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Crítica | Alta Ansiedade

por Ritter Fan
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Dinner is served promptly at eight in the private dining room. Those who are tardy do not get fruit cup.
– Enfermeira Diesel

Um dos maiores problemas de Alta Ansiedade foi apontado por diversos grandes críticos da época de seu lançamento: como o próprio Alfred Hitchcock, que é o alvo da vez da homenagem satírica de Mel Brooks, demonstra grande senso de humor e autocrítica em seus próprios filmes, construir comicidade eficiente em cima de sua filmografia não é uma tarefa muito fácil. No entanto, mesmo assim, Brooks tenta e consegue colocar nas telas um filme que diverte justamente por deixar ainda mais evidente os exageros diretoriais do genial Mestre do Suspense, em um tributo sincero ao cineasta que havia encerrado sua carreira no ano anterior com Trama Macabra e que viria a falecer apenas três anos depois.

A história é simples e não mais do que uma desculpa para Brooks e os outros três roteiristas, todos eles com participações no longa, com a premissa girando em torno do Dr. Richard Harpo Thorndyke (Brooks) psiquiatra que sofre de “alta ansiedade”, mistura de medo de altura com vertigem, que foi recém-empossado como diretor do renomado Instituto Psico-Neurótico para os Muito, Muito Nervosos e que, juntamente com seu motorista e faz-tudo (menos levantar peso), além de fotógrafo amador Brophy (Ron Carey) começa a perceber situações estranhas acontecendo por ali cortesia da sinistra enfermeira Charlotte Diesel (Cloris Leachman) e do médico Charles Montague (Harvey Korman), adepto do sadomasoquismo, tendo a enfeirmeira como dominatrix. Some-se a isso a presença de Madeline Kahn como Victoria Brisbane, fazendo as vezes da femme fatale no exato estilo de Kim Nowak em Um Corpo que Cai que quer descobrir o que aconteceu com seu pai, internado no instituto e pronto, todos os ingredientes necessários estão presentes para uma sucessão bem amarrada de paródias dos filmes de Hitchcock, além de outros como Blow-Up: Depois Daquele Beijo e 007.

Mas Brooks vai além das obviedades. Sim, claro que ele cria sua própria versão das célebres cenas do chuveiro em Psicose, do ataque dos pássaros em Os Pássaros e da vertigem no campanário de Um Corpo que Cai, pois é irresistível abordar esses momentos inigualáveis do cinema, mas o que realmente importa em Alta Ansiedade, o que faz o longa dar alguns passos adiante do que poderia apenas ser uma sucessão de esquetes de filmes de terceiros que qualquer Saturday Night Live poderia executar de maneira tão eficiente quanto, é que tudo, absolutamente tudo no longa – direção de arte, fotografia, trilha sonora, montagem – faz esforço para emular Hitchcock como se o diretor britânico estivesse trabalhando sob efeito de esteroides.

O primeiro e mais chamativo destaque fica mesmo com a trilha sonora que foi composta por John Morris para, claro, parecer Bernard Herrmann, com a sincronização exagerando nas notas altas e, melhor ainda, fazendo com que o elenco reaja à música, isso quando ela não aparece de forma diegética no filme, especialmente no genial momento em que, a caminho do instituto, Thorndyke e seu motorista começam a ouvir algo que logo se revela como uma banda completa tocando em um ônibus ao lado. E esse é apenas um exemplo do que eu poderia facilmente chamar de uma aula de Brooks sobre Hitchcock, pois o diretor faz mais do que meramente parodiar; ele deixa evidente para os espectadores todos os “truques” na manga do Mestre do Suspense.

É evidente que isso exige mais do que o conhecimento perfunctório da obra de Hitchcock. É importante – essencial mesmo – que o espectador saiba reconhecer, apenas para usar outro exemplo, a arquitetura absurdamente dramática dos cenários do cineasta homenageado, algo que fica logo claro pela localização do instituto em um promontório quase surreal, com direito a uma torre na parte mais extrema. Igualmente, o uso de ângulos radicais de câmera, parte da infraestrutura dramática de Hitchcock, ganha grande destaque aqui, valendo especial comentário para o apertadíssimo e tumultuado contra-plongê em que vemos Diesel e Montague tramando enquanto tomam café, colocando pratos e pires na mesa sempre de forma a “atrapalhar” a lente. É simplesmente brilhante e hilário.

E a quebra da quarta parede? Hoje, um artifício tão banalizado por aí com um monte de produção tentando ser uma mais esperta que a outra nesse uso e Brooks faz o que parece óbvio, mas não tinha precedentes: aproximar a câmera lentamente de uma porta envidraçada ao ponto de ela literalmente quebrar o vidro, com os personagens no ambiente “invadido” ouvindo o barulho e olhando na direção do acidente. Simples, limpo e, convenhamos, mais do que engenhoso.

Claro que, como é comum nos filmes de Brooks em razão da constante tentativa de fazer humor das mais diferentes maneiras, nem sempre ele acerta. Há momentos com piadas “cansadas”, especialmente no início, com Thorndyke chegando no aeroporto de Los Angeles ou a repetição constante da “alta ansiedade” do personagem. Diria até mesmo que o próprio Mel Brooks não fosse a melhor escolha para protagonizar o longa, pois sempre faltou ao multi-talentoso cineasta um certo grau de sutileza e empatia, algo que, por exemplo, Gene Wilder, só para citar um ator com quem Brooks trabalhou diversas vezes, teria de sobra para oferecer.

Mas Alta Ansiedade funciona bem como uma sátira divertida e uma homenagem tocante a um dos maiores diretores que já viveu. Mel Brooks prova que entende muito bem o cineasta em quem mira sua câmera, inclusive que ele era autoconsciente em sua pegada exagerada e repleta de humor. É necessário um gênio para reconhecer outro, não é mesmo?

Alta Ansiedade (High Anxiety – EUA, 1977)
Direção: Mel Brooks
Roteiro: Mel Brooks, Ron Clark, Rudy De Luca, Barry Levinson
Elenco: Mel Brooks, Madeline Kahn, Cloris Leachman, Harvey Korman, Ron Carey, Dick Van Patten, Howard Morris, Jack Riley, Charlie Callas, Ron Clark, Rudy De Luca, Barry Levinson, Lee Delano, Richard Stahl, Darrell Zwerling, Murphy Dunne, Al Hopson, Albert J. Whitlock
Duração: 94 min.

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