Crítica | American Gods – 2X07: Treasure of the Sun

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  • Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica dos episódios anteriores.

De maneira circular, o penúltimo episódio da segunda temporada de American Gods é dedicado a Mad Sweeney da mesma maneira que o penúltimo episódio da temporada inaugural também foi. Mas, enquanto o leprechaun vivido maravilhosamente bem por Pablo Schreiber foi de certa forma o coadjuvante para uma narrativa focada em uma antepassada de Laura Moon em A Prayer for Mad Sweeney, o que contextualiza a relação entre eles no presente, em Treasure of the Sun o personagem mítico é o centro das atenções, com sua trágica história de insanidade e abandono sendo abordada em detalhes.

Curiosamente, porém, assim como o episódio 1X07 pareceu deslocado na primeira temporada, o 2X07 também parece fora do lugar agora, ainda que esse efeito seja muito  mitigado pelos próprios problemas de roteiro dos quatro episódios iniciais do segundo ano, que quebraram o elã da guerra anunciada por Odin. Com isso, Treasure of the Sun, mesmo parecendo em grande parte um filler, ele na verdade não o é se mentalmente o levarmos, talvez em duas partes, para momentos anteriores da temporada. Além disso, claro, o há o belo clímax mortal que, mesmo minuciosamente telegrafado pelo próprio Mad Sweeney ao longo de cada minuto de duração, é extremamente satisfatório como um fechamento de arco para o personagem.

O foco do capítulo, portanto, é no como e no porquê do nome do leprechaun e de seu estado enlouquecido, amnésico e destrutivo moderno, apenas um semblante pálido daquilo que parecia que ele tinha sido há milênios. E essa história grandiosa, contada em flashbacks não lineares que nos revelam sobre sua esposa e filha, sua luta contra a Igreja Católica na Irlanda e, antes ainda, contra a invasão de outros deuses, inclusive um parente seu que pode ou não ter sido o próprio Grimnir, não desaponta por um segundo sequer, com Schreiber encarnando diferentes “versões” de seu personagem – o bêbado, o mendigo semi-desmemoriado, o homem apaixonado, o rei, o deus e o guerreiro – em um trabalho de produção do mais alto gabarito muito bem dirigido por Paco Cabezas a partir do roteiro de Heather Bellson, ambos debutando na série.

E, como se não bastasse cada momento com Sweeney ter sido precioso como suas moedas, Bellson é ainda capaz de inserir uma sequência incrivelmente profana e ousada, com Bilquis iniciando o episódio com sua “missa católica” que ela perverte sexualmente de maneira a gerar adoração por ela, a devoradora de homens (e de mulheres), em uma manipulação fascinante do texto bíblico e que também aproveita para comentar sobre sua capacidade de adaptação (e tambem das religiões em geral, inclusive a católica, com diversas festas ditas pagãs sendo absorvidas à mitologia) algo que falta a Sweeney. As duas mais largamente difundidas religiões do mundo moderno são os alvos constantes e naturais em American Gods, com a muçulmana sendo brindada com personagens fixos gays cuja mera existência é um claro “tapa na cara” dos radicais. A religião católica já havia sido focada outras vezes, em especial com os diversos “tipos” de Jesus na festa da Páscoa em Come to Jesus, mas, aqui, American Gods chegou a outro nível de crítica, o que pode até mesmo ofender os mais sensíveis.

No entanto, além do leve problema de “momento de inserção” que o episódio inegavelmente tem, há outro que nem de longe é exclusivo dele: Shadow Moon. Se ele antes tinha a função de ser nosso avatar nesse mundo mitológico, agora sua função é a de “aparecer em momentos-chave” para fazer coisas que ele não tem ideia para que servem. O personagem passeia pela temporada em constante “bateção de cabeça” sem um lugar próprio ou um objetivo minimamente claro. Agora que não precisamos mais dele para compreender a mecânica de nada, ele tornou-se, mal comparando, o que os humanos são na franquia Transformers: uma inconveniência que só existe para ocupar preciosos espaços narrativos.

Mesmo que o preço que tenhamos que pagar para ter um episódio do nível de Treasure of the Sun seja a eliminação de um querido personagem, quando ela é feita de maneira orgânica como aqui, o preço é justo. A segunda temporada de American Gods vem se redimindo a passos largos de seu começo desapontador e, com mais um episódio pela frente, que pelo título promete finalmente dar um propósito para Shadow Moon, pode ser que ela realmente vire o jogo nesse tabuleiro celestial.

American Gods – 2X07: Treasure of the Sun (EUA, 21 de abril de 2019)
Showrunner: Jesse Alexander
Direção: Paco Cabezas
Roteiro: Heather Bellson
Elenco: Ricky Whittle, Ian McShane, Emily Browning, Crispin Glover, Orlando Jones, Yetide Badaki, Bruce Langley, Mousa Kraish, Omid Abtahi, Demore Barnes, Pablo Schreiber, Cloris Leachman, Peter Stormare, Sakina Jaffrey, Dean Winters, Gabriel Darku, Olunike Adeliyi, Kahyun Kim, Christian Lloyd, Sana Asad, William Sanderson, Andrew Koji, Chil Kong, Derek Theler, Adria Lang
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.