Crítica | Amanhã Nunca Mais

Comédia de erros com traços dramáticos em toda a sua extensão, Amanhã Nunca Mais é um filme doloroso. Não faltam momentos para nos deleitarmos com as situações inusitadas, enfrentadas pelo protagonista Walter, interpretado por Lázaro Ramos, dedicado como sempre. Ainda durante a exibição, durante a segunda investida, haja vista já ter conferido o material durante o lançamento em 2011, percebi de imediato algumas ilações possíveis para entendermos a proposta narrativa do filme. O elo com Depois de Horas, de Martin Scorsese é inevitável. Há também ressonâncias da Odisseia, de Homero. Mesmo que bem diluídas. Se pensado de forma paródica, a narrativa bem que poderia se chamar, tranquilamente, “Os 12 Trabalhos de Walter”.

A jornada épica de retorno para casa, tendo vista cumprir uma formalidade, isto é, a entrega do bolo de aniversário da filha, prometido para a esposa aparentemente cansada do casamento pouco atrativo, nos remete, mesmo que de maneira distante, ao retorno homérico de Ulisses para casa. Ele encontra uma garota de programa louca no meio do caminho, responsável por fazê-lo perder bastante tempo. Depois se debate com Mirian (Maria Luísa Mendonça), uma espécie de Circe, mulher com quem não percebe a quantia de minutos em atraso para a sua chegada em casa. No meio do processo, há um atropelamento, pois o motociclista (Luís Miranda) não cumpriu devidamente com as necessárias regras básicas do trânsito.

Se no poema épico a fúria de Poseidon impede o retorno tranquilo pelos mares da Grécia Antiga, aqui o trânsito é a alegoria e o obstáculo. Não acredito que houve interesse do cineasta Tadeu Jungle em emular Homero. Creio que seja mesmo uma ilação própria de quem escreve o texto, processo de constante relação intertextual. O fato de Jungle, também responsável pelo roteiro, escrito em parceria com a dupla formada por Maurício Arruda e Marcelo Muller, não citar diretamente ou não ter inserido as tais referências de maneira explícita ou intencional não nos impede de traçar tais relações, pois o que percebemos na trajetória de Walter é uma verdadeira odisseia. Tudo para conseguir voltar para casa.

Ao longo dos 77 minutos, o filme nos apresenta, por sua vez, um personagem pouco astuto e muito conformado com as coisas. A sua postura cabisbaixa chega a dar nervoso. É irritante. Captado pelas imagens da direção de fotografia de Ricardo Della Rosa, acompanhamos a sua rotina de “fracassado”. Walter é um anestesista que cumpre as suas missões profissionais no automático. Castrado pela ausência de sexo com a esposa, ele ainda precisa escutar as aventuras de Dr. Geraldo (Milhem Cortaz), seu amigo mulherengo e desbocado do hospital. Ainda no ambiente de trabalho, enfrenta o preconceito de quem não acredita em sua função de anestesista, posto que um cirurgião inclusive aponta como “menor”, pois conforme o acusador, “nem médico de verdade ele é”.

Somente com esses dados, percebemos que Walter é uma intensa bomba prestes a explodir. O filme abre e deflagra o problema universal em relação ao deslocamento de seres humanos no trânsito. Congestionamento, irritabilidade, relação com o tempo cada vez mais apressada, conjunto de fatores que culmina na morte de muita gente, afinal, basta ler os dados para tornar-se ciente da quantidade de acidentes de trânsito causados por falhas humanas. Enquanto Solange (Fernanda Machado) aguarda o bolo de aniversário, juntamente com os convidados, Walter sobrevive às peripécias aristotélicas de sua trajetória do trabalho para casa.

Quem adorna o seu processo doloroso é a condução sonora de Marcelo Ambujara, orquestrada para flertar com o trágico e o cômico de sua situação. Em crise no casamento, um dos elementos castradores de sua existência enquanto homem hétero cis, casado, ilustração de uma família tradicional e supostamente harmoniosa, onde o homem exerce a sua função e sustenta a casa, enquanto a esposa cuida da filha, Walter é, como nas palavras de Euclides da Cunha, um “forte”. Ele é praticamente o sertanejo euclidiano em sua tentativa de dar mais significado para a sua vida cotidiana relegada ao marasmo do “mais do mesmo”.

Logo nas primeiras cenas, observamos a sua cara desanimada na praia. A mulher se diverte tomando sol, a sogra enche o saco dando opinião na vida do casal e a filha quer fazer coco. A mãe não quer levar, então sobra para ele o papel de acompanhante até o banheiro público. A direção de arte de Valdyr Lopes não deixa faltar detalhes. Os adereços indicam uma bagunça enorme. Vasilhas, farofa, objetos espalhados. O passeio que seria divertido é na verdade uma alegoria da condição de Walter, um homem despedaçado por dentro, angustiado e tenso.  Próximo ao final, aguardamos a redenção do personagem, mas o único momento de elevação ocorre apenas quando o personagem consegue driblar o transito ruim, repleto de semáforos transformados em gigantes obstáculos temporais, carros que parecem não se mover e quando o fazem, dão alguma esperança para depois de poucos metros travar tudo novamente.

Quando ele consegue pegar uma pista livre e aumentar o seu limite de velocidade, o filme parece nos dizer que o personagem conseguiu alcançar o seu orgástico desejo momentâneo. Mas pelo que tudo indica, Walter é um conformista, sobrevivente de uma existência circular pouco interessante e pálida, sem grandes emoções. Na produção, o caótico trânsito surge como alegoria para os seus conflitos internos e externos. Tal como a mobilidade urbana em São Paulo, cidade que situa a narrativa, a existência de Walter é sofrida. O filme nos apresenta isso de maneira muito didática, por sinal, num reforço extremo para explicar por diálogos e imagens coisas que qualquer espectador mais atento percebe apenas diante do que nos é mostrado.

Tal como os motoristas pouco educados do trânsito, alegorizados no filme, faltou sutileza na produção. Como recurso didático para reflexões sobre educação para o trânsito, Amanhã Nunca Mais funciona adequadamente. No quesito entretenimento, consegue nos envolver, pois compreende a hora certa de acabar, afinal, alcança menos de 80 minutos, uma maravilha para uma história com desenvolvimento dentro de certos limites. Já no que tange aos meandros da concepção de uma obra de arte, o filme deixa a desejar em quesitos dramáticos, pois mesmo que os recursos estéticos atendam ao necessário para contar a saga de Walter, é preciso mais que uma boa direção de fotografia e um diretor caprichoso para fazer o filme se tornar uma produção inesquecível. Talvez também não tenha sido do interesse dos realizadores. Não importa, o que queremos é ser espectador de uma narrativa que seja amplamente significativa, pois tal como Walter e os demais personagens do filme, somos seres humanos da vida real: o tempo urge e não desejamos perder carga horária disponível para experiências de relevância mediana.

Amanhã Nunca Mais — (Brasil, 2011)
Direção: Tadeu Jungle
Roteiro: Tadeu Jungle
Elenco: Lázaro Ramos, Maria Luísa Mendonça, Milhem Cortaz, Paula Braun, Fernanda Machado, Luís Miranda, Vick Militello, Anna Guilhermina
Duração: 77 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.