Crítica | Amor Além da Vida

estrelas 3,5

“Você é tão maravilhosa que faz um homem preferir o inferno ao invés do céu, só para ficar com você.”

Contém spoilers.

A morte é um dos maiores desafios mundanos que o homem há de enfrentar, parte de uma trajetória acerca da própria vitalidade, mensurada sob dependência de momentos muitas vezes felizes, contudo, também muitas vezes tristes. Porém, caracterizaríamos ela como o fim de uma jornada ou o começo de uma nova? As explicações para esse fenômeno surgem de inúmeras religiões. O caminho para a vida eterna, como uma passagem, necessária para que se compreenda e aceite o que de mau lhe aconteceu, o que de bom lhe aconteceu; o mal que se fez, o bem que se fez. Uma reencarnação, nos preparando para um ciclo longevo de vidas e mortes.

Independente do significado a ela atribuída, morrer definitivamente não é fácil, nem para os que acabam – ou acabarão – por perecer, nem para aqueles que, vivos, encontram apenas uma saudade amarga dos que se foram. Baseado no livro de Richard Matheson, Amor Além da Vida tem como objetivo trazer uma reflexão sobre os diversos sentimentos envoltos da morte – e, primordialmente, de como o amor pode ter um papel fundamental para que o homem renasça dela, em um ciclo sem fim. O caminho para uma belíssima história de amor é turbulento, mas, em momento algum, retiram-se algumas incríveis características da obra, linda em muitos sentidos.

Para alcançar esse interesse, tão reflexivo quanto catártico, a trama começa optando pela tragédia, girando em volta de Chris Nielsen (Robin Williams) e sua esposa Annie (Annabella Sciorra), que, juntos, constituem uma família ideal: dois filhos e muito amor para dar. Da desgraça que vem do acaso, um acidente tira precocemente a vida das crianças e o casal desaba – cada um de uma maneira particular. Após quatro anos, quando eles parecem estar levando uma nova e, consideravelmente, feliz vida, Chris também acaba falecendo, em decorrência de outro acidente pavoroso. Para o Paraíso sua alma é levada, enquanto Annie é obrigada a lidar com o desespero.

Com a criação desse enredo, o roteirista Ronald Bass vence o seu primeiro grande desafio, trabalhando excepcionalmente bem o universo pós-morte apresentado. A formulação de regras específicas desse novo mundo – universo ou dimensão – tende a criar furos. Igualmente, se feita sob um viés mais religioso, a adaptação deve ser cuidadosamente manejada para não ofender nenhum credo. O caminho escolhido é mais simples do que optam por seguir comumente, mas não menos acertado em razão disso. Ao surgirem novos problemas na história, regras são informadas e o filme prossegue, sem cair nas armadilhas ordinárias de “fantasias”, gênero que a obra atende.

No final das contas, contrariando o que se espera, não há um intuito do roteiro em mostrar como é a vida após a morte; não há nenhum cunho religioso ligado estritamente a essa obra. Amor Além da Vida é, acima de tudo, uma história de amor tocante e subversiva, contrária às regras não só da sociedade, como do próprio além. Sendo assim, o filme já começa abordando o relacionamento entre Chris e Annie, com flashbacks esporádicos contribuindo para um entendimento e desenvolvimento dos personagens, fundamentados, majoritariamente, na relação existente entre eles. O amor é primordial e precisa ser comprado integralmente pelo público do espetáculo.

O longa acaba, precipitadamente, avançando demais na história, o que não deixa o público sentir inteiramente o que aconteceu e o que está acontecendo no enredo. A morte dos filhos, por exemplo, é atropelada pelo falecimento de Chris. O que se é observado na obra é o fato dela, pela sua própria natureza, pincelando uma importância substancial das crianças, implicar uma necessidade de aproximação do espectador com as dores sentidas na morte delas, algo feito de maneira pouco eficaz. As crianças perdem relevância. O evento é uma alavanca narrativa para entendermos a perda do marido como a “única coisa que Annie ainda tinha a perder”.

O essencial da fita, portanto, é mesmo a relação de amor entre o protagonista e a sua esposa, mas acaba sendo injusto, ao espectador, olhar para relações de pais e filhos sem a mesma habilidade narrativa que a relação entre marido e mulher é observada, ainda mais quando o longa-metragem insiste nesse pedaço da história – retomado de outras maneiras. Apenas com esses flashbacks esporádicos, citados anteriormente, é que se é permitido pelo roteiro revelar uma verdadeira construção do relacionamento entre pais e filhos. Mesmo assim, apenas o personagem de Robin Williams recebe a devida atenção na sua relação com as crianças – aqui, Annie é escanteada.

A dor de Annie, por sua vez, também é exaltada em uma dessas sequências no passado – de maneira muito competente por sinal -, mas seria mais interessante que também fossem mostradas situações triviais, fortalecendo um vínculo materno, tal como Chris recebe. Esta atitude de Bass seria imprescindível para uma fortificação de sentimentos, no intuito de se revelar o amor de Chris, tanto em sua trajetória no além, quanto na sua resistência inabalável, ainda no plano terreno, perante àquela que é a maior dor de todas. A montagem de David Brenner também fica estranha sem isso, porque, sem saber para onde quer ir, a obra perde foco, ligeiramente bagunçada.

