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Crítica | American Horror Story – 10X05: Gaslight

por Iann Jeliel
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Gaslight

  • Contém SPOILERS! Acompanhe aqui, as críticas dos demais episódios de Double Feature, e aqui, todo nosso material sobre American Horror Story.

Como vem percebendo pelas críticas, Double Feature tem apresentado perda de qualidade, conforme as resoluções da primeira história, Red Tide. Não chega a ser uma queda vertiginosa, a ponto de descompensar o que era posto como extremamente promissor nos dois capítulos iniciais, mas é uma queda protocolar, vista em quase todas as temporadas pensando em como a série escolhe seus caminhos, por vezes, atravessando as mais fáceis soluções, escorada no impacto da premissa, em detrimento da execução dramática de sua proposta de maneira aprofundada. Não à toa, a amálgama do dilema do ter a criatividade com a pílula em relação a responsabilidade familiar, parece não ter tanto peso em Gaslight, um episódio que teoricamente deveria bater nessa tecla com maior ênfase, perante a virada prestes a acontecer.

O descarte de Doris (Lily Rabe) nas mãos da própria filha (Ryan Kiera Armstrong) é cruel. Uma reviravolta que funciona pelo histórico construído, especialmente pelos dois episódios de abertura, mas que neste é executado num clima de inevitabilidade, ruim como potencialização do impacto. É um problema que vem desde o terceiro episódio, que escolheu escantear a personagem convenientemente após um gancho que necessitava de uma reação sua mais urgente, no caso, ela ter visto a filha comendo um animal morto e associando imediatamente a investigação e descoberta do vampirismo na familia. Como não rolou, esse episódio é forçado a refazer aquela cena – sem um caráter de gancho, o que ajudaria no impacto –, agora com Alma se alimentando do filho recém-nascido, para ser esse novo gatilho de descoberta.

Sei que existe o conceito do sangue das crianças ser mais puro, algo explicado de novo pela Belle Noir (Frances Conroy) durante o capítulo, mas nada me tira da cabeça que a cena só foi colocada porque precisava retomar o raciocínio daquele gancho do segundo episódio. De fato, no momento em questão, ela proporciona o sentimento passado por aquela cena, mas sem parecer que terá um drama em jogo a partir daí, seja da filha com a mãe, visto que a menina fora desenvolvida como uma espécie de sociopata querendo se livrar dela sem nenhum remorso após descobrir ser talentosa, seja da mãe para a filha, envolvendo Harry (Finn Wittrock), retomando o dilema mencionado com enfim Doris sabendo da verdade, mas sem o mesmo atrito, porque tirando a cena que todas as informações são jogadas – ótima, inclusive –, os personagens parecem ficar resolvidos com a situação, que pelas circunstâncias ali, ainda estava longe de acabar.

Realmente estavam, ou quase. Harry admite no final que a Alma estava certa, mas só para isso fazer sentido com o fato dele não ter interrompido ou buscado precaver a manipulação da criança com a mãe em forçá-la a tomar a pílula, sabendo que possivelmente ela não seria uma das talentosas, abrindo o caminho para que ambos, conduzidas por Úrsula (Leslie Grossman), tenham essa vida autodestrutiva, mas próspera em sucesso. Faltou a presença da chefe de Harry mexendo os pauzinhos por trás no episódio, para termos o mínimo de verossimilhança de que o escritor realmente pensava poder administrar a família, mesmo com as intenções de sua filha e produtora tão explicitas. Falta, na verdade, qualquer senso de barreira ou intriga que dificultasse o desenvolvimento da virada.

Se não viesse de Harry, que viesse, por exemplo, de uma investigação policial, que poderia dar uma oportunidade de Doris a escapar da enrascada e tornasse a situação toda, mais tensa. Fica parecendo que Chief Burleson (Adina Porter) era a única força tarefa do local e mesmo se fosse, seu sumiço teria alguma repercussão maior. Poderia vir de Noir e Austin (Evan Peters), que prometeram perseguir a família de Harry se ele não parasse de dar as pílulas a filha e iriam fazer isso de qualquer modo pela entrosada de Úrsula na história, mas eles mandam Karen (Sarah Paulson) fazer esse serviço sujo de sequestrar o bebê, que no que lhe concerne tenta se unir a Mickey (Macaulay Culkin) para tornar esse sequestro um resgate.

Até acho legal como essa sequência se converge com a transformação de Doris quase para matar o bebê, algo que tem tensão, mas a conclusão prefere focar na barganha de Mickey com Karen em tomar a pílula, que é outro movimento de trama figurinha repetida. Karen acaba sendo a única personagem desta metade de temporada sem função relevante na trama, visto que ela não resgata esse bebê – o que puxaria um ótimo gancho para o último capítulo –, toma a pílula para não morrer nas mãos dos vampiros de rua, mas se mata em seguida para não se manter envolvida nessa guerrilha, levando Mickey no caminho, aparentemente para poupá-lo também. A questão é que esse romance foi muito pouco desenvolvido para ser plausível dessa chacina. Se ela morresse para os vampiros, não faria a menor diferença, nem para o Mickey que possivelmente passaria a ser perseguido por traição, dado que ele podia, mas nem pegou o bebê também para levá-lo a Noir.

Coitada de Doris, pelo jeito só ela que não tinha talento dos personagens principais que tomaram a pílula. A cena dela deixando a casa careca poderia ser mais forte se não tivesse um episódio anterior explicando as etapas da transformação, éramos para estar acompanhando isso pela primeira vez com ela – fiquei na dúvida se a pílula é reversível no parar de tomar para todo mundo ou se somente para os não talentosos ela é irreversível. Fora que, como disse, ela pareceu ser inevitável de acontecer e não deveria ter sido tratada assim na manipulação do episódio. A direção de John J. Gray transparece incerteza, quando utiliza o recurso na mixagem de som e imagem desfocada no início do episódio para representar a tontura da personagem gravida também para emular a transformação acontecendo. Apesar disso, Gaslight ainda possui uma execução técnica competente e um arco fechadinho coeso, mas que poderia ser mais acachapante do que a intenção.

American Horror Story (Double Feature) – 10X05: Gaslight | EUA, 15 de Setembro de 2021
Criação: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: John J. Gray
Roteiro: Brad Falchuk, Manny Coto
Elenco: Sarah Paulson, Lily Rabe, Finn Wittrock, Frances Conroy, Leslie Grossman, Macaulay Culkin, Ryan Kiera Armstrong, Kayla Blake, Denis O’Hare, Pierce Cady, Laurie Deziel, Adam Lendermon, V Nixie, Graham Rees, Mona Wyatt
Duração: 60 minutos

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