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Crítica | American Horror Story – 10X01 e 10X02: Cape Fear / Pale

por Iann Jeliel
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Cape Fear
  • Contém SPOILERS! Acompanhe aqui, as críticas dos demais episódios de Double Feature, e aqui, todo nosso material sobre American Horror Story.

Depois de um ano em hiato e antecedida pelo spin-off American Horror Stories, American Horror Story retorna para a sua décima temporada, intitulada Double Feature, com dois episódios lançados na estreia. Antes de comentar Cape Fear e Pale, vale um aviso: eu, como crítico responsável pelo acompanhamento semanal da vez, só vi as duas primeiras temporadas da série e o início da terceira. Portanto, tentarei evitar análises comparativas, pelo menos num primeiro momento e, óbvio, fora as que vi. Na medida do avançar dos episódios semanais, devo conseguir assistir as outras temporadas e ganhar mais parâmetro sobre a linguagem da série com um todo. No entanto, em se tratando de antologia, é totalmente possível analisar a temporada isoladamente e é isso que será feito.

Estamos entendidos? Vamos a crítica de cada um dos episódios inaugurais!
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10X01: Cape Fear

Cape Fear

Como dito, vi apenas Murder House e Asylum e, tendo-as como parâmetros, fiquei assustado com o salto evolutivo, especialmente tecnicamente, apresentado aqui em Double Feature, dez anos depois. “Pera, isso quer dizer que você não gosta das melhores temporadas?”. Sim. Quer dizer, das ditas como melhores pelos admiradores do show. Justamente por esse “dito”, após terminá-las, desistir de continuar, porque detestei o que vi. Muito por conta da estilização visualmente estafante da dupla de showrunners, Ryan Murphy e Brad Falchuk, que buscavam trazer intensidade a narrativa numa montagem extremamente picotada, cheia de maneirismos e exageros visuais desagradáveis, milhares de subtramas jogadas e desorganizadas num sequenciamento de roteiro espertinho, visando surpreender ao esconder informações e jogá-las quando conveniente, dentre outros milhares de problemas que não aproveitavam o potencial isolado da história especifica da temporada e não continha um pingo de atmosfera genuíno do terror sobre a local, mitologia e desenvolvimento psicológico dos personagens.

Felizmente, todos esses problemas mencionados inexistem em Cape Fear – nem no episódio seguinte Pale, digo logo –, com uma estética predominante de planos abertos e cortes suaves. O episódio já se inicia numa ótima valorização do desconhecido da ameaça, com corpos de animais dilacerados na estrada observados por Alma (Ryan Kiera Armstrong), filha do protagonista, Harry (Finn Wittrock), que junto a sua esposa Doris (Lily Rabe), estão mudando para Provincetown em busca de inspiração criativa. Temos aqui, uma trama de terror mais clássica, da familia se mudando para uma cidade de incidentes sobrenaturais, com direito a velha máxima do escritor em bloqueio que verá naqueles incidentes um material promissor a ele sair de seu estado. Os primeiros minutos conseguem contextualizar imageticamente muito bem essa premissa, desenvolvendo os Gardner a nível de proximidade facilmente conquistadora. Compramos a relação de afeto entre a familia e a ambição particular de cada um, que será peça fundamental para o adentrar na mitologia vampiresca do cenário como potencializador do início de uma futura jornada autodestrutiva.

Não demora muito para os seres aparecerem e num primeiro momento é até estranho a perseguição tão imediata e explicita deles aos recém-chegados na cidade. Contudo, isso se faz coerente e conforme o senso de progressão gradual e cadenciado do enredo, estrategicamente posicionado com a introdução de universo por personagens secundários. Se na primeira sequência vemos um vampiro de rua perseguindo mãe e filha e ser dado como um mero “louco” pela policial local, Chief Burleson (Adina Porter), na cena seguinte, é introduzida a moradora de rua Karen (Sarah Paulson – superafetada em cena), cumprindo o papel daquele velho clichê da doida avisando que tem algo de errado na cidade e para eles fugirem dali. Psicologicamente, o efeito faz com que alinhemos as cenas, para associar ao conflito de decisões dos protagonistas, divididos em acatar o lado de Karen, certa sobre a periculosidade do local, ou o lado do ceticismo, aceitando que há muitos “doidos” por ali e é isso aí. Consequentemente, isso se reflete em cenas atrativas e climaxs para ambos os lados da dicotomia, além de uma assimilação natural do público a excentricidade característica dos mundos de American Horror Story.

Os vampiros observando-os pelas janelas e mais tarde, invadindo a casa, forçando o protagonista a matar e ter visto a morte (os cadáveres na praia) uma primeira vez no mesmo dia, é uma deixa perfeita para que os personagens imediatamente deixem a cidade, ao mesmo tempo que a compensação de Harry ter conhecido outros escritores, Austin (Evan Peters) e Belle Noir (Frances Conroy), que lhes oferecia uma pílula “mágica” de criatividade, o qual ele precisa com certa urgência visto a cobrança da sua chefe Ursula (Leslie Grossman), é uma motivação tentadora o suficiente para entendermos a sua decisão final de tomá-la. Por mais que ficasse subentendido através de Belle, uma possível interligação entre a pílula e a condição vampiresca – confirmado no episódio seguinte –, não tinha muito como Harry adivinhar, logo, não o culpamos, ou não perdemos a empatia desenvolvida com ele ao longo do episódio. Elegante e objetivo, técnica e narrativamente, Cape Fear inicia a história contada nessa primeira metade temporada demonstrando bastante potencial.

