Crítica | American Gods – 2X03: Muninn

  • Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica dos episódios anteriores.

Como são as coisas não é mesmo? Ironicamente, a transformação da deusa Mídia, vivida por Gillian Anderson, em Nova Mídia, encarnada por Kahyun Kim parece refletir exatamente o que a segunda temporada de American Gods é em relação à primeira. Enquanto Mídia era pura sofisticação, glamour e apuro visual, Nova Mídia parece uma paródia mal ajambrada e em 140 caracteres de tudo o que veio antes; a versão “consumo rápido” de uma personagem que tinha tudo para dominar a série com sua presença arrebatadora.

Gostaria que esse fosse um comentário metalinguístico no episódio, demonstrado a auto-consciência da produção da temporada sobre sua vertiginosa queda de qualidade, mas não é o que parece. Seria querer demais esperar, a essa altura do campeonato, com três de oito episódios já no ar sem que a série esboce um retorno à forma, que o roteiro de Heather Bellson fosse sagaz o suficiente para lidar com esse aspecto. Claro que permanece o comentário da fugacidade da chamada Nova Mídia em comparação com a mais tradicional “antiga” Mídia, mas mesmo isso é redundante ao extremo em razão do pareamento da nova personagem logo com o  Garoto Técnico, sem que verdadeiramente haja espaço para os dois.

Muitos até poderão achar que a natureza transgressora da série voltou com a sessão de sexo digital entre Nova Mídia e Argus (Christian Lloyd), como uma versão consensual do estupro arbóreo em Evil Dead, mas nem isso o momento verdadeiramente é. Ou melhor, é possível até que a roteirista e a produção achem que é, mas a sequência é mal executada e picotada demais para ter algum impacto maior que um efêmero levantar de sobrancelhas ou uma mera curiosidade que logo é esquecida e perdida em meio à estrutura geral do episódio, batizado com o nome de um dos fieis corvos de Odin.

De resto, o que temos é um episódio tradicional de “separação de equipes”. Jinn e Salim vão juntos tentar recuperar Gungnir a mítica lança de Mr. Wednesday em uma sub-trama que mais parece sopa de pedra, rala, insossa e completamente insatisfatória. O próprio Wednesday, abandonando Shadow Moon à sua própria sorte, leva Laura – ou melhor, os pedaços dela – para que o Sr. Íbis, em Cairo, a conserte, somente para, depois, os dois juntos saírem na missão que culmina com a morte de Argus em uma construção narrativa que tenta ser inteligente, contando até mesmo com a reconstrução da Biblioteca de Alexandria, mas que mais parece algo aleatório e tirado da cartola da roteirista, sem que fosse dado peso a cada momento. Repetirei algo que disse nas duas críticas anteriores: não há mais qualquer cuidado estético na série que nos faça lembrar da primeira temporada. Toda a tentativa de inserir mitologia, aí incluído o  zootropo do Sr. Íbis, chega a ser risível em termos de simplicidade e obviedade, com CGI feito às pressas e nas coxas, sem criatividade alguma.

Encerrada a missão de assassinato de Argus e a reativação, digamos assim, de Laura, o que trará economia para o departamento de maquiagem, sobram só mesmo os divertidos momentos com Mad Sweeney tentando ir para Nova Orleans e deparando-se com azares atrás de azares, tudo porque sua moeda da sorte não está mais nem perto dele. Se a atuação de Pablo Schreiber é sempre divertida, seus momentos são poucos e esparsos demais para trazer relevância ao episódio.

E, com isso, ficamos mesmo só com Shadow, sozinho, encontrando-se com a jovem Sam Black Crow, vivida por Devery Jacobs. Esse pareamento inédito e, no romance que deu base à série, muito importante para o desenvolvimento da história, dá muito certo, com química imediata entre os atores e alguns bons momentos de diálogo. Mesmo assim, a estrutura quebradiça de road movie (afinal, são vários mini-road movies em apenas 50 minutos) sem um quê a mais a não ser diálogos expositivos, sem o estabelecimento de fluidez narrativa, não consegue tirar Muninn da mediocridade, padrão em que a temporada não saiu desde seu começo. É impossível não lembrar dos problemas que a produção teve ao longo dos dois anos de intervalo, já que eles se fazem presentes literalmente a cada minuto em que o episódio se arrasta sem rumo para um final anti-climático em que Shadow volta a reunir-se com Odin como se nada tivesse acontecido.

Minha esperança de que a temporada voltasse a ter um semblante sequer da anterior cada vez mais se esvai. American Gods tornou-se trivial e boba como a Nova Mídia, diluindo aquilo que a tornava diferente e deliciosamente provocadora. Uma pena.

American Gods – 2X03: Muninn (EUA, 24 de março de 2019)
Showrunner: Jesse Alexander
Direção: Deborah Chow
Roteiro: Heather Bellson
Elenco: Ricky Whittle, Ian McShane, Emily Browning, Crispin Glover, Orlando Jones, Yetide Badaki, Bruce Langley, Mousa Kraish, Omid Abtahi, Demore Barnes, Pablo Schreiber, Cloris Leachman, Peter Stormare, Sakina Jaffrey, Dean Winters, Gabriel Darku, Olunike Adeliyi, Kahyun Kim, Christian Lloyd
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.