Crítica | Amizade Dolorida (Bonding) – 1ª Temporada

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A sexualidade é uma parte incrível de todos nós. Complexa (mas nem tanto), diversa e muitíssimo particular, ela tem sido virada e revirada ao longo do tempo, estudada em suas três pulsões principais, mas não únicas, de orientação — hétero, bi e homossexualidade — e exercida em todo tipo de escolhas e desejos que se possa imaginar. Dentre os aspectos que compõem a nossa sexualidade está a libido, que pulsa mais ou menos forte para diferentes tipos de pessoas e suas caraterísticas peculiares (do cheiro à vestimenta), abrindo as portas para todo um Universo que chamamos de erotismo. E é aí que entra o cerne desta engraçada e muito interessante série da NetflixAmizade Dolorida.

Criada, escrita e dirigida por Rightor Doyle, a série segue o mesmo padrão de abordagens curtas em uma linguagem cômica, leve a maior parte do tempo e cheia de temas transversais que tivemos em Special, por exemplo, mas aqui o tema principal é mais ousado e trabalhado com uma maior dose e absurdos e um pouco mais de clichês de comédias despreocupadas. Como já comentei antes por aqui, os clichês bem trabalhados podem gerar narrativas realmente muito boas, principalmente quando servem a um enredo fora do curva, como é o caso de Bonding.

Encabeçando o show temos a dupla Tiff (Zoe Levin) e Pete (Brendan Scannell). Ela é estudante de psicologia e trabalha como dominatrix, enquanto ele é garçom de uma lanchonete e acaba sendo contratado por ela para “assistente de sessões”. Existe um bom número de brincadeiras em torno da estranheza dos fetiches e das coisas que dão prazer às pessoas, mas todas as particularidades são colocadas de maneira honesta, sem julgamento moral algum. Há um diálogo que achei absolutamente maravilhoso, quando Pete encontra um dos clientes na rua e ouve a frase “espere até eu contar de você para meus amigos“. Espantado, Pete pegunta se o cliente fala “daquelas coisas” (a dominação, etc.) para os amigos e o cliente responde “sim, eu não estou fazendo nada de errado com ninguém!“. A resposta perfeita e que resume muito bem o espírito da série.

Mesmo com alguns problemas, o roteiro ainda é o maior ganho de Amizade Dolorida. A direção de Rightor Doyle é bastante comum, não ousa em praticamente nada e lhe falta um maior rigor na maneira com que conduz cenas de grande impacto fora dos momentos íntimos ou de cadência romântica. Devo, porém, destacar o seu ótimo trabalho de direção na sequência da dedada de Pete no colega de quarto; na sequência de Tiff e Doug — personagem de Micah Stock — no primeiro e desajeitado encontro; e na grande ternura da cena da lanchonete, no último episódio, seguindo com um ponto bastante estranho para dar fim à temporada.

Ao londo da narrativa, sabemos que Tiff e Doug ficaram juntos em algum momento da Colégio, mas detalhes dessa ficada não são fornecidos. Até aí, tudo bem, o espectador consegue lidar com essas informações soltas sem maiores problemas. Todavia, parece muito estranho que o flashback de revelação venha justamente no Finale, assim como a sequência dramática mais diferente de toda a temporada. E não falo isso em relação à impossibilidade do ato. A presença daquele empresário macabro é bem amarrada e faz sentido dentro desse Universo, algo que inclusive os próprios personagens já haviam aludido. A questão é que este momento de violência e encontro diferente no encerramento do serial, com uma aventura de significado maior para os protagonistas (agora eles não vão um para cada lado, eles seguem juntos) pareceu deslocado, pelo menos para mim. O episódio, no entanto, não é ruim.

Curiosamente gosto bem mais da atuação dos coadjuvantes do que dos protagonistas do show, mesmo tendo me apegado a eles. Micah Stock e Josh (Theo Stockman) me pareceram bem mais interessantes dramaturgicamente falando, sem falar da ótima D’Arcy Carden vivendo uma mãe de família com um esposo de mania sexual bem peculiar, e ela mesma descobrindo um prazer oculto, no meio do caminho. Assim como em SpecialAmizade Dolorida vai pouco a pouco trabalhando questões sérias, se aprofundando em temas cotidianos e relacionáveis, mostrando também um crescimento dos personagens, além de trazer fatores sexuais meio tabus à tona, num misto de 50 Tons e Sex Education, com pitadas de Big Mouth e comédia escrachada parcialmente realista. O tema é bom e a maneira livre com que é trabalhada, idem. Vale muitíssimo para um divertimento rápido, sem grandes preocupações ou cobranças dramáticas. Que venha a próxima temporada!

Amizade Dolorida (Bonding) – 1ª Temporada (EUA, 24 de abril de 2019)
Criador: Rightor Doyle
Direção: Rightor Doyle
Roteiro: Rightor Doyle
Elenco: Zoe Levin, Brendan Scannell, Micah Stock, Kevin Kane, Stephanie Styles, Charles Gould, Alex Hurt, Theo Stockman, D’Arcy Carden, Jade Elysan, Gabrielle Ryan, Alysha Umphress, Stephen Reich, Eric Berryman, Chad Burris, Matthew Wilkas, Rosanny Zayas
Duração: 17 a 13 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.