Crítica | American Gods – 2X04: The Greatest Story Ever Told

  • Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica dos episódios anteriores.

Cheguei na metade da 2ª temporada de American Gods completamente sem ânimo, sem nenhuma fé no material até aqui apresentado. Com três episódios no máximo medíocres, minha esperança de uma melhora substancial já havia ido para o ralo. The Greatest Story Ever Told, portanto, chegou a ser cruel, já que, por algumas vezes, especialmente em seu preâmbulo, esboçou reação e ameaçou apresentar algo digno. E, ainda que eu o considere o melhor da temporada até agora, ele ainda fica longe da quase integralidade dos episódios da fantástica 1ª temporada.

Começando pelos aspectos positivos, a história do jovem em três momentos temporais distintos, 1977, 1987 e algum tempo incerto depois, é o que me fez levantar a sobrancelha em atenção ao que estava acontecendo, logo fazendo a nuvem tempestuosa do pessimismo que pairava sobre minha cabeça diminuir para uma garoa. A evolução do jogador de pong por amor e pianista por obrigação, contrastando o tradicional e o moderno, apesar de ser carregada de didatismo, é estruturalmente muito bem trabalhada, com uma simplicidade ímpar, mas que muito bem identifica o mundo em que hoje vivemos. Afinal, se pararmos para pensar de verdade, o tradicional é visto de maneira tão negativa por todos os digitalmente antenados (ou seriam viciados?) que qualquer coisa antiga é vista como velha. De valores a objetos materiais, sem distinção. O vinil, o piano mecânico, a música clássica, tão valorizados pelo pai, não passam de detalhes na vida do filho já preparado para lidar com zeros e uns. O Pong na TV torna-se o Game Boy em suas mãos e, depois, a fusão do antigo e do novo, com o desenvolvimento de um software compositor, para ao mesmo tempo orgulho e revolta (ambos sentimentos extremamente discretos que o intérprete do pai, Chil Kong, transmite maravilhosamente bem), dá origem ou conjura um Novo Deus, o Garoto Técnico.

Se, na temporada anterior, os preâmbulos eram utilizados primordialmente para mostrarem os Antigos Deuses e eles estavam fazendo falta aqui, a volta deles para lidar com os Novos Deuses é igualmente bem-vinda, ainda que sua execução seja naturalmente mais, digamos, simplificada, sem a exigência de grandes cenários ou computação gráfica (ah, a ironia!). Mas faz parte do jogo e a abordagem do garoto sem nome que, nos créditos, torna-se o “CEO”, já adulto (Andrew Koji), ao final, é um ótimo momento do roteiro de Peter Calloway e Aditi Brennan Kapil. Não creio, porém, que a eliminação do Garoto Técnico por Mr. World faça lá muito sentido além do prático em vista de sua redundância com a ainda mais irritante Nova Mídia, mas não é algo fora de compasso pelo menos.

Outro ponto positivo do roteiro é o espaço dado aos deuses africanos, Bast, Bilquis, Toth (Sr. Íbis) e Anansi (Sr. Nancy). Ainda que Bast (Sana Asad – é a mesma deusa, aliás, que protege Wakanda) seja relegada a uma cena de sexo com Shadow Moon em que ela aproveita para curar suas feridas como Odin mencionara no encerramento de Muninn, para depois voltar à sua forma felina, aquela estética da temporada anterior volta a ser vislumbrada. Claro que a calorosa discussão entre os outros três é que chama a atenção, notadamente o discurso do Sr. Nancy sobre o sofrimento dos negros nos EUA, com diversas menções diretas a acontecimentos atualíssimos. Novamente, é um texto carregado de didatismo como no preâmbulo, mas Orlando Jones está simplesmente bom demais nesse papel para não dominar completamente a cena que, por também se passar na funerária do Sr. Íbis (aliás, por onde anda Mr. Jacquel, ou Anúbis?), toda a ambientação é primorosa.

O problema é que essa sequência dos deuses africanos parece desconexa em relação ao todo. Foi quase que um momento pinçado de alguma outra série e inserido aqui, tamanha sua aleatoriedade. Sim, grande parte da conversa foi sobre que lado ficar na vindoura guerra entre deuses, mas a narrativa, se começou dessa forma, logo perdeu o foco e mergulhou em questões que, por mais relevantes que sejam, me pareceram muito mais uma maneira de martelar um posicionamento sócio-político do que algo que tenha vindo de maneira fluida. Seja como for, porém, o momento, juntamente com o preâmbulo, valeu o episódio, retirando-o da zona da mediocridade.

Uma pena que essa elevação não tenha sido total. A continuidade da viagem de Odin com Shadow foi mais do mesmo, em um artifício narrativo que já cansou. A ponta de William Sanderson, sempre eficiente, não justifica toda a ginástica para introduzir Money (Dinheiro) ou, como os créditos indicam, O Contador (The Bookkeeper), potencialmente o maior poderoso de todos os deuses, o único que não precisa levar a rotulação de “novo” ou “antigo”, já que ele basicamente sempre existiu e, mais importante ainda, sempre com muita relevância e adoração. Tudo é desculpa para mais um embate anticlimático entre Mr. World e Odin, com os atores bem em seus respectivos papeis, mas sem realmente dizerem a que veio para além das palavras ditas com tons fortes de ameaça (World) ou deboche (Odin) em uma encenação humana do ditado “cão que ladra não morde”. E, em meio a isso tudo, Shadow continua completamente perdido, sem uma função bem definida na série que não seja a de emular o espectador, com suas dúvidas e necessidade de esclarecimento.

The Greatest Story Ever Told foi quase um ótimo episódio. Se a resolução do prelúdio com o CEO no presente tivesse feito jus ao começo e se as sequências na funerária tivessem sido mais bem encaixadas no conjunto, acho que poderia dizer com algum grau de segurança que a série voltou aos eixos. Mas não, infelizmente. Ainda há muito a ser feito e desconfio que não vai ter reza forte que faça a temporada voltar a resvalar na qualidade da anterior.

American Gods – 2X04: The Greatest Story Ever Told (EUA, 31 de março de 2019)
Showrunner: Jesse Alexander
Direção: Stacie Passon
Roteiro: Peter Calloway, Aditi Brennan Kapil
Elenco: Ricky Whittle, Ian McShane, Emily Browning, Crispin Glover, Orlando Jones, Yetide Badaki, Bruce Langley, Mousa Kraish, Omid Abtahi, Demore Barnes, Pablo Schreiber, Cloris Leachman, Peter Stormare, Sakina Jaffrey, Dean Winters, Gabriel Darku, Olunike Adeliyi, Kahyun Kim, Christian Lloyd, Sana Asad, William Sanderson, Andrew Koji, Chil Kong
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.