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Crítica | American Crime Story – 3X04: The Telephone Hour

por Iann Jeliel
942 views (a partir de agosto de 2020)

The Telephone Hour

  • Contém SPOILERS. Acompanhe por aqui as críticas dos demais episódios de Impeachment, e aqui, as críticas de nosso material da série.

The Telephone Hour se concentra única e exclusivamente no desenvolvimento da relação de Linda Tripp (Sarah Paulson) e Monica Lewinsky (Beanie Feldstein), em um duplo estudo de personagem bastante claro, quando consolidado pelas circunstâncias da progressão dos fatos. O recorte temporal pega o período inicial em que Linda começou a gravar suas conversas com Monica, no intuito de escrever um livro sobre os bastidores da Casa Branca, atitude sugerida por sua agente literária, Lucianne Goldberg (Margo Martindale).

Na parcela de sua perspectiva, vemos uma Tripp dividida entre não fazer pelo sentimento de traição a Monica e ir mais a fundo, independentemente da amizade, em sua ambição vingativa contra aqueles que a tiraram do lugar onde ela acha merecer estar. Ao longo do episódio, a atuação de Paulson faz um excelente trabalho em demonstrar sutilmente, com microexpressões faciais difíceis de evidenciar pela cobertura de maquiagem em seu rosto, essa dúvida que paira sobre cada atitude sua. Se antes a ambiguidade da personagem era motivo de curiosidade no telespectador para saber seu real sentimento, agora ela é convertida em informações que se comportam como nuances dramáticas.

Suas reações a cada novo telefonema de relatos de Monica vão permeando da empatia à pena, passando por vários momentos de impaciência, até explodir na derradeira chamada em que ela desabafa e “faz as pazes” consigo mesma para tomar sua decisão. Tripp claramente se importa com Monica, sua vulnerabilidade é motivo de espelhamento à própria, que precisou criar uma casca para sobreviver às sujeiras do mundo político ao qual aceitou pertencer. Contudo, essa casca não é isenta do orgulho, pelo contrário, o orgulho é o que a sustenta, logo, torna-se maior do que a sensibilidade de ser a única ouvidora e conselheira possível de Monica, em seus ciclos abusivos com Clinton (Clive Owen).

O seu desabafo é duro, mas foi o único de uma maior transparência com Monica, que deveria ser mais recorrente a partir dali, mas não foi, porque ela precisava administrar essa sua casca. Nisso, surge a oportunidade colocada por Lucianne, dos advogados de Paula Jones (Annaleigh Ashford) a chamarem despretensiosamente como parte do seu processo, fornecendo um escudo, um motivo para ela falar sobre as experiências de Monica, “sem ter escolha” de negar. Assim, depois de pelo menos ter falado a verdade uma vez, Tripp fica com sua consciência – deturpada – limpa para prosseguir a difamação da história.

Já a parcela da perspectiva de Monica vai sendo evidenciada pelo fundo, à medida que acompanhamos as conversas dela com Tripp nos telefonemas. Reforça a cíclica em que a mulher se colocava, humilhando-se em prol de pouca contrapartida do amante, levando à autoflagelação de seu estado mental por um bom tempo, até chegar à beira da desistência, quando geralmente vem a pouca correspondência por ela esperada, chegando em sua mente como um novo sopro de esperança, para o mesmo processo acontecer novamente, com ênfase no sentimento de vergonha consciente por seus erros de ingenuidade persistidos.

A cena em que ela conta sobre como perdeu sua virgindade para Tripp é um dos momentos mais sensíveis da temporada e espelha perfeitamente a ressignificação mais transparente da figura do presidente dada pelo episódio passado, como um manipulador nato de jovens inseguras, mentalmente frágeis por um histórico de relacionamentos abusivos desde a puberdade. O fato de ela guardar o vestido sujo de esperma do Clinton, sem lavá-lo, ou a conformidade no tapa na bunda que recebeu de Vernon Jordan (Blair Underwood) – empresário que iria lhe dar vaga de trabalho tão procurada a mando do presidente – só demonstra o quão seu estado mental a deixa suscetível a manipulações alheias.

The Telephone Hour, sem dúvidas, apresenta um salto de qualidade em relação aos demais episódios de Impeachment, pelas escolhas sábias da montagem na contagem da história, por articular o amarrar dos fatos históricos com um olhar holístico sobre as pessoas envolvidas e ainda as progredir em uma narrativa distribuída de maneira envolvente, como manda a proposta da antologia.

American Crime Story (Impeachment) – 3X04: The Telephone Hour | EUA, 28 de Setembro de 2021
Showrunners: Ryan Murphy, Sarah Burgess
Direção: Laure de Clermont-Tonnerre
Roteiro: Sarah Burgess, Flora Birnbaum (baseado no livro A Vast Conspiracy: The Real Story of the Sex Scandal That Nearly Brought Down a President de Jeffrey Toobin)
Elenco: Sarah Paulson, Beanie Feldstein, Annaleigh Ashford, Margo Martindale, Edie Falco, Clive Owen, Blair Underwood, Rae Dawn Chong, Danny Jacobs, Christopher McDonald, George Salazar, Teddy Sears, Rebecca Lowman, Emma Malouff, Christopher Wallinger, Jenny C. Paul, Jim Rash, Patrick M.J. Finerty
Duração: 53 minutos

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