Crítica | Almofada de Alfinetes

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Existem diversas formas de ser (ou ser classificado como) diferente. No longa britânico Almofada de Alfinetes (2017), escrito e dirigido por Deborah Haywood, essa diferença vem na linha de uma desordem física e emocional para Lyn (Joanna Scanlan) e de uma gigantesca maré de readequação, descobertas e leitura do mundo para a jovem Iona (Lily Newmark). Juntas, mãe e filha representam as “novatas e estranhas” da vizinhança para onde acabaram de se mudar. E onde vão descobrir que a maldade das pessoas pode chegar a um nível que nos faz questionar a humanidade.

O roteiro de Haywood explora, em essência a rejeição, tendo idades diferentes como receptoras dessa realidade. Para Lyn, nada do que ela ouve ou do que fazem com ela é novidade. Acuada e dolorosamente subserviente, ela evita conflitos. Sua solidão é refletida em uma vontade imensa de agradar, de ser educada, de fazer amigos, mesmo que não tenha o filtro social — nas palavras e nos atos — que uma sociedade cobra de uma mãe de família “normal”. O sofrimento parece ser o padrão para ela, que em seu mundo de dor e fantasia, dedica-se inteiramente à filha, a quem parece ter um alto nível de proteção e, mais adiante no filme, entendemos por quê.

Já para Iona, a questão é mais complexa. Sendo uma garota que está em mudanças no corpo, na mente e no caráter, sua predisposição é sempre a de fazer tudo para se enturmar, mesmo que isso signifique apagar quem ela realmente é. Através dos figurinos e da direção de arte, percebemos que Iona vive em um tardio conto de fadas materno, status que funcionou para ela até o presente momento (ou pelo menos “voltou a funcionar”, se pensarmos que o motivo de sua mudança com a mãe para esta nova cidade também se deu por um comportamento tortuoso da garota), mas que suas novas amigas de colégio irão questionar. Até hoje, acredito que Bullying (Josetxo San Mateo, 2009) foi o filme sobre este tipo de violência que mais me enfureceu. Almofada de Alfinetes, no entanto, chegou perto do mesmo estado de fúria para mim.

Na obra, o público não encontrará um drama sisudo diante do qual os personagens irão orbitar, tendo que resolver esse enigma a tempo de um final feliz. A obra, mesmo com todos os seus tropeços na apresentação dos grandes conflitos e principalmente na primeira parte da apresentação, funciona como uma exposição de comportamento hostil e vil frente a pessoas física e/ou psicologicamente incapacitadas, limitadas. E se nós sabemos que o bullying tem um imenso peso para pessoas que não sofrem dessas limitações, imaginem como isto é para quem sofre.

A direção não apresenta de maneira muito funcional a “descida aos infernos” de Iona, que a cada bloco parece se enterrar cada vez mais na depressão a que se entregam jovens maltratadas. Sua fuga, contudo, se confunde com suas vontades e autodescobertas, gerando uma combinação que pavimenta o final denso da fita. Como a trajetória das personagens principais não é nada comum e como enredo está muito mais interessado em nos convidar a pensar sobre as posições das vítimas e dos abusadores — ou de como tudo isso parece se seguir a uma normalidade que os que sofrem tendem a ignorar –, o filme parecerá cambaleante. Em parte, a crítica negativa tem razão de ser, como já apontei, levantando as rusgas da direção e do roteiro. Mas a visão do todo aqui é forte, dolorosa e, infelizmente, muito real. Um filme onde fantasias e sonhos pessoais de viver em paz (cada um com suas estranhezas) se transforma em um tormento com direito à pior das vinganças.

Almofada de Alfinetes (Pin Cushion) — Reino Unido, 2017
Direção: Deborah Haywood
Roteiro: Deborah Haywood
Elenco: Lily Newmark, Joanna Scanlan, Loris Scarpa, Sacha Cordy-Nice, Bethany Antonia, Saskia Paige Martin, Sophia Tuckey, John Henshaw, Lennon Bradley, Aury Wayne, Charlie Frances, Isy Suttie, John Albasiny, Pamela DeAbreu, Lee Jacob
Duração: 82 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.