Crítica | Amantes (2008)

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Filmes mais recentes como Ad Astra, Z – A Cidade Perdida e Era Uma Vez em Nova York colocaram James Gray em evidência como um diretor de jornadas épicas que, em uma segunda camada, se traduzem em uma busca muito mais intimista e familiar. Não é a viagem para Netuno, a busca pela cidade prometida ou a tão sonhada Nova York dos anos 1920 que importam. Tudo gira em torno deste eixo gravitacional ao redor da família. Tema central ao longo de sua carreira, é interessante observar como Amantes se esconde como uma grande ópera melancólica, mas, inevitavelmente, acaba voltando ao mote grayneano.

Em Amantes, Leonard (Joaquin Phoenix) é um judeu, na faixa dos 30 anos, que ainda mora com os pais e sofre de transtorno bipolar, tendo sido deixado por sua noiva. Mais interessado em tirar fotos do que dar continuidade na empresa do pai, o protagonista se vê no meio de duas mulheres: Cassandra (Vinessa Shaw), judia que a família tenta arranjar para ele; e Michelle (Gwyneth Paltrow), a vizinha que acabou de se mudar.

Para Leonard, a família é essa instituição que o acorrenta na monótona realidade. Mais entretido na introspecção de sua cabeça, ele se acostumou com uma vida pacata. Por isso, quando Michelle surge, é quase como se Leonard passasse a ver sentido na vida. Intensa, ela é como uma aventura, pura adrenalina. Por outro lado, Cassandra não deixa de ser uma extensão de uma certa comodidade e um realismo da sua família.

Esse é um contraste que se faz presente por diversas escolhas de Gray. Do lado de Michelle, a própria maneira como surge — um encontro ao acaso no corredor — remete a uma ideia de destino. Ela e Leonard passam boa parte do tempo conversando pela janela, incorporando até um pouco esse lado do voyeurismo. Ou seja, ela está ali, existe, mas não está ao seu alcance. De mesmo modo, as saídas dos dois envolvem todo um lado mais luxuoso de Nova York, seja na boate ou no restaurante mais refinado.

Por outro lado — e aqui acredito que seja a escolha mais genial, bela e pessimista da carreira de Gray — as lembranças de Leonard com Cassandra não são vistas, mas sugeridas. O que temos à nossa disposição é apenas uma sequência de fotos em preto-e-branco tiradas da câmera do protagonista. Desinteressado, é como se ele não estivesse vivendo, de fato, aquela passagem de tempo. É o confronto entre o estático e o movimento; a cor e sua ausência. Similarmente, quando a Cassandra sai do quarto de Leonard pela porta, a câmera faz uma panorâmica em direção à janela, para o vazio do apartamento de Michelle, o que verdadeiramente importa para ele.

Preso entre a fantasia e a realidade, Leonard é essa figura que nunca saiu de sua zona de conforto. Por todo o filme, existe essa tentativa dele ter seu destino controlado pelos pais.  É o negócio de família que deve seguir, a mulher escolhida para ele, a mãe que fica por atrás da porta espiando o que ele faz, as fotografias da família espalhadas pela parede que julgam durante o beijo.

Por isso, não se espanta que um certo momento de Amantes, Leonard tenha dito que às vezes ele se sente morto. Com as escolhas já tomadas por ele, resta apenas uma sombra, não só metaforicamente, como visualmente por diversas cenas do filme. Até por isso, ele também esconde uma enorme fragilidade, ao usar como escudo uma personalidade brincalhona. Nesse sentido, Joaquin Phoenix já traz aqui vários indícios de uma persona que ele posteriormente chegaria em Coringa, principalmente no que se refere a uma inocência muito genuína, que se dá através de pequenos gestos, como um desvio de olhar ou uma coçada na nuca.   

No entanto, Leonard não é apenas um coitado. Ele é um adulto que foge de suas obrigações para sonhar acordado. Em um certo diálogo, Michelle chega a dizer: “eu sou uma assistente para a vida”. Por isso, para que ele despertasse novamente, toda essa experiência passageira e traumática era extremamente necessária.

Em Amantes, James Gray cria um dos filmes mais pessimistas, melancólicos e realistas sobre a paixão nos últimos anos, mas talvez um dos mais otimistas sobre o amor, família e tradição. 

Amantes (Two Lovers) – USA, 2008
Direção: James Gray
Roteiro: James Gray, Richard Menello
Elenco: Joaquin Phoenix, Vinessa Shaw, Gwyneth Paltrow, Isabella Rossellini, Moni Moshonov, Julie Budd, Bob Ari, Elias Koteas
Duração: 110 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Já toquei uma gaita com Sergio Leone, lutei contra o sistema com Ken Loach, me apaixonei com James Gray, xinguei minha mãe com Xavier Dolan, tive uma crise de ansiedade com Darren Aronofsky, fui a um baile de máscaras com Stanley Kubrick e nasci do útero de de Naomi Kawase. Um constante indeciso. Acredito que não há verdades absolutas na crítica cinematográfica, com uma exceção: Star Wars - The Last Jedi é maravilhoso e isso é irrefutável — leve essa última frase na brincadeira....ou não.