documentário defende um lado. Este defende Dylan Farrow. E está tudo bem. A chamada de atenção vem pela forma como isso foi realizado, partindo de uma abordagem estrutural  similar a American Crime Story com nuances de cinema-verdade, inclusive na manipulação progressiva das emoções do público, partindo da escolha da trilha sonora minimalista e sombria e terminando na dualidade entre as felizes imagens de arquivo realizadas por Mia e o forte contraste no filtro verde e depois azul para filmar as cenas do presente… tudo isso versus o mundo meio sépia e jazzístico de Woody Allen a tela. Aos poucos, a própria narrativa, que deixa claro que está questionando as decisões judiciais dos dois Estados, mostra para o público a sua interpretação da condução judicial, com opiniões do procurador que não abriu o processo “para proteger Dylan“, de duas amigas próximas da família e de Ronan Farrow. Os outros entrevistados não ligados aos Farrow servem mais como condutores de teorias, pensamentos e análises externas que o roteiro toma para si como se tivessem sido criadas especialmente para esse caso, um corte até compreensível, utilizado por uma montanha de documentários políticos, mas que a meu ver torna desnecessariamente forçada a linha discursiva de Dylan, que claramente acredita naquilo que está afirmando e é forte e decidida o bastante para continuar a lutar, a falar a na mídia e a sustentar que Wood Allen abusou sexualmente dela quando ela tinha 7 anos. A manipulação emotiva pela minissérie chega ao ponto de fazer um perfil específico para Moses, o filho que desde 2014 vem se manifestando publicamente a favor de Woody Allen. Essa preparação disfarçadamente acusatória acontece no primeiro e no segundo episódios (“oh, Moses não se conectava a ninguém, mas simplesmente adorou Woody e se identificou muitíssimo com ele“), para no quarto capítulo aparecerem as declarações de Moses reafirmando aquilo que as decisões judiciais e psicológicas disseram, além, é claro, a versão de Woody Allen, que sempre negou o abuso a Dylan. Não contentes, os diretores fecharam a minissérie de forma… espantosa, eu diria. A segunda metade do quarto episódio foi o único momento em que eu vi algum positivo esforço em discutir o caso a partir de pontos de vista e elementos conjunturais distintos, mas isso recebe um grande balde de água fria quando discursos de atores e atrizes que trabalham com Woody Allen aparecem na tela, agradecendo pelos roteiros, pelos filmes, pelas oportunidades. É a versão extremista do “ensaio” de Dylan: “qual é o seu filme favorito de Woody Allen? Antes de responder a essa pergunta, eu quero que você saiba que quando eu tinha 7 anos, Woody Allen me levou para um sótão e abusou sexualmente de mim. Então, qual é o seu filme favorito de Woody Allen?“. Esse tipo de estratégia argumentativa tem um nome em análise do discurso, não tem? A grande questão aqui é a seguinte: nem Dylan nem a HBO precisavam de nada disso. A versão da história dessa mulher é forte demais, emocionante e ao mesmo tempo nojenta demais (Woody Allen é definitivamente um homem nojento) para precisar desse tipo de apelo canhestro. Assim como não precisava de uma preparação estratégica para sugerir os “daddy issues” de Moses. Ou cair na patetice de dedicar quase 20 minutos “construindo o argumento artístico” de que Woody Allen é claramente um pedófilo porque… os filmes dele falam repetidamente de homens mais velhos paquerando, transando, se relacionando com mulheres muito mais novas, muitas delas no limite da idade legal ou levemente abaixo disso, com destaque máximo para a garota de 17 anos que protagoniza Manhattan. Dylan Farrow passou por um inferno. Inúmeras entrevistas. Exposição. Descrédito e vergonha ao longo de toda a sua vida adulta. Traumas que a perseguem até hoje. Como pessoa, é alguém que admite sequelas psicológicas de um caso que psicológica e judicialmente não viu nenhum indício de que sua alegação era verdadeira. Mas a HBO resolveu dar voz a essa mulher através de um melodrama documental que vende Mia Farrow como alguém desamparada judicialmente (inclusive pela mídia!) e que a disputa nos anos 90 foi comprada do início ao fim. Woody Allen assume aqui a posição de molestador de criança e chefão de máfia todo-poderoso, conseguindo comprar um Exército de advogados, pessoas dentro da Corte, da polícia, das equipes psiquiátricas e de corpo-delito e, por fim, contratar detetives particulares para seguir Mia e seus amigos. Mia, por outro lado, aparece como uma mãe de família que lutava para alimentar suas crianças e que basicamente não tinha recursos para lutar contra esse poderoso zilionário molestador, o que qualquer pesquisa de 15 minutos no Google, inclusive em relação à própria narrativa midiática suja e machista dos ano 90, prova exatamente o contrário. Das muitas coisas que Mia era, desamparada judicialmente e sem recursos não era uma das, nem de longe. O documentário poderia trazer novas luzes para o caso. Mas só serviu mesmo para chutar o cachorro morto que hoje é Woody Allen e provar que um bom editor ou alguém que entende o que significa Efeito Kuleshov pode fazer maravilhas quando tem uma narrativa da moda para dar suporte à história dolorosa de uma vítima disposta a dar a cara à tapa, além de uma grande emissora de televisão para criar o show.

Questões ligadas ao feminismo na grande mídia, às verdadeiras ou falsas acusações dos movimentos contemporâneos, à questão da arte feita por pessoas podres e ao próprio caso de Woody Allen (em termos de visão e julgamento pessoal) já foram abordadas aqui no Plano Crítico, portanto, não ganharam nenhum tipo de exploração detalhada no presente texto. Se você quiser saber mais sobre esses assuntos, confira os artigos abaixo:

Allen Contra Farrow (Allen v. Farrow) — EUA, 2021
Direção: Kirby Dick, Amy Ziering
Roteiro: Kirby Dick, Parker Laramie, Mikaela Shwer, Mikaela Shwer, Amy Ziering
4 episódios entre 50 e 75 minutos

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