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Crítica | Amer (2009)

por Luiz Santiago
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Lançado em festivais aqui no Brasil com dois títulos diferentes (Sofrido e Amargo), Amer foi o primeiro longa-metragem do casal Hélène Cattet e Bruno Forzani, conhecidos admiradores do cineasta Mario Bava e entusiastas do gênero giallo, que homenageiam claramente neste filme realizado com um orçamento bem menor do que fora previsto e filmado em 39 dias, na Riviera Francesa e na Bélgica.

Com roteiro e direção de Cattet e Forzani, Amer está dividido em três atos, mostrando a infância, juventude e fase adulta de Ana (Cassandra Forêt, Charlotte Eugène Guibeaud e Marie Bos), explorando uma proposta de libido/sexualidade aflorada que o espectador só começa a perceber de fato a partir do segundo ato. O filme, como um todo, é um exercício estético intenso e que não cede à normalidade em nenhum momento. O público ouve pouquíssimas falas e é exposto a uma montagem que abraça o estilo “dispersamente artístico” do avant-garde e, claro, as muitas referências visuais ao giallo na direção de arte, uso de cores na fotografia, edição e mixagem de som…

Não sendo exatamente um filme fácil por não ter uma linha narrativa mais orgânica para amarrar os três atos (isso é um dos problemas do filme, tornando-se mais evidente à medida que a obra avança), exige-se aqui o máximo de atenção do público. O primeiro aspecto externo da obra, no entanto, é de fácil entendimento. Todos conseguirão captar a intenção dos diretores na exposição da vida dessa personagem em diferentes idades e as coisas que movem o seu desejo, seus medos, seu destino. O que não fica exatamente evidente ou mesmo bem colocado na fita são as motivações. Se nós conseguimos aproveitar com gosto o uso do silêncio e toda a dinâmica visual para criar esse espaço de terror-sexo-morte, certamente sentimos falta de algo para amarrar melhor as três partes, dando-lhe uma força maior.

Eu gosto particularmente do primeiro e do último ato. O segundo está quase totalmente alheio à proposta do filme, com exceção da relevância da libido. Já no primeiro, uma marca sobrenatural domina o conto, lembrando muitas construções de Dario Argento em Suspiria. O ponto negativo aí é que esse aspecto ligado à “avó bruxa” nunca se explica ou se amarra ao silêncio misterioso da mansão, voltando no final do filme com o mesmo problema. Não é algo que estraga a fita, mas que a impede de crescer. Já o terceiro ato, o mais acabado em termos narrativos, quase conta uma nova história com todo o método giallo de assassinar, perseguir e se vestir (as luvinhas de couro e a arma branca, estão aqui!), adotando até o labirinto em torno do verdadeiro assassino, algo que os diretores “revelam-mas-não-revelam”, deixando o veredito para o público a partir de uma quebra de ponto de vista.

Amer é um produto tenso, com escrupuloso som ambiente e pontuais momentos de uma marcante trilha sonora acompanhando a belíssima direção de fotografia de Manuel Dacosse e uma história de terror em pedaços, que sai da tentativa de morte para um real e chocante assassinato, muitos anos depois. É um filme incompleto, em sua exposição, mas não indecifrável ou sem sentido, conseguindo nos passar a ideia de um amargo pesadelo chegando ao fim, assim que sobem os créditos finais. Um interessantíssimo pastiche-homenagem a um dos subgêneros mais interessantes do cinema.

Amer (França, Bélgica, 2009)
Direção: Hélène Cattet, Bruno Forzani
Roteiro: Hélène Cattet, Bruno Forzani
Elenco: Cassandra Forêt, Charlotte Eugène Guibeaud, Marie Bos, Biancamaria D’Amato, Harry Cleven, Jean-Michel Vovk, Bernard Marbaix, Thomas Bonzani, François Cognard, Delphine Brual, Jean Secq, Béatrice Butler, Charles Forzani, Benjamin Guyot, Yves Fostier
Duração: 90 min.

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