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Crítica | American Gods – 3X09: The Lake Effect

por Ritter Fan
4.508 (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica dos episódios anteriores.

Não exijo e nem quero adaptações que ficam amarradas ao material fonte. Mídias diferentes devem respeitar suas exigências próprias e eu costumo me contentar com obras derivadas que mantêm a essência da original, não mais do que isso. American Gods, apesar de ter começado razoavelmente parecida com o livro homônimo de Neil Gaiman, logo desviou-se radicalmente desse caminho a ponto de há muito tempo eu não conseguir fazer conexões relevantes entre uma coisa e outra, mas não creio que, mesmo com todos os problemas de bastidores, sua essência tenha sido destruída.

Claro que com a 3ª temporada em parte se passando em Lakeside, alguma coisa do livro foi salpicada aqui e ali, mas foi só mesmo em The Lake Effect é que Charles H. Eglee parece ter condensado alguns eventos literários chave de Gaiman de forma a conectar a série novamente ao livro de maneira mais proeminente. Falo especificamente de tudo o que acontece na cidadezinha gelada de um lado e da morte de Odin de outro, momentos importantes na narrativa original que ganham suas versões até bem semelhantes ao livro.

Se isso é bom ou ruim, porém, ainda não sei dizer, pois confesso que o capítulo me pareceu quase que “solto” da história lenta e claudicante que vinha sendo construída até agora. Por exemplo, foi muito estranha a elipse que fez a investigação de Shadown em Jacksonville acontecer completamente off camera, com a primeira cena do episódio sendo ele retornando cabisbaixo à Lakeside, o que exigiu diversos minutos de aclimatação, resultando em uma narrativa estranhamente autocontida envolvendo a epifania do protagonista em relação aos desaparecimentos e, claro, seu enfrentamento da endemoniada vizinha fofoqueira (já é a segunda assim em séries este ano, não é mesmo?) com a ajuda de Chad.

O que quero dizer, no final das contas, é que essa parte da história que, como basicamente todas na série, vinha sofrendo da incapacidade dos diversos showrunners em impulsioná-la, de repente parece correr os 100 metros rasos como Usain Bolt. Lakeside, que deveria – ao menos em tese – ter sido um exílio para Shadow, tornou-se um lugar para onde ele voltava depois de cumprir tarefas variadas para ele próprio e/ou para seu divino pai, o que tirou o peso dos desaparecimentos, do “suicídio” do jovem Darren e de todo o momento climático que abordei mais acima que muito claramente precisavam de mais tempo de maturação, sem desvios narrativos que não levaram a lugar algum. E o mesmo vale para o relacionamento de Shadow com Marguerita que acaba sem sequer ter começado de verdade, a não ser que transar na banheira de hidromassagem conte como desenvolvimento suficiente. Em outras palavras, o arco de Lakeside é menos problemático em razão do episódio que o encerra do que por todos os anteriores que pouco fizeram por ele.

Do lado de Odin, as coisas andam melhor, com o Pai de Todos recrutando Czernobog (qualquer episódio com Peter Stormare contracenando com Ian McShane já automaticamente ganha pontos bônus) não para fazer guerra, mas sim iniciar tratativas de paz. Confesso que a mudança de postura de Mr. Wednesday não me convenceu pela brusquidão e pela falta de construção verossímil, já que fica difícil aceitar que seria uma consequência de sua luta mortal contra Tyr em The Rapture of Burning. Por outro lado, o velhaco não dá ponto sem nó e sua falta de reação à Gungnir indo em sua direção deixa claro que ele queria esse resultado de alguma forma.

Aliás, que bela sequência a de Laura arremessando a lança com diversos acontecimentos durante sua trajetória, não é mesmo? Temos Czernobog tentando martelá-la somente para errar graças a Doyle, Laura arremessando a moeda ao leprechaun, ela sendo capturada por agentes de Mr. World e assim por diante, em uma bela demonstração do potencial que essa série sempre teve para ser estupenda, mas falhando miseravelmente, já que, para cada momento como esse, temos que aturar blá blá blá de Laura em igreja abandonada e coisas do gênero.

O que realmente importa, mesmo com todos os problemas que apontei, é que The Lake Effect continua a tendência de alta da temporada nesta sua segunda metade, uma verdadeira surpresa considerando sua lerdeza e falta de personalidade em todo seu início, com exceção do primeiro episódio. Será que, em seu encerramento, Eglee conseguirá reunir as pontas narrativas em preparação a uma quarta e potencialmente última temporada (assim espero) se houver renovação?

American Gods – 3X09: The Lake Effect (EUA, 14 de março de 2021)
Showrunner: Charles H. Eglee
Direção: Metin Hüseyin
Roteiro: Laura Pusey, Damian Kindler
Elenco: Ricky Whittle, Ian McShane, Emily Browning, Yetide Badaki, Bruce Langley, Omid Abtahi, Ashley Reyes, Eric Johnson, Julia Sweeney, Lela Loren, Andi Hubick, Cloris Leachman, Erika Kaar, Denis O’Hare, Herizen F. Guardiola, Devery Jacobs, Iwan Rheon, Crispin Glover, Peter Stormare
Duração: 52 min.

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