Crítica | American Gods – 2X02: The Beguiling Man

  • Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica dos episódios anteriores.

Apesar de já ter sido renovada para a terceira temporada com um novo showrunner, American Gods não conseguiu, com The Beguiling Man, voltar à forma completamente. Falta algo não só na estética muito empobrecida e pouco original desse retorno, como também aquele senso de maravilhamento, de estranhamento, de bizarrice que a primeira temporada tinha para dar e vender. Começamos com algo único e, agora, não temos mais do que uma série que camba perigosamente para o mundano.

O episódio aproveita o sequestro de Shadow Moon e sua subsequente tortura por Mr. Town em um vagão de trem para começar a desvendar um pouco do passado do protagonista. Preso pelos braços à estranha máquina e com eletrodos na cabeça, Shadow nos deixa ver sua chegada nos EUA, vindo da França, e a perda de sua inocência. No Novo Mundo, ele, vivido por Gabriel Darku, é apenas mais um garoto negro que, pouco importando seu nível social ou sua cultura, elementos bem evidentes por toda a construção dos flashbacks, sofrerá o preconceito que a cor de sua pele atrai, além de ter que lidar com a dor da perda de sua críptica mãe (Olunike Adeliyi) que aparentemente vê nele a mesma luz sua futura esposa Laura perseguiria depois de morta.

O roteiro de Tyler Dinucci e Andres Fischer-Centeno não é particularmente original ou sutil ao lidar com a história de preconceito e morte que recrudesce o jovem e acabaria “transformando-o” no Shadow grandalhão, calado e fracassado que conhecemos. Já vimos esse desenvolvimento antes em um sem-número de filmes e séries e de maneiras muito mais eficientes. Aqui, o texto é padrão, bem by the book, jamais tentando ser muito mais do que um pincel que pinta com um pouco mais de cores esse passado que, até onde me consta, não precisávamos saber, resultando no que poderia muito bem ser classificado como um semi-filler. Claro que é possível que voltemos a esse passado e que ele venha a encaixar-se de forma mais perfeita com o presente, mas, para efeito da progressão narrativa, o começo da vida dura de Shadow não tem nem de longe o mesmo efeito dos magníficos prólogos que a primeira temporada trouxe sobre os mais diversos deuses e que estão fazendo falta aqui.

Abordando inicialmente o luto dos deuses pela morte de Zorya Vechernyaya e, em intervalos regulares, Mr. World conversando com Bilquis e o Garoto Técnico procurando a Nova Mídia, o episódio não oferece muito nesse território, deixando o foco em Shadow, mas também na improvável e sempre hilária dupla formada pela morta-viva Laura Moon e pelo leprechau Mad Sweeney. É nesses dois, aliás, que o pouco de vitalidade do episódio repousa, ainda que também aqui não seja oferecido algo que vá além das usuais farpas entre eles, normalmente em relação à moeda da sorte da figura mitológica irlandesa que mantém Laura “viva”, e um pouco de uma aproximação maior entre eles, além do vislumbre de uma possível cura para a condição da zumbi em Nova Orleans, o que é mantido ainda encoberto em mistério.

E o grande clímax, claro, é o resgate de Shadow no trem com o uso de extrema violência e gore no melhor estilo trash. Sem dúvida é um momento divertido e bem coreografado, com um bom trabalho de direção em espaço confinado por Frederick E.O. Toye, que, porém, poderia ter ocupado mais tempo do episódio, preenchendo-o com algum atrativo significativo. Mas tudo começa e acaba muito rapidamente, sem que o espectador possa saborear um pouco mais de momentos B de qualidade para compensar o relativo marasmo – ou desimportância – do que veio antes.

The Beguiling Man não ajuda muito a segunda temporada, mantendo-a naquela perigosa linha da mediocridade. Faltam ousadia e transgressão; faltam apuro estético e um texto cuidadoso. O futuro dos Velhos Deuses, mesmo com uma nova temporada aprovada, está em perigo. Mas ainda é tempo de salvá-los.

American Gods – 2X02: The Beguiling Man (EUA, 17 de março de 2019)
Showrunner: Jesse Alexander
Direção: Frederick E.O. Toye
Roteiro: Tyler Dinucci, Andres Fischer-Centeno
Elenco: Ricky Whittle, Ian McShane, Emily Browning, Crispin Glover, Orlando Jones, Yetide Badaki, Bruce Langley, Mousa Kraish, Omid Abtahi, Demore Barnes, Pablo Schreiber, Cloris Leachman, Peter Stormare, Sakina Jaffrey, Dean Winters, Gabriel Darku, Olunike Adeliyi
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.