Crítica | American Gods – 2X06: Donar the Great

  • Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica dos episódios anteriores.

Tardiamente, na reta final da segunda temporada, American Gods volta à forma demonstrada na sensacional temporada inaugural. Mas, como bem assevera o ditado, antes tarde do que nunca, não é mesmo? Trata-se do primeiro episódio da temporada que consegue eficientemente mesclar a mitologia dos deuses antigos (e dos novos também, ainda que discretamente) com uma história de relevância sócio-política que ressona e desenvolve a narrativa do presente, sem parecer algo desconectado ou artificial, com o bônus de trabalhar muito bem o lado visual, situando flashbacks nos anos 30 nos EUA, com Odin – ou Al Grimnir – em seu cabaré, fazendo com que, de certa forma, Ian McShane revisite seu papel de Al Swearengen da excepcional Deadwood.

Maravilhosamente exagerado e caricatural, o Odin apresentador de shows de variedade de McShane é uma delícia de se ver, da mesma maneira que, no presente, é bem-vinda a volta do Odin golpista que vimos lá atrás em Head Full of Snow. Intercalando os dois momentos temporais de maneira brusca, mas lógica, a direção de Rachel Talalay demonstra apuro técnico nas transições e comanda uma festa que explora como nunca o Pai de Todos, retirando-lhe aquele verniz frio, canalha e manipulador e humanizando-o ao conectar a história de sua lança mítica Gungnir, que ele quer “reativar” por intermédio do trabalho de anões em um shopping center decadente com seu passado com seu filho mais famoso, Thor, ou, aqui, Donar, variação em alemão arcaico do nome (como no caso de Odin – ou Woden – para quarta-feira, ambos originando o dia conhecido como quinta-feira, o primeiro em inglês, Thursday, e o segundo em alemão, Donnerstag).

O Deus do Trovão, com direito ao seu icônico martelo que ninguém consegue empunhar a não ser ele, é vivido de maneira conscientemente canastrona por Derek Theler, primeiro debaixo de espessos cabelo e barba Viking e, depois, em sua versão imberbe, ao lado de Laura Bell Bundy como Columbia, a deusa que representa os Estados Unidos ou pelo menos representava até que os “malditos franceses” presentearam os americanos com a Estátua da Liberdade, a famosa Lady Liberty. Amantes, os dois são as principais atrações do cabaré de Odin, mas Columbia, seguindo o Destino Manifesto (essa conexão é absolutamente brilhante, diga-se de passagem), sonha viajar com Donar para a Califórnia, longe da manipulação de seu “sogro”. No entanto, a arregimentação de Donar por americanos nazistas, com direito a uniforme e suástica, como um campeão de halterofilismo e o desejo do Garoto Técnico, cuja símbolo tecnológico é o telefone discado e com fio em outra sacada genial do roteiro, em trazer Columbia para o seu lado, como parte do esforço da vindoura guerra, acabam destruindo o sonho.

Essas tensões e dúvidas são muito bem trabalhadas ao longo do texto de Adria Lang, que consegue, de quebra, inserir subtextos lidando com os supremacistas brancos, a guerra, o preconceito e, claro, a relação sempre conturbada entre pai e filho. É justamente nesse aspecto que Donar the Great se diferencia do que veio antes na temporada. Aqui, o roteiro é cuidadoso, delicado, lida com questões difíceis sem escancará-las, sem didatismo. Não temos discursos como o de Anansi em The Greatest Story Ever Told ou narrativas desconectadas da trama principal como em The Ways of the Dead. Por mais socialmente relevantes que tenham sido os dois episódios anteriores, esses aspectos tiveram um fim em si mesmo e não conversaram com a narrativa macro sem que fosse necessário um esforço bastante razoável de abstração narrativa e um ou dois encaixes de peças quadradas em espaços redondos. O roteiro de Donar the Great serve à história sem deixar de abordar elementos que a transcendem, exatamente como na primeira temporada da série. De quebra, ainda temos esse olhar mas íntimo para Odin, trazendo um momento crucial em sua vida e, de certa forma, colocando-o no caminho em que o encontramos no começo da série, um tanto quanto depauperado e entristecido.

E enquanto aprendemos sobre esse seu lado mais, digamos, mundano, o roteiro ainda nos brinda com um excelente golpe no presente que Mr. Wednesday dá em um lojista, vestindo-se de bispo apaixonado por Lou Reed que deseja mais do que tudo comprar uma jaqueta de couro usada (e assinada) pelo saudoso músico americano. Trata-se do preço exigido pelos anões para que um deles seja “energizado” e possa refazer as runas em Gungnir, em mais uma ótima forma de o texto de Lang lidar com o novo e o antigo, o clássico e o imortal, além de ser uma baita deferência ao guitarrista, cantor e compositor, em muitos aspectos equiparando-o aos deuses americanos. Ver um deus nórdico fazendo cosplay de bispo católico fazendo cosplay de Lou Reed foi um daqueles momentos impagáveis que só a televisão moderna pode nos propiciar!

Mas há problemas no episódio, ainda que eles não sejam exclusivos de Donar the Great, mas sim da temporada como um todo. O primeiro deles é Shadow Moon. Se no começo ele era discretamente nossa representação nesse mundo insano, agora ele nem isso consegue ser, pois está sempre a um passo atrás de tudo, sem demonstrar qualquer reação ou fazer qualquer coisa que não seja obedecer as ordens de Odin. Até vemos um lampejo de independência quando ele decide extrair uma resposta mais direta de seu chefe sobre Donar, mas mesmo isso é fazer o personagem retornar ao seu papel básico de avatar do espectador para fazer as perguntas que nós não podemos fazer. E, mesmo considerando a volta do Garoto Técnico em seus primórdios, a abordagem dos Novos Deuses continua inábil, com a Nova Mídia sendo apenas extremamente irritante o tempo todo e Mr. World uma paródia dele mesmo, com Crispin Glover não conseguindo fazer outra coisa que não pronunciar palavras – quaisquer palavras – da maneira mais ameaçadora que consegue. Isso até era divertido no começo, mas, agora, tornou-se cansativo.

Esbanjando qualidade, Donar the Great é a tão esperada volta de American Gods lá da vala do marasmo criativo. Se os dois episódios finais mantiverem esse nível, creio que será até mesmo possível concluir que a jornada não terá sido em vão.

American Gods – 2X06: Donar the Great (EUA, 14 de abril de 2019)
Showrunner: Jesse Alexander
Direção: Rachel Talalay
Roteiro: Adria Lang
Elenco: Ricky Whittle, Ian McShane, Emily Browning, Crispin Glover, Orlando Jones, Yetide Badaki, Bruce Langley, Mousa Kraish, Omid Abtahi, Demore Barnes, Pablo Schreiber, Cloris Leachman, Peter Stormare, Sakina Jaffrey, Dean Winters, Gabriel Darku, Olunike Adeliyi, Kahyun Kim, Christian Lloyd, Sana Asad, William Sanderson, Andrew Koji, Chil Kong, Derek Theler, Adria Lang
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.