Os problemas vão além, a começar pela previsibilidade do roteiro, tendo em vista, primeiramente, o inesperado encontro de Chris com a sua filha Marie (Jessica Brooks Grant), já no Paraíso – justificando a necessidade pela relevância das crianças. A cena é bonita e emocionante, digna de algumas lágrimas – especialmente por causa de Williams -, entretanto, o mesmo twist é utilizado em duas outras situações; a última soando óbvia demais, enquanto a segunda ainda se salva, como uma espécie de repetição poética. O término, embora estupendo, também fracassa, ao se apressar em contar uma conclusão que poderia ter sido estendida por alguns minutos a mais.

Nessa problemática, outro ponto fraco do roteiro se revela: o desperdício do experiente Max von Sydow. O ator busca exprimir a sabedoria e o senso de segurança pedidos pelo personagem, mas os diálogos, aliados com decisões narrativas questionáveis, enfraquecem seu trabalho – existe muita obviedade. Por outro lado, Albert (Cuba Gooding Jr.), o guia do protagonista, revela uma jovialidade genuína em seus trejeitos, indo de encontro a uma revelação surpreendente da obra. O personagem de Cuba, porém, não é desenvolvido afundo, por estarmos, de fato, interessados no destino que será provido à personagem de Annabella Sciorra, um grande motor dramático.

Deste ponto em diante, nos encontramos com os pontos que transformam Amor Além da Vida neste longa-metragem tão amado. A transformação do papel interpretado por Sciorra permite a atriz, ao mesmo tempo, metamorfosear-se em cena. A personagem, de início, é uma mulher alegre, romântica, apaixonante, até que a morte surge pela primeira vez em sua vida. A atriz capta de forma assombrosa tanto o desespero de uma mãe sem os filhos – mostrado tardiamente por meio dos flashbacks -, quanto o de uma viúva. A ela não resta mais ninguém. Os pontos emocionais que o romance embutiu em si são intensificados por certos paralelos com a realidade.

Robin Williams, em contraponto, carrega um peso muito grande detrás de sorrisos enormes e expressões singelas, as quais, ainda assim, são tão sinceras quantas as mais extravagantes performances do ator. Chris não entrou em desespero após a morte dos filhos, mas segurou a maior dor imaginável do mundo, guardando-a até a sua morte. O suicídio do ator é um assunto delicado, mas que com certeza vem à tona durante a fita, caso o espectador tenha tido contato com essa informação. Junte isso a um filme que lida com problemas relacionados a aceitação de fatos da vida, apatia coberta por uma falsa felicidade, desespero e, primordialmente, suicídio.

A condução de Vincent Ward, enfim, encontra um caminho acompanhado por ótimos auxiliares, desde os efeitos especiais, surpreendentemente magníficos, à fotografia, um espetáculo à parte, responsabilidade do português Eduardo Serra. O contraste visual entre o ambiente que acerca Chris, após sua morte, e o que acerca Annie, após a morte do marido, é percebido, dado o cuidado com esse aspecto – com Annie, temos um mundo cinzento, combinando com os traços de melancolia e tristeza envoltos da personagem. Já no Paraíso, a paleta de cores é cintilante, tendendo, essencialmente, às mais vibrantes tonalidades da natureza, certeiramente alegre.

A sequência inicial de Chris no Além, emergindo à eternidade depois da vida, merece um destaque em especial. O personagem, após ser recebido por Albert, vê o mundo a sua volta ser moldado pela aquarela, refletida das pinturas de sua esposa amada. Desde as folhas das árvores, passando pela água pastosa, até chegar à grama que se desmancha, virando tinta – tudo é muito lindo. A direção de arte do filme é inesquecivelmente fantástica, dando verdade ao sentimento transcendental oriundo da chegada deste homem aos céus, esboçando um semblante de felicidade imediato. “O desdém dos mortos”, diria Brás Cubas. Um pequeno flerte com a despreocupação.

Caminhando, dessa maneira, por jardins de flores e cemitérios de mortos, Amor Além da Vida, uma obra com bastante potencial dramático, visto que lida com pontuações que estudam a existência humana sob um viés espiritual interessantíssimo, encontra o seu melhor em sequências imagéticas extremamente sensitivas, captando sentimentos quase indescritíveis sob a mundaneidade das palavras. O longa-metragem nos faz transcender, entretanto, mesmo aliado a interpretações honestas e um estudo sobre a morte completamente funcional, o roteiro é pecaminoso, consideravelmente preguiçoso, além do enfoque narrativo perceber-se inconstante, desleixado.

Uma obra, embora os deméritos, que possui discurso, e que discursa, mesmo que não tenha um exímio trabalho de indução ao questionamento intrapessoal do espectador, mais seduzido pelas imagens pelas imagens, ainda capazes de monólogos completos, do que por demais argumentos, cruciais para uma completude. O pano de fundo envolvido nas temáticas abordadas independe – não há nenhuma prova de amor tão grande quanto a pura existência dessa mera jornada, em busca de sua eterna amada. Friedrich Nietzsche já argumentava que aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal – ou seja, além de qualquer paraíso ou inferno; além da vida.

Amor Além da Vida (What Dreams May Come) — EUA/ Nova Zelândia, 1998
Direção:
 Vincent Ward
Roteiro: Ronald Bass (baseado em romance de Richard Matheson)
Elenco: Robin Williams, Cuba Gooding Jr., Annabella Sciorra, Max von Sydow, Jessica Brooks Grant, Josh Paddock
Duração: 113 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.