Crítica | American Gods – 2X08: Moon Shadow

  • Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica dos episódios anteriores.

A conturbada 2ª temporada de American Gods chega ao fim com um episódio focado em Shadow Moon, depois que ele mata Mad Sweeney no chocante final do excelente Treasure of the Sun. Paralelamente, Mr. World finalmente coloca seu plano em movimento, depois de nada acontecer no fronte dos Novos Deuses há bastante tempo. Foi um episódio revelador, mas fundamentalmente burocrático, apesar de alguns belos momentos.

O primeiro e melhor deles é o fantástico prólogo passado em uma fazenda no interior dos EUA exatamente em 30 de outubro de 1938, quando foi ao ar a famosíssima dramatização radiofônica de Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, capitaneada por Orson Welles. A transmissão ficou no imaginário popular como sendo a catalisadora de um pânico coletivo nos EUA, por muitos ouvintes que não pegaram o começo do programa terem acreditado que o que estavam escutando era uma notícia e não ficção. Na verdade, esse tal pânico foi exagero e muito mais lenda do que realidade, mas talvez justamente por isso tenha sido cirúrgico o uso desse momento histórico para abrir o episódio.

Com base nisso, o roteiro de Aditi Brennan Kapil e Jim Danger Gray, então, trabalha a manipulação do medo por Mr. World – que se torna narrador e chega até mesmo a quase quebrar a quarta parede -, que passa a usar a Nova Mídia, manipulando Xie, o diretor da empresa de tecnologia que vimos em The Greatest Story Ever Told, para plantar notícias falsas sobre Shadow, Mr. Wednesday e também o coitado do Salim, acusando-os de terrorismo financeiro e assassinato de policiais, dentre outros exageros. O resultado é o mesmo tipo de frenesi que as pessoas acham que a transmissão de Guerra dos Mundos realmente causou, iniciando uma caçada aos supostos bandidos.

O conceito trabalhado no episódio, portanto, não só é atual, como extremamente interessante. O problema é que tudo é abordado com correria e sofreguidão, sem um minuto sequer para um desenvolvimento mais comedido e estruturado. De certa forma, os dois ótimos episódios anteriores foram em grande parte fillers e eles poderiam ter sido usados para também trabalhar a continuidade do plano de Mr. World para derrotar Odin e seu grupo. Mas não. Os Novos Deuses, muito ao contrário, foram escanteados completamente para que o foco fosse voltado aos Antigos Deuses e, com isso, em apenas 51 minutos, o episódio dirigido por Christopher J. Byrne, responsável por House on the Rock, precisa apresentar o plano, colocá-lo em execução e trazer algum tipo de resolução para ele. Sem dúvida alguma, um tarefa indigesta, especialmente se levarmos em consideração que essa linha narrativa gravita ao redor de Shadow lidando com seus problemas e com a revelação de quem é.

Nesse tocante, aliás, o episódio consegue manter um passo um pouco mais cadenciado, colocando o protagonista em seu costumeiro estado pensativo, tentando entender seu papel nessa equação celestial enquanto seu mentor, Odin, desaparece na surdina da mansão do Srs. Íbis e Jacquel. Laura Moon volta ainda morta com sangue nos olhos em relação ao Pai de Todos e coloca-se em pé de guerra, prometendo matá-lo em uma decisão que me parece retirada da cartola muito rapidamente, sem uma conexão maior com o que estava acontecendo. Não que ela não tenha razão em ter raiva de Odin – afinal, ele mandou Mad Sweeney matá-la -, mas Laura pareceu-me “fora da personagem”, desconectada com sua construção até esse ponto. Cansa também a reação de Shadow para tudo e qualquer coisa, já que ele mal demonstra algum tipo de emoção ao que vê acontecer ao seu redor. Sim, ele parece abalado pelo que fez a Mad Sweeney, mas ele não procura entender mais do que aquilo que cai gratuitamente em seu colo.

Esse é o caso de Bilquis, que o coloca na direção da grande revelação do episódio: sua identidade. Em uma construção cada vez mais surreal e lisérgica em meio à chegada de policiais, vemos Shadow remontar o quebra-cabeças de sua relação com Mr. Wednesday e concluir aquilo que, para os espectadores mais atentos, já estava claro: ele é filho de Odin. Qual filho e o que isso significa exatamente ainda teremos que esperar para ver, mas, o que começa interessantemente, acaba tornando-se confuso quando vemos o menino Shadow brincado supostamente na Noruega como uma forma de manifestação de seus poderes. Se me perguntarem quais são exatamente esses poderes, não terei como responder que não seja como um “não faço ideia”, mas o fato é que o frenesi da perseguição policial logo desaparece, abrindo espaço para o gancho narrativo para a próxima temporada: Shadow, agora como Michael Ainsel, está em um ônibus supostamente a caminho de Lakeside, a cidade de sua nova identidade.

Para quem estiver com um ponto de interrogação na cabeça, mas sem revelar nada, Lakeside é um arco narrativo do romance Deuses Americanos em que Shadow permanece em processo de auto-descobrimento na referida cidadezinha. É um momento da obra de Neil Gaiman particularmente difícil de ser adaptada para o audiovisual, mas, como a série tem apenas se inspirado no material fonte, creio que muitas liberdades serão tomadas, o que não é algo necessariamente ruim.

Seja como for, Moon Shadow até consegue funcionar como o encerramento possível para a temporada, já que ele faz com que a série volte completamente para a história principal. No entanto, apesar de começar muito bem, a narrativa sofre por ter que fazer muito em pouco tempo e por Shadow em si ser cada vez mais claramente um personagem desinteressante. Tomara que Charles “Chic” Eglee, o novo showrunner anunciado para a 3ª temporada, saiba corrigir rumos e reerguer de vez a série.

American Gods – 2X08: Moon Shadow (EUA, 28 de abril de 2019)
Showrunner: Jesse Alexander
Direção: Christopher J. Byrne
Roteiro: Aditi Brennan Kapil, Jim Danger Gray
Elenco: Ricky Whittle, Ian McShane, Emily Browning, Crispin Glover, Orlando Jones, Yetide Badaki, Bruce Langley, Mousa Kraish, Omid Abtahi, Demore Barnes, Pablo Schreiber, Cloris Leachman, Peter Stormare, Sakina Jaffrey, Dean Winters, Gabriel Darku, Olunike Adeliyi, Kahyun Kim, Christian Lloyd, Sana Asad, William Sanderson, Andrew Koji, Chil Kong, Derek Theler, Adria Lang
Duração: 51 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.