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Crítica | American Gods – 3X03: Ashes and Demons

por Ritter Fan
2703 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica dos episódios anteriores.

Entendo perfeitamente que a sucessiva troca de showrunners em American Gods exija que cada temporada seja uma reinvenção, mas há limite para tudo. Do jeito que a temporada está caminhando, parece muito mais quando um político brasileiro assume cadeira nova, em direta oposição ao que veio antes: tudo feito por seu antecessor precisa ser desfeito, apagado e recomeçado do zero. Considerando que já estamos na 3ª temporada da série e mais ou menos em seu primeiro terço, era de se esperar que tivéssemos visto avanço verdadeiro na história e não que a mesma estrutura de “preparação para a guerra” fosse repetida com as únicas novidades ficando com os novos visuais de Shadow e Odin e os cenários.

E isso é uma tristeza. Deuses Americanos, o livro de Neil Gaiman que deu origem à série, é absolutamente fascinante e, ainda que seja necessária a expansão da trama para justificar múltiplas temporadas, o que estamos testemunhando é um carro atolado na lama girando a roda incessantemente e, no processo, sujando tudo ao redor. Mesmo que sempre seja simpático ver Blythe Danner como Deméter contracenando com Ian McShane, é absolutamente cansativo notar que é a mesma velha história de Odin querendo arrumar riquezas ou aliados para sua guerra e isso mesmo considerando que a deusa da colheita e da agricultura da Mitologia Grega ganha seu simpático preâmbulo padrão da série.

Da mesma maneira, toda a historinha de Laura Moon no Purgatório tendo que ver o literal filme de sua vida é tão clichê, mas tão clichê que chega a dar vontade de avançar as cenas. Não tem corredor infinito, sala de cinema com lanterninha dos anos 40 e um velhinho simpático que resolva essa completa falta de originalidade e de capacidade de o roteiro de Anne Kenney de transformar algo batido em sequências minimamente interessantes como, por exemplo, Pete Docter e companhia fizeram maravilhosamente bem em Soul. E o pior é que toda essa preparação para o retorno de Laura à vida (ou ao estado morto-vivo anterior dela, sei lá) não acabou aqui, prometendo continuar essa lenga-lenga modorrenta por pelo menos mais um episódio.

Ah, mas pelo menos Shadow se salva, não é mesmo? Olha… mais ou menos. Tudo bem que Ricky Whittle vem melhorando bastante a qualidade de sua atuação (deve ter treinado incessantemente nos quase dois anos de intervalo entre temporadas…), mas, como eu já imaginava só de, na temporada anterior, Lakeside ter sido mencionada, esse arco dele na cidadezinha gelada do Wisconsin tem sido tão interessante quanto ver gelo derreter. O sumiço de Alison é tratado como mais uma terça-feira, a relação de Shadow com Marguerite tem zero de química e, como cereja nesse bolo, os comentários críticos ao racismo, aqui encapsulados pela conversa de Chad com o protagonista, perderam toda sua força, mais parecendo um tapinha nas costas para não irritar espectadores que jamais se veriam como racistas.

Nem mesmo o mistério sobre Bilquis que leva aos sonhos de Shadow que, por sua vez, o faz materializar-se em Nova York com um estalar de dedos somente para dar de cara com um Garoto Técnico sentindo dor(???) no apartamento da deusa em um cliffhanger maroto serve para criar algum senso de urgência ou mesmo um levantar de sobrancelhas em demonstração de interesse blasé pelo que pode ter ocorrido. É como se Charles H. Eglee tivesse perdido a vontade de realmente empolgar os espectadores, de tirar-nos da letargia que a temporada vem induzindo mesmo nesse seu começo em que ela pode ser naturalmente mais lenta (mas não desinteressante!).

Claro que ainda há salvação para a temporada e claro que Eglee pode estar ainda preparando o terreno para finalmente fazer de sua temporada algo memorável, mas Ashes and Demons é o típico episódio que desanima profundamente e que perigosamente atrai pensamentos do tipo “chega, já dei toda a chance que deveria dar” ou “ok, talvez seja melhor assistir BBB” (mentira, esse último pensamento JAMAIS passaria pela minha cabeça). Talvez não seja Laura que esteja no Purgatório, mas sim a temporada toda…

American Gods – 3X03: Ashes and Demons (EUA, 24 de janeiro de 2021)
Showrunner: Charles H. Eglee
Direção: Thomas Carter
Roteiro: Anne Kenney
Elenco: Ricky Whittle, Ian McShane, Emily Browning, Yetide Badaki, Bruce Langley, Omid Abtahi, Ashley Reyes,  Dominique Jackson, Eric Johnson, Julia Sweeney, Lela Loren, Peter Stormare, Andi Hubick, Cloris Leachman, Erika Kaar, Denis O’Hare, Blythe Danner
Duração: 50 min.

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