Crítica | American Gods – 2X01: House on the Rock

  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica dos episódios anteriores.

Antes do último episódio da 1ª temporada, em maio de 2017, American Gods foi renovada para a alegria dos devotos da série. No entanto, como uma praga divina, os problemas começaram a acontecer, o primeiro deles sendo a saída do showrunners Bryan Fuller e Michael Green com já metade dos roteiros escritos. Algum tempo depois, a STARZ anunciou Jesse Alexander como co-showrunner juntamente com o próprio Neil Gaiman, mas as pragas continuaram com o próprio Gaiman afirmando que já estava à frente de Good Omens e com diversas reportagens informando sobre a demissão de Alexander. A maldição continuou com atrasos, roteiros reescritos pelos próprios atores, saída de elenco (mais notavelmente Gillian Anderson e Kristin Chenoweth) e a produtora Fremantle infeliz com o que reputava um caminho mais “convencional” que a nova temporada estava tomando.

Mas a reza dos fãs foi forte e, mesmo com essas intempéries que teriam derrubado séries de outro calibre, a 2ª temporada finalmente estreou um pouco menos de dois anos após o encerramento da 1ª com um episódio que parte imediatamente da declaração de guerra de Odin (Ian McShane) aos Novos Deuses e foca na mítica House on the Rock do título, representativa dos locais de atração inexplicável de pessoas, personificada, na série, pelas famosas e por vezes surreais atrações de beira de estrada que pontilham os Estados Unidos de costa a costa. Nessa Casa na Rocha, o coletivo folclórico batizado nos EUA simplesmente de americana está fortemente presente em um caleidoscópio enlouquecedor que faz o paralelo com o Magic Kingdom da Disney, aliás expressamente citado no roteiro.

É no interior estonteante desse local onde os Velhos Deuses se reúnem que o episódio mostra o seu melhor. O cuidado na direção de arte é de se tirar o chapéu, com a literal viagem lisérgica no carrossel, com direito aos Velhos Deuses em suas formas, digamos, mais comumente conhecidas, com direito a Shadow Moon (Ricky Whittle) flertando com uma clara tomada de lado nesse embate, que a nova temporada lembra mais fortemente o charme e a poesia do material que veio antes. É aqui que vislumbramos aquilo que esperávamos de verdade para a série, aquilo que ansiamos e pedimos aos deuses ao longo desse tempo todo em que as notícias dos problemas da produção se amontoavam.

Mas o interior da Casa na Rocha e a reunião na esfera mitológica é tudo que o episódio tem. Como uma oferenda retirada no último segundo, chegamos a sentir o gosto do hidromel, mas ele se esvai rapidamente pela vala daquilo que aparentemente com razão a produtora acusava Jesse Alexander de fazer: tornar American Gods comum, banal, apenas mais uma série por aí, ou seja, exatamente tudo que ela não era.

Sei que posso parecer apocalíptico aqui, pois estamos ainda no primeiro episódio da nova temporada (de um total de oito), mas House on the Rock pareceu-me um mau presságio, aquele vento frio que bate na nuca e deixa aquela sensação desconfortável, de que vem problema por aí, sabem o que quero dizer? Espero, porém, estar completamente equivocado e quero muito olhar para trás e poder afirmar que esse episódio de abertura foi apenas um soluço na temporada.

Até porque, o elenco continua impecável. McShane continua sendo a alma e o coração da série, com uma atuação exagerada, maior que a vida, mas desde já icônica. Seu visual “original” no plano místico foi de aplaudir, assim como sua continuada postura de que tudo o que vemos acontecer, inclusive o atentado ordenado por Mr. World (Crispin Glover que, se tiver mais espaço, será capaz de rivalizar com McShane!) que ceifa a vida da doce senhorinha deusa Zorya Vechernyaya (Cloris Leachman) e resulta na abdução de Shadow por Mr. Town (Dean Winters, que nem aparece de verdade). É sensível, porém, o arrasto do episódio, com textos expositivos do começo ao fim que repetem como um mantra as bases da história como se o espectador realmente precisasse ser lembrado da premissa da série. Além disso, falta inspiração visual e atmosfera para qualquer sequência fora da Casa na Rocha, retirando aquela qualidade quase que onírica que a série vinha trabalhando tão maravilhosamente bem. E, claro, faltou aquela transgressão sacana que é da essência do que Fuller e Green fizeram com a obra seminal de Gaiman.

House on the Rock é um começo fraco para a 2ª temporada de American Gods e que pode – mas rezo ao panteão de deuses nórdicos que não! – pressagiar a queda geral de qualidade da série. Talvez seja a hora de fazermos oferendas à Deusa da Televisão para iluminar o caminho da equipe criativa e, com sorte, fazer a mágica voltar.

American Gods – 2X01: House on the Rock (EUA, 10 de março de 2019)
Showrunner: Jesse Alexander
Direção: Christopher J. Byrne
Roteiro: Jesse Alexander, Neil Gaiman
Elenco: Ricky Whittle, Ian McShane, Emily Browning, Crispin Glover, Orlando Jones, Yetide Badaki, Bruce Langley, Mousa Kraish, Omid Abtahi, Demore Barnes, Pablo Schreiber, Cloris Leachman, Peter Stormare, Sakina Jaffrey, Dean Winters
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.