American Horror Story (Double Feature) – 10X01: Cape Fear | EUA, 25 de Agosto de 2021
Criação: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: John J. Gray
Roteiro: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Lily Rabe, Finn Wittrock, Frances Conroy Frances, Billie Lourd, Leslie Grossman, Adina Porter, Angelica Ross, Macaulay Culkin, Ryan Kiera Armstrong, Robin Weigert, John Lacy, Jen Kober
Duração: 50 minutos
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10X02: Pale

Cape Fear

Se Cape Fear conseguia, mesmo precisando fazer pausas para algumas contextualizações, criar uma atmosfera envolvente da ambientação com os personagens, Pale, consegue um resultado ainda mais positivo quando se concentra primordialmente na emulação dos estágios de transformação de Harry em vampiro, após tomar a pílula dada por Austin. É muito interessante como a direção tem recursos para traduzir imageticamente as etapas dessas encenações. O jogo de montagem, paralelamente entrecorta devaneios psicodélicos com cenas do personagem escrevendo sem parar, ao som de um violino agudo gritante e amplamente ofegante, representando o grande bust na sua mente após receber estímulo da “droga”. Depois o plano abre, passa a observá-lo sem cortes digitando, mas acelerando a passagem temporal de maneira bem disfarçada, simulando o quanto ele estava imerso naquilo, como o tempo voou neste período.

Mais tarde, na cena da compra de supermercado, a edição de som trabalha a desorientação hiperativa do personagem com o auxílio da trilha incidental incisiva, para transpor seu sentimento de necessidade de sangue daquele momento. A condução da cena chega a ser mais visceral do que precisa, agonizando em cada corte e aproximação de plano nas reações babadas de Harry durante a compra da carne e a conversão dela em um suco de sangue, somente aliviando a tensão sobre aquele desespero e agitação, quando ele a bebê. Por esses e outros exemplos, é preciso enaltecer o grande trabalho de direção de Loni Peristere neste episódio, valorizando ainda de maneira objetiva, essa espiral de eventos culminando na imoralização do homem apresentado de maneira carismática e que agora, vira um babaca com a filha e a mulher – ainda chupando o sangue dela – por uma decisão que ganha contornos cada vez mais egoístas, quando colocados frente a resultados. E isso é muito bom, ter um sentimento dividido a moral de um protagonista, pois ficamos na expectativa que ele assim mude e controle isso como o companheiro má influência, Austin, que o levou para esse lado.

Aliás, gosto muito da ideia, aqui consolidada, de fundar as criaturas chupadoras de sangue por um teor menos sobrenatural, de certo modo, subvertendo o teor classicista de origem da premissa a algo mais original, dentro de um realismo fantástico de serem efeitos colaterais de uma droga especial. Não que a fantasia esteja anulada, como bem é colocado na conversa de Harry e Austin nesse episódio, destrinchando um pouco e sem detalhes a origem específica de sintomas, a transformação é diferente para aqueles que são ou não talentosos, dividindo os escritores daqueles outros de rua primeiramente encontrados pela familia. Legal que esse mote pode ser levado para dentro do núcleo familiar, através de Alma que toma uma dessas pílulas e não muito tempo depois de ser igualmente babaca com a mãe, já ao final de um ótimo cliffhanger do episódio, aparece em cemitério se alimentado de animais ao lado destes outros vampiros mais irracionais.

Ao que tudo indica, esse será seu destino, já que o processo, pelo menos temporalmente em seu pai, fora mais demorado até ele sentir a necessidade de sair caçando sozinho pessoas comuns nas docas da praia. Resta saber a consequência dramática disso em Doris, ou no próprio Harry, se ela vai acabar sucumbindo a droga também ao ver Harry controlado, ou se Harry vai desistir da ideia, tarde demais. Esperemos nos próximos capítulos o resultado disso. Se fosse para reclamar de algo, tanto desse, quanto de Cape Fear seria a pouca exploração de outros personagens secundários, como Karen e sua trama de viver sobre a proteção de Belle, e Mickey (Macaulay Culkin – como é bom vê-lo novamente), que por enquanto é somente aquela adição protocolar de AHS em sempre coloca um destaque LGBT+ na trama principal da temporada – e isso não é ruim, antes que reclame, tá? Mais ele merece mais destaque. Pale consegue ser ainda melhor que o episódio antecessor, principalmente em termos sensoriais. Definitivamente Double Feature me reacendeu o interesse por American Horror Story.

American Horror Story (Double Feature) – 10X02: Pale | EUA, 25 de Agosto de 2021
Criação: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Loni Peristere
Roteiro: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Lily Rabe, Finn Wittrock, Frances Conroy, Billie Lourd, Leslie Grossman, Macaulay Culkin, Ryan Kiera Armstrong, Robin Weigert, John Lacy
Duração: 50 minutos

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