Crítica | American Horror Story – 9X09: Final Girl

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Daqui a alguns séculos, quando os aliens da Área 51 enfim fugirem e dominarem a Terra, haverá uma larga pesquisa entre as espécies para descobrir o mistério por trás do plano narrativo nas temporadas de American Horror Story. Dissertações e teses serão escritas sobre como eram as reuniões iniciais do showrunner com a equipe de roteiristas, quais eram as regras e orientações que ele dava para essa equipe criar o roteiro e, após mais alguns séculos de pesquisa, descobrirão que na maioria das temporadas as reuniões eram interrompidas antes de discutirem o final. Depois, bêbados e dias sem dormir, eles inventavam qualquer coisa de emergência, pediam para um Orangotango com demência escrever o roteiro e entregavam o resultado disso para os atores decorarem as falas. Sim… porque não existe nada mais que explique o por quê tantas temporadas com imenso potencial nesse show são simplesmente destruídas no Finale.

Se você parar para lembrar como eram as suas aulas de redação ou suas oficinas literárias na escola, certamente virá à mente as muitas broncas que seu professor ou professora de língua portuguesa te dava porque você cometeu um dos pecados mortais em um texto: fuga do tema. Se você começa sua dissertação, sua crônica, seu conto, sua crítica, seu roteiro dentro de uma premissa X, você não pode virar a chave temática do meio para o final e mudar o verdadeiro sentido da obra, construído desde o primeiro parágrafo. É lição básica de como escrever bem. Fuga do tema é algo sério e capaz de destruir o seu texto. Exatamente como destruiu o que poderia haver de interessante aqui em Final Girl, Finale com roteiro de Crystal Liu, que no ano passado escreveu um dos episódios mais queridos daquela temporada: Return To Murder House. Pois é. Difícil acreditar que este aqui foi escrito pela mesmo pessoa, não?

Em todos os meus anos de seriador, eu nunca me deparei com um final tão orgulhosamente incoerente com o que foi todo o restante da temporada. De repente saímos de American Horror Story: 1984 para dançar Faz Um Milagre em Mim numa cena qualquer de Days of Our Lives: Ghost Universe. É impossível reconhecer uma temporada slasher aqui. É impossível lidar com a ideia de que um massacre que foi prometido em praticamente metade da temporada simplesmente não aconteceu!!! Como é possível que Ryan Murphy tenha permitido que isso fosse pra frente? Notem que as poucas tentativas de alguns personagens se endireitarem na vida foram frustradas e os textos dos episódios passados empurravam-nos de volta para o acampamento, claramente aludindo a um encerramento sanguinolento, mas que, como sempre acontece no gênero homenageado, houvesse pelo menos uma vitória (mesmo que temporária) de uma garota final, salva do horror. O que Crystal Liu e o showrunner fazem aqui é pisotear a essência da série e aprofundar num drama familiar que não perde nada para para o ápice de Marimar.

Um defensor qualquer poderia dizer que “o showrunner quis inovar, ele está quebrando expectativas dentro da proposta“. Só que não. Vocês querem saber o que é quebrar expectativas dentro da proposta? É fazer exatamente o que foi feito com a personagem da Rihanna em Bates Motel. É assim que se faz uma quebra de expectativa obedecendo a essência de uma proposta: você corrompe o sentido geral do que quer apresentar, mas não retira a alma da cena, e só existe uma forma de fazer isso de forma coerente: trocar os papéis ou o evento por outros equivalentes. Agora vejam o que é feito aqui. Sem massacre, o final abraça uma ideia de que os fantasmas estariam vivendo em paz, cansados de matar (oi?), mas torturando Ramirez (sim, o cara que tem o apoio de Satã!) e possivelmente Margaret, com um pedido patético de Montana: “não se esqueça da gente, não se esqueça dos anos 80, conte nossa história” (amada???). Eu fiquei só esperando que a qualquer momento aparecesse o Grupo Molejo no acampamento cantando “não deixe o samba morreeeeeeeeer, não deixe o samba acabaaaaaaarrrrr…”.

O episódio só não foi pior porque teve a decência de nos mostrar uma morte excelente para Margaret, algumas boas atuações, um excelente uso de figurinos e ótima direção de fotografia. Não é pior apenas pela técnica, porque pela história… é uma verdadeira decepção. Esta temporada entrará para a História como aquela que começou querendo homenagear o slasher e terminou adaptando Emma, de Jane Austen.

American Horror Story 9X09: Final Girl (EUA, 13 de novembro de 2019)
Direção: John J. Gray
Roteiro: Crystal Liu
Elenco: Emma Roberts, Billie Lourd, Leslie Grossman, Cody Fern, Matthew Morrison, Gus Kenworthy, John Carroll Lynch, Angelica Ross, Zach Villa, DeRon Horton, Finn Wittrock, Lou Taylor Pucci, Leslie Jordan, Tara Karsian, Sean Liang, Lily Rabe, Dylan McDermott, Filip Alexander
Duração: 38 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.