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Crítica | Amor e Sedução

por Rodrigo Pereira
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SPOILERS!

Um começo e tanto. Ainda que deva Codinome Cougar, segundo longa de sua carreira, poderia definir assim o início da caminhada de Zhang Yimou na cadeira de direção. Após estrear com o fenomenal O Sorgo Vermelho, o diretor repete parte da fórmula de seu primeiro filme, obtendo um resultado de qualidade semelhante, mesmo com uma abordagem diferente.

Em Amor e Sedução, trabalho com co-direção de Yang Fengliang , somos apresentados a história de Ju Dou (Gong Li), uma jovem que é comprada para ser a esposa de Jin-shan Yang (Wei Li), dono de uma tinturaria. O homem, muito cruel e autoritário, é estéril e, se recusando a admitir seu problema, já matou duas outras esposas por não lhe darem um filho. Em meio a esse pesadelo, surge um interesse mútuo entre Ju Dou e Tian-qing Yang (Li Baotian), sobrinho de Jin-shan que também trabalha no local. Sem que o sujeito impiedoso desconfie, os dois atam um relacionamento amoroso gerando um filho, Tian-bai Yang (Ji-an Zheng), que, com exceção dos verdadeiros pais, todos creem ser o herdeiro de Jin-shan.

Assim como a semelhança com O Sorgo Vermelho, com ambas as obras havendo a centralidade da figura feminina sendo forçada a um casamento que não desejava junto a um homem bem mais velho, é interessante perceber como Yimou aborda questões distintas a partir de premissas aproximadas. Enquanto no primeiro ele demonstra a força da mulher ao assumir o comando de uma destilaria, mesmo em meio a abusos e uma sociedade extremamente tradicional, em Amor e Sedução há um foco muito maior acerca das consequências oriundas de seus atos, independente de seu gênero.

Peguemos alguns acontecimentos separadamente. Após ser um agressor, intransigente e completamente hostil, Jin-shan contrai uma doença que o deixa paraplégico. A mesma pessoa que abusava de sua esposa de diversas formas, ameaçando-a de morte, inclusive, vê-se, de uma hora para outra, totalmente dependente dela e de seu sobrinho para realizar as atividades mais triviais do cotidiano. Chame como quiser: karma, terceira lei de Newton, lei do retorno ou o que melhor lhe couber. O importante é que é a primeira vez que percebemos esse tipo de acontecimento na obra, como se o realizador argumentasse sobre o perigo de realizarmos certas ações, pois as mesmas se voltarão contra nós no futuro.

Outro exemplo é sobre como Ju Dou e Tian-qing agem com Jin-shan após este tornar-se dependente deles. Sim, ele cometeu diversos erros gravíssimos e, coloquialmente falando, foi um completo escroto, inclusive, após ficar paraplégico. No entanto, as atitudes subsequentes do casal para com ele de mantê-lo próximo para ver e sofrer diariamente sabendo de toda a verdade, como Ju Dou verbaliza em determinado momento, estão longe de serem nobres, misericordiosas ou moralmente superiores. É um reforço ao pensamento sugerido de tudo que vai, volta (tendo em vista que o casal passou por situações bastante complicadas após esses episódios).

Devemos levar em conta, também, que essas circunstâncias acontecem em meio a uma sociedade extremamente tradicional, que segue os ritos de gerações passadas à risca e considera uma desonra tremenda qualquer comportamento que fuja desses ensinamentos. Isso não somente cria um dilema para as personagens, que se vêem sem uma saída pacífica para o caso do adultério, mas expõe o quanto as tradições podem ser realmente cruéis com as pessoas. Não importa o sentimento de um por outro ou os atos hediondos praticados, se é ensinado geração após geração que assim deve ser, assim deve-se permanecer, mesmo que isso condene vidas humanas. Uma evidente crítica do cineasta para a inflexibilidade em questões tradicionais.

Como não poderia deixar de abordar, as cores, mais uma vez, se apresentam como importantes recursos na obra de Yimou. Ao longo de todo o filme é possível identificar diversos sentimentos que o diretor aborda em suas cenas. Logo que Tian-qing vê Ju Dou pela primeira vez, temos um enquadramento de baixo para cima (o famoso contra-plongée), onde a mulher, vestida de amarelo, é vislumbrada pelo seu futuro amado em meio a tecidos e iluminação de mesma cor, quase como um anjo vindo direto dos céus. Da mesma maneira, o vermelho é utilizado para retratar tanto o amor, quando o casal finalmente se entrega um para o outro, quanto a morte de personagens (com essas sequências ocorrendo sempre na mesma localidade).

Tal qual O Clã das Adagas Voadoras, o branco também representa um esvaziamento de sentimento em Amor e Sedução. Se no primeiro vemos o cenário ser completamente tomado pela neve, marcando a falta de qualquer emoção, no segundo está presente nos figurinos de Ju Dou e Tian-qing durante o enterro de Jin-shan. Para cumprir a tradição, ambos devem “bloquear” a passagem do caixão do finado, como uma forma de demonstrar seu apreço pela pessoa. Os dois realizam o ato, porém sabemos que é somente para que as aparências sejam mantidas, demarcando a relevância do branco de suas vestes.

Ao abordar a toxicidade da tradição inquestionável, assim como o perigo de agir sem pensar nas consequências futuras, Zhang Yimou entrega uma obra provocadora e incômoda. Longe de tentar antagonizar formas de vida, o diretor propõe, ainda que com um desfecho trágico, uma visão mais ponderada, em que o sentimento verdadeiro das pessoas, independente de tradição ou cultura, é o que verdadeiramente importa.

Amor e Sedução (Ju Dou) – China, Japão, 1990
Direção: Zhang Yimou, Yang Fengliang
Roteiro: Liu Heng
Elenco: Gong Li, Wei Li, Li Baotian, Ji-an Zheng, Ma Chong, Zhijun Cong, Wu Fa, Jia Jin, Xingli Niu, Yang Qianbin, Jia Zhaoji
Duração: 91 min.

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