Crítica | Amanda

“Não é um bom dia para passear por Paris. Vai para casa, senhor.”

Quando um atentado terrorista retira, abruptamente, a vida de inúmeros corpos, incluindo o de sua querida mãe, como Amanda (Isaure Multrier), interpretada graciosamente, irá encarar os próximos passos de sua trajetória, ainda em estágios iniciais, por esse caminho assustador? Mikhaël Hers adentra no cotidiano da sociedade francesa, constantemente bombardeada por situações como a retratada pelo cineasta, por ser o terrorismo, provavelmente, uma das piores maneiras de se perder um ente querido, sem justificativa, sem probabilidade, rasgando a rotina da pessoa vitimada e das milhares que continuarão vivas, mas destroçadas pela perda. O luto surge como um motor dramático para o longa-metragem, desempenhando seu papel como poderosa premissa emocional, que coloca menina e homem – o  irmão da mulher morta – para enfrentarem as dores da saudade e da incompreensão. A jornada, portanto, se encaminha para uma virada nesse sentimento de pesar, um reencontro às felicidades pequenas. A cena final carrega uma excelente associação entre esse pêndulo da derrota transformando-se em vitória, com a menina expurgando uma imensurável dor que passa a ser qualificada como uma possibilidade de continuar caminhando, mesmo sem a mãe ao seu lado, como sempre havia sido.

O diretor investe no mapeamento de uma gigantesca tragédia, porque, no roteiro, existem diversos personagens afetados indiretamente ou diretamente pelo atentado. As consequências são claras, potenciando a imersão do espectador nesse universo de presumida desilusão interminável. Quando a ordem do caos será subvertida e a vida poderá ser vivida como antes? O seguir em frente é uma missão complicadíssima, seja em relação ao óbvio pretexto aberto, do indescritível luto transformando-se em eterna saudade, ou, por uma outra vertente, os vínculos perdidos que podem acabar sendo reatados, como é o caso da mãe do protagonista, David (Vincent Lacoste), jovem com o mundo pela frente, mas que, agora, precisará cuidar da sua sobrinha. Já na construção de espaço, o vácuo, sem permitir o esboço de alegria perante o mórbido, é uma definição mais que apropriada para os momentos posteriores à catástrofe – embora o cineasta não saiba como inserir a intolerância nesse enxerto. O tio passeia com a sua sobrinha em uma cidade inerte à vida, nem tristeza, apenas o vazio, a incompreensão, como podemos perceber na interpretação do protagonista depois de descobrir o que aconteceu no parque – uma imagem sem nenhum encaminhamento fúnebre, de despedida, apenas sendo o que simplesmente é.

A trivialidade é pontuada certeiramente para a construção primeira de atmosfera, de personagens que se importam uns com os outros. Os irmãos passeiam pela cidade de bicicleta, expressando uma felicidade efêmera, porém, por quê não passível de retomada, mesmo em consequência àquela tamanha desgraça? O protagonista é carismático, munido de uma humildade juvenil gostosa de acompanhar, nos sujeitando a dar ainda mais importância a tudo que o cerceia. O vai-e-vem de David com a sua namorada – arco secundário interessante – é cansativo, entretanto, serve como entendimento de uma esperança latente ao caos. Hers não precisa realçar poeticamente, abusando de uma trilha sonora incidental melodramática, os vários últimos encontros antes do abrupto fim de uma vida, da mulher com seu irmão, da mulher com sua filha. O ocasional, muito mais cruel que o premeditado, eleva-se diante dessa escolha. Além disso, nos momentos sucessivos ao ponto da guinada narrativa, o ataque terrorista propriamente dito, a câmera não se aproxima muito mais do que precisaria se aproximar dos artistas e suas respectivas interpretações. Um realismo cinematográfico, de acordo com uma câmera menos presente, que não torna as emoções subjacentes insensíveis, porém, extremamente verdadeiras.

O encaminhamento de sensações honestas justamente possibilita Amanda, ao ser impedida de ir ao parque, derradeiramente chorar, porque a menina acaba sendo obrigada a pensar acerca dos prévios acontecimentos, antes sombreados pela incompreensão – “por que eles atiraram nas pessoas?” – e, depois, pelo prolongamento de um esvaziamento de qualquer mentalidade sóbria, preenchida, em contrapartida, pelo interesse na diversão indiscriminada e qualquer outra coisa que não a permitiria, até aquele momento, pensar sobre o que aconteceu e o que está acontecendo. A sua vontade, no entanto, quase subconsciente, não é satisfeita com o impedimento de ir ao parque – “não é um bom dia para passear”. A perda da sua mãe, portanto, é retomada, levando a garota ao choro inconsolável, que retorna em outros momentos, contudo, nunca se tornando redundante, muito pelo contrário, ratificando uma certeza, por parte do público, de estar em frente a uma menina perdida em seus pensamentos, que deveriam ainda ser infantis e não mais são. O crescimento, de ambos os personagens, é alinhado com a superação. O retorno do otimismo, da felicidade, depois da calmaria e da tempestade. “Temos todo o tempo do mundo”, por fim, complementa a ode ao sorriso impensável.

Amanda – França, 2018
Direção: Mikhaël Hers
Roteiro: Mikhaël Hers
Elenco: Vincent Lacoste, Isaure Multrier, Stacy Martin, Ophelia Kolb, Marianne Basler
Duração: 107 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.