Crítica | Amazing Grace (2018)

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A história por trás do documentário Amazing Grace (2018) é longa e conturbada. O filme é o registro histórico e inestimável do que aconteceu nos dias 13 e 14 de janeiro de 1972, dentro da New Temple Missionary Baptist Church (em Los Angeles), onde a Rainha do Soul gravou aquele que seria o disco gospel mais vendido de todos os tempos. A direção do projeto foi entregue a Sydney Pollack, que tinha uma sólida carreira na TV e que nos cinemas já havia dirigido obras de bastante destaque, como Uma Vida em Suspense (1965), Esta Mulher é Proibida (1966) e A Noite dos Desesperados (1969).

Em 1972, Aretha Franklin já tinha lançando 18 álbuns de estúdio (dentre eles I Never Loved a Man the Way I Love You e Young, Gifted and Black) e 3 álbuns ao vivo. Sua intenção para o próximo projeto era criar algo diferente, mais íntimo e dentro daquilo que lhe serviu de base musical: o meio gospel. Foi então que a cantora escolheu o formato de uma gravação ao vivo dentro de uma igreja, com coral (nesse caso, o Southern California Community Choir) e fiéis apreciando a execução das canções. O ensaio e as duas noites de gravação do álbum foram filmadas por Sydney Pollack, que simplesmente ignorou a básica regra de usar claquetes para ajudar na sincronização de som e imagem. O resultado? Amazing Grace (que a Warner tinha planos de lançar na mesma safra que o blaxploitation Super Fly) simplesmente estacionou na mesa de edição, por ser impossível sincronizar, e o projeto foi engavetado.

Em 2007, o produtor Alan Elliott comprou o material bruto e, graças ao hercúleo esforço do editor de som Serge Perron e posteriormente do montador Jeff Buchanan (cujo trabalho não é tão elogiável quanto o do colega de áudio), conseguiu finalizar o filme num espaço de quatro anos. Aí as coisas ficaram ainda mais intrigantes. Em 2011, Elliott tentou lançar o longa, mas foi processado por Aretha Franklin e precisou adiar o lançamento. Em 2015 ele tentou novamente e foi novamente processado pela cantora, tendo que adiar mais uma vez a estreia. Só após a morte da artista, em agosto de 2018, e depois de um acordo com a família dela, o diretor conseguiu lançar a sua versão desse material, que é um verdadeiro espetáculo.

Quando o filme estreou nos Estados Unidos, no final de 2018, muitos espectadores (e alguns poucos críticos) pegaram no pé em relação ao tipo de documentário que Amazing Grace é, como se houvesse apenas uma escola, princípio de documentação da realidade e estilo na tradição do documentário, o que nem de longe é verdade. Amazing Grace não tem entrevistas. Não tem narração off. Não tem exatamente uma linha explanatória ou mesmo amplo contexto histórico e, ainda assim, é um excelente documentário. Primeiro, a apresentação transcendente de Aretha Franklin já valeria tudo. Há momentos de pura alegria e profunda emoção, como quando os membros do coral começam a sentir a artista interpretando e se manisfestam ou quando o reverendo James Cleveland entrega o piano para o fantástico líder do coral, Alexander Hamilton, e cai em lágrimas em um banco próximo. Mas não é só isso. Ver a apresentação e a reação do público (Mick Jagger e Charlie Watts estavam na igreja, na segunda noite) também faz parte da experiência e com certeza nos ajuda a mergulhar ainda mais na música.

O problema não é o estilo, o tipo de câmera ou a ausência de qualquer modulação didática aqui. O problema de Amazing Grace é a sua montagem sem elegância, principalmente na segunda noite do evento. Tudo bem que a direção de Sydney Pollack é errática e as câmeras em diversos pontos da igreja parecem não saber direito o que querem filmar. Mas o material que capturaram é realmente incrível, então uma montagem que desse maior senso de fluidez através daquele espaço resolveria o problema, alternando as cenas entre plateia e “palco” a partir de diferentes ângulos, exatamente como se faz em apresentações orquestrais ou shows em teatros (e cito esse tipo de configuração por ser em espaço confinado, como foi o caso de Amazing Grace).

Ainda assim, é fácil perceber que o trabalho de Jeff Buchanan não foi nada fácil, e que no final das contas ele e o diretor Alan Elliott conseguiram apresentar uma versão da famosa gravação na igreja que entrou para a História da música gospel. Amazing Grace é o tipo de documentário capaz de converter até o mais incrédulo dos espectadores, pelo menos até os créditos finais subirem. A voz de Aretha Franklin, sua humildade, sua plena entrega ao projeto e toda a comunidade participando é algo incrível de se ver. Quando alguém estiver triste, é só assistir à primeira parte e o início da segunda parte desse documentário que a alegria virá aos pulos. Que filme!

Amazing Grace (EUA, 2018)
Direção: Alan Elliott, Sydney Pollack
Elenco: Aretha Franklin, James Cleveland, Southern California Community Choir, C.L. Franklin, Alexander Hamilton, Bernard Pretty Purdie, Chuck Rainey, Clara Ward, Mick Jagger, Sydney Pollack, Charlie Watts
Duração: 89 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.