Crítica | American Gods – 2X05: The Ways of the Dead

  • Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica dos episódios anteriores.

Eu seu quinto episódio, a problemática segunda temporada de American Gods abraça o pouco da qualidade demonstrada em The Greatest Story Ever Told e constrói uma narrativa que resgata com mais força ainda a magnífica ambientação da história presente e também pregressa. Infelizmente, porém, mais uma vez o descaminho da temporada torna-se evidente, com perda de foco e inserção de subtramas que, ainda que sejam em si extremamente relevantes, não funcionam – ou, até aqui ao menos, não parecem funcionar – para impulsionar o todo.

Em primeiro lugar, é importante lembrarmos que, por melhor que seja a obra Deuses Americanos, de Neil Gaiman, ela contém relativamente pouco material para uma série continuada, de várias temporadas. Uma adaptação mais próxima do original seria perfeitamente possível, com as sempre necessárias alterações, em uma estrutura de minissérie com começo, meio e fim bem estabelecidos, mas a história de Shadow Moon sendo pego em meio a uma guerra entre os Antigos e Novos precisava de expansão para realmente justificar sua serialização.

Se isso já era evidente na primeira temporada, essa ampliação do escopo da obra de Gaiman torna-se ainda mais clara na segunda, que traz para os holofotes personagens que permanecem substancialmente no pano de fundo do livro, como os deuses africanos, além de expandir papéis como os da morta-viva Laura Moon e do divertido leprechaum Mad Sweeney. A questão que coloco como problemática, portanto, não são as alterações promovidas – elas são bem-vindas, na verdade! -, mas sim quando elas não dão sinais de conversar harmonicamente com a trama principal.

O discurso acalorado e extremamente relevante sob o ponto de vista sócio-político e humano de Anansi no capítulo anterior evoluiu e, de certa forma, tornou didático até demais o sério problema da discriminação racial nos EUA (não que o problema só exista lá, claro). Um belo texto, sem dúvida, decorrente não só do vislumbre do passado de Shadow Moon que vimos em The Beguiling Man, mas também como parte relevante da comunidade que ele, Bilquis e Toth representam na série. Mas, no lugar de ser uma subtrama concêntrica, o discurso foi, sem dúvida alguma, na melhor das hipóteses, tangencial à narrativa principal.

E, no lugar de tratar esse aspecto de maneira um pouco mais estanque, o roteiro de Rodney Barnes, em The Ways of the Dead, usa justamente esse aspecto para empregar grande parte do tempo do episódio para desenvolvê-lo, trazendo, por assim dizer, imagens gráficas e pesadas para ilustrar o discurso de Anansi, como que para reiterar o que ele dissera. Aqui, portanto, entra o aspecto de reconstrução histórica que a primeira temporada mostrou-se pródiga. Na verdade, reconstrução mitológica era a especialidade da “era” Bryan Fuller. O que vemos, aqui, é a primeira reconstrução histórica da série, que nos conta, por intermédio de pesadelos e alucinações de Shadow, o terrível linchamento e assassinato de William “Froggy” James, acusado e julgado, sem quaisquer resquícios de provas, pelo “povo” de Cairo, em Illinois, em 1909, pelo assassinato de uma mulher branca.

A primeira pergunta que se deve fazer é: era mesmo necessária essa reiteração do que Anansi deixara mais do que claro em suas palavras? Depois vem a questão da razão para essa subtrama continuar dessa maneira tão destacada. Seria a educação de Shadow sobre seus antepassados e sobre a América em que vive considerando que ele passou toda sua infância e boa parte da juventude na Europa a razão para isso? Se for, parece-me que o roteiro subestima a inteligência do personagem, já que nos próprios flashbacks para sua juventude, já ficara evidente que seu aprendizado na carne já acontecera. Ou seria uma sinal das provações de que ele ainda terá que passar? Novamente, se for isso, trata-se, apenas, de reiteração do que já sabemos.

Além disso, reparem como a própria reconstrução histórica de eventos de forma alguma relacionados com alguma mitologia parece divorciada de toda a construção da série até agora. É como se estivéssemos assistindo a um spin-off de American GodsAfrican Gods? – dentro da própria série, o que cria esse tangenciamento que mencionei mais acima. E nem entrarei aqui na escolha de se contar apenas uma parte da história de Froggy, já que a mesma população raivosa, depois de mata-lo de maneira horrível, volta à prisão, retira de lá Henry Salzner, homem branco acusado de matar sua esposa a machadadas, e o faz passar pelo exato mesmo martírio, o que relativiza a narrativa de preconceito racial até certo ponto.

Se olharmos de maneira estanque, porém, esse lado de The Ways of the Dead funciona muito bem narrativamente. E o mesmo pode ser dito da dupla Mad Sweeney e Laura Moon sendo “enganada” pelos feiticeiros vudu Baron Samedi (Mustafa Shakir) e Mama Brigitte (Hani Furstenberg) em um ritual de ressuscitação que, na verdade, é um belo e metafórico swing de casais que cria uma conexão interessante entre a desmorta e o leprechaum e que, essa sim, parece ser uma subtrama indelevelmente conectada ao arco mairo até mesmo em sua pegada mais explícita e perturbadora.

E, claro, o mesmo vale para o encontro de Odin com Alviss, o “rei” dos anões (o nome Alviss vem mesmo da mitologia nórdica, mas o trocadilho, aqui, é inescapável, não é mesmo?), para que sua lança, Gungnir, seja reforjada. É o lado mais prático e direto do episódio, mas não menos interessante dada a participação de Lee Arenberg como Alviss e a relação cada vez mais complexa entre Salim e o “gênio da lâmpada”, notadamente com a discussão teológica que se segue e que pisa em ovos para não atrair a raiva de radicais islâmicos da vida real.

Em outras palavras, The Ways of the Dead é um baita episódio se visto separadamente, mas que, quando encaixado no contexto geral, perde sua força. Há muito o que aproveitar, inclusive em termos de spin-off, mas espero que American Gods se acerte de vez para a estirada final da temporada.

American Gods – 2X05: The Ways of the Dead (EUA, 07 de abril de 2019)
Showrunner: Jesse Alexander
Direção: Salli Richardson-Whitfield
Roteiro: Rodney Barnes
Elenco: Ricky Whittle, Ian McShane, Emily Browning, Crispin Glover, Orlando Jones, Yetide Badaki, Bruce Langley, Mousa Kraish, Omid Abtahi, Demore Barnes, Pablo Schreiber, Cloris Leachman, Peter Stormare, Sakina Jaffrey, Dean Winters, Gabriel Darku, Olunike Adeliyi, Kahyun Kim, Christian Lloyd, Sana Asad, William Sanderson, Andrew Koji, Chil Kong
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.