Crítica | Amaldiçoados (2005)

Depois de cinco anos do lançamento de Pânico 3, Wes Craven reuniu-se com Kevin Williamson para o desenvolvimento de um novo filme de terror, desta vez, sem as discussões metalinguística sobre o slasher, mas uma produção com bastante referências ao mito do lobisomem, trabalhado exaustivamente no cinema. Espera-se, no geral, que cineastas e roteiristas como os envolvidos nesta dupla tenham bom senso ao desenvolver as suas histórias, haja vista o espaço de prestígio que alcançaram na indústria e no campo da crítica. Isso, no entanto, não prevalece em Amaldiçoados, um filme ruim, mas tão divertido que nós perigosamente esquecemos se tratar de uma realização dos responsáveis por revitalizar o terror nos anos 1990.

As exigências tornam-se maiores, pois não esperamos mais qualquer bobagem de quem tem tanto talento para desenvolver boas histórias. Tanto a dupla quanto o elenco, formado por bons atores, cumprem suas atividades automaticamente, sem muito comprometimento, num filme de terror que resulta apenas num entretenimento ligeira para pessoas que exigem pouco ou nada além da diversão ao contemplar uma narrativa cinematográfica. Ghostface é colocado para descansar, pois retornaria apenas em 2011, substituído agora por lobisomens que adoram carne humana e vivem da caça noturna, em especial, nas noites de lua cheia, etc. Tudo aquilo que já sabemos.

O roteiro de Williamson não apresenta problema nos diálogos, afiados e cheio de críticas ao mundo das celebridades, espaço de interação esvaziado de sentido numa sociedade cada vez mais fincadas nas aparências, prenuncio da democratização e pluralidade das redes sociais alguns anos após o lançamento do filme que traz a seguinte história: os irmãos Ellie (Christina Ricci) e Jimmy (Jesse Eisenberg) voltam para casa durante a noite e ao longo do caminho, conversam sobre acontecimentos do cotidiano quando de repente sofrem um acidente. Ligeiramente feridos, descem do carro para prestar socorro ao outro condutor, aparentemente em situação mais grave.

É quando são surpreendidos por algo que ao menos Jimmy acredita ser um lobisomem. Nós, tal como os personagens, não conseguimos ver muita coisa. O mistério se estabelece, numa cena bem dirigida. Intrigado com o acontecimento, Jimmy insiste na ideia do monstro enquanto a sua irmã está preocupada apenas com o seu relacionamento conflituoso com Jake (Joshua Jackson). Daí em diante contemplamos um festival de situações que já vimos numerosas vezes, em outras situações, melhores e mais bem conduzidas. Após duas décadas do lançamento de O Lobisomem Americano em Londres, os efeitos da premiada equipe de John Landis demonstram-se ainda não superados, quando comparados aos monstros de Amaldiçoados.

Se o investimento em pleno anos 2000 é realizado por Craven e Williamson, esperávamos algo no mínimo chocante ou com nova injeção de ânimo. Mas não há nada disso. Os irmãos revelam-se assustados com a nova condição, mas aproveitam-se de algumas regalias, em especial Jimmy, jovem que sofre horrores na escola graças ao bullying dos valentões. Em seu processo de transformação, eles precisam lidar com as bruscas mudanças e arranjar uma alternativa para destruir a maldição, algo que envolve a descoberta da identidade de quem os transformou nessas feras assassinas noturnas. A chave para isso é arrancar a cabeça do corpo. Criativo, não? Se observado também numa perspectiva comparativa, desta vez, em relação aos bons A Possuída e Cães de Caça, contemporâneos das criaturas peludas e amaldiçoadas de Wes Craven e Kevin Williamson, observaremos que a dupla perde lugar no podium. E com diferença absurda.

O design de produção de Chris Cornwell é correto, adornado por prevalência de tons azulados e pretos em determinados momentos, tal como a arte do poster oficial de divulgação do filme. A direção de arte, assinada por Leonardo Campos, acerta nos adereços, tais como uma estátua de Freddy Krueger no espetáculo onde o personagem de Joshua Jackson atua. Marco Beltrami assumiu a trilha sonora sem grandes momentos. A direção de fotografia vai na contramão da qualidade do roteiro, pois apresenta-se eficiente, da mesma maneira que a edição de Patrick Lussier. A maioria, vale observar, é parte da produção dos filmes da franquia Pânico, elo apenas na assinatura dos profissionais envolvidos, pois nos quesitos estética e dramaturgia, Amaldiçoados infelizmente está bem aquém dos conflitos e estratégias narrativas da saga de Ghostface.

Com dito anteriormente, ao menos os diálogos são interessantes. Em determinado momento, um personagem dispara para o outro “que estão em Hollywood e lá, quando você prova sangue uma vez, enlouquece”, numa provável referência ao mundo de prerrogativas temporárias da mídia. Noutro instante, um personagem alega que “todos nós estão amaldiçoados, é a vida”. O excerto visto fora de contexto pode soar frágil, mas numa perspectiva mais geral, é repleto de significados. No campo da metalinguagem, há uma aproximação com o universo de Lon Chaney e o clássico O Lobisomem, produção que em Amaldiçoados está em comemoração pelo aniversário de lançamento.

Amaldiçoados (Cursed/Estados Unidos, 2005)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Kevin Williamson
Elenco: Dean Stockwell, Diana LeBlanc, Jeff Yagher, Terumi Matthews, Wendie Malick, Dominique Briand, Don Francks, Tom Melissis, Rod Wilson
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.