Home TVEpisódio Crítica | American Horror Story – 10X07: Take Me To Your Leader

Crítica | American Horror Story – 10X07: Take Me To Your Leader

por Iann Jeliel
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Take Me To Your Leader

  • Contém SPOILERS! Acompanhe aqui as críticas dos demais episódios de Double Feature, e aqui, todo nosso material sobre American Horror Story.

Segunda história de Double Feature, intitulada Death Valley, apesar de tematicamente mais interessante, não começa com tanta força quanto a primeira. Isso porque não basta ser duas histórias distintas para uma mesma temporada, American Horror Story também fragmenta a narrativa envolvendo alienígenas e conspirações americanas em duas temporalidades diferentes. Sou a favor da primeira escolha, mas nem tanto da segunda. Esteticamente dividida em um núcleo filmado em preto e branco e em outro colorido, Take Me To Your Leader sofre com o interlúdio de ter que fazer duas introduções que pouco se comunicam, além do óbvio estigma de que os eventos passando na década de 50 justificariam a existência dos que acontecem no presente. Nesse sentido, a força do mistério e do terror do desconhecido alienígena perde relevância em ambas as linhas de história.

O episódio começa com uma cena bem bacana, até. Imageticamente, na maneira como é articulada a escolha de planos e enquadramentos, posicionando a geografia do cenário, remete e é bastante semelhante às primeiras cenas de Asylum, temporada que deixou um legado polêmico com a aparição de aliens na série. Não há o recurso daqueles flashs de luz usados por lá, além de ser obviamente outra ambientação, mas há o mesmo princípio de abdução mental misterioso, como se fosse uma possessão demoníaca. Os olhos esbranquiçados, a levitação, o poder de “explodir a cabeça” de humanos. Há uma busca por um conceito e abordagem mais original de ET’s – assim como os vampiros estimulados por pílulas de criatividade de Red Tide –, mas que não nega os elementos mais clássicos que os consolidaram conhecidos na cultura popular.

Mais tarde, quando acompanhamos o protagonista desse núcleo, vulgo presidente dos Estados Unidos, Dwight ‘Ike’ Eisenhower (Neal McDonough), investigando a queda de um OVNI no deserto, vemos o design deles. Aquele tradicional cabeçudo verde que anda em discos voadores e sai pela região de Nevada abduzindo pessoas para fazer experimentos com elas, como é demonstrado no relato de Amelia Earhart (Lily Rabe), uma mulher desaparecida há vinte anos que ressurgiu no local da queda, cheia de marcas no corpo, confirmando ter sido uma cobaia. Há muita coisa interessante a se explorar a partir dessa premissa, até o drama da relação do presidente e sua esposa, Mamie Eisenhower (Sarah Paulson), parece ser promissor, mas a velocidade necessária da introdução para ter de resolver outra acaba impedindo que se desenvolva qualquer coisa direito.

Pouco aproveita a atmosfera conspiratória de Área 51 nas sequências do interrogatório ou do experimento do corpo dos alienígenas. Mal começamos a ser introduzidos a esse clima e já surge repentinamente Maria Wycoff (Rebecca Dayan), a mesma mulher “possuída” da primeira cena, forçando o diálogo com o presidente, possivelmente para revelar as intenções do que eles fazem no planeta, ou algo semelhante que levará a história para frente. O segundo núcleo se passando no presente, com quatro adolescentes acampando em local próximo ao que dá título à história – Vale da Morte –, já possui um cuidado mais atencioso em atmosfera, embora não exatamente efetivo na construção introdutória. É complicado porque ele já parte de uma quebra de logística de episódio muito abrupta quando vai para o colorido e adota o linguajar jovial dos novos protagonistas, o que não ajuda a coerência da proposta de apresentação quando coloca a ficha técnica gratuita de suas características, sendo que a intenção da conversa no restaurante se alongar é justamente apresentá-las em organicidade à história, de modo a simpatizarmos com eles.

Os diálogos acabam caindo para mais um daqueles momentos oportunos para a dupla de showrunners de adentrar em temáticas tabus de sexualidade, que quase sempre surgem de modo não natural na conversa, sendo que a intenção deles com a exposição do assunto é a oposta, no caso, normatizá-las dentro de qualquer bate-papo. Utilizo como exemplo o momento em que Kendall Carr (Kaia Gerber) começa a falar do seu professor de Ludismo (Samuel Hunt) e corta para micro flashbacks dela, no momento da aula, cheia de tesão com as falas dele, e depois alguns frames dos dois transando. Para quê? Só para consolidar que cada um na mesa tinha que tocar no assunto de sexo? Sairia “mais natural” se ela simplesmente falasse ali com a conotação sexual, ou que cada história contada  pelos personagens tivesse seus próprios flashs mostrando o que aconteceu, como foi na dela, porque sim. Enfim, é um detalhe irrelevante, eu sei. Contudo, é um tipo de errinho de coerência repetente na série como um todo, surgido por um mesmo motivo, que incomoda a cada nova aparição, mesmo que tenha a melhor das intenções, tematicamente.

No fim das contas, todo esse diálogo só serve para dar verossimilhança, para quando eles forem se isolar no acampamento, não existir um recurso de socorro, pois não consegue estabelecer empaticamente nenhum do quarteto. Logo, o peso da virada em formato de gancho, de todos voltarem grávidos depois da abdução (a sequência do carro foi legal, a melhor do episódio), é mínimo, pois não conta nem com o estranhamento da novidade desse conceito, já que havia acontecido a mesma coisa com Amelia na outra temporalidade. Dá para ficar curioso com as possibilidades vindas depois daí – imaginando como saíram bebês aliens de dois homens –, mas fato é que os personagens acabam sendo meros hospedeiros nessa história, que tem potencial atmosférico, mas pelo jeito só irá explorar o horror visual da mistura original proposta para as figuras monstruosas. Pelo menos, essa foi a impressão de Take Me To Your Leader, uma abertura objetiva demais que poderia pelo menos ser mais duradoura – só tem 40 minutos o episódio – para ambas as histórias caberem com desenvolvimento suficiente.

American Horror Story (Double Feature) – 10X07: Take Me To Your Leader | EUA, 29 de Setembro de 2021
Criação: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Max Winkler
Roteiro: Brad Falchuk, Manny Coto, Kristen Reidel
Elenco: Sarah Paulson, Lily Rabe, Neal McDonough, Kaia Gerber, Nico Greetham, Isaac Powell, Rachel Hilson, Rebecca Dayan, Christopher Stanley, Chris Caldovino, Samuel Hunt, Maxwell Caulfield, Steven M. Gagnon, Henry Joseph Samiri, Adam Noel Jones
Duração: 40 minutos

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