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Crítica | Amor na Tarde

por Ritter Fan
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O ano de 1957 foi particularmente prolífico para Billy Wilder, com o cineasta colocando nada menos do que três filmes nas telonas, um feito único em sua sensacional carreira. E o melhor é que ele tratou de temas variados, começando com Águia Solitária, uma cinebiografia do polêmico Charles Lindbergh, continuando com Amor na Tarde, um romance açucarado, e terminando com Testemunha de Acusação, um drama de tribunal baseado em um conto de Agatha Christie transformado pela própria autora em peça teatral.

Como Águia Solitária, Amor na Tarde foi um fracasso nos Estados Unidos, ainda que tenha ganhado tração e sucesso em território europeu. E é unânime que a grande razão para essa recepção fria nos EUA foi a percepção de que Gary Cooper já estava velho demais para viver um playboy milionário e mulherengo que se envolve com uma jovem inocente vivida por Audrey Hepburn. Cooper, que à época já estava com 56 anos, mas realmente parecendo consideravelmente mais velho em razão do começo de seus problemas de saúde que o matariam pouco tempo depois, em 1961, precisou contracenar com Hepburn que, então, tinha apenas 28 anos, vivendo uma personagem ainda mais jovem, provavelmente de não mais do que 20 ou 21 anos, o que efetivamente cria um abismo de gerações que é tornado ainda mais estranho quando comparamos Cooper com Maurice Chevalier, que faz o pai da personagem de Hepburn, e que, mesmo 13 anos mais velho, parecia contemporâneo ao galã hollywoodiano.

Muito sinceramente, porém, mesmo que o próprio Wilder, depois, refletindo sobre o filme, tenha realmente considerado que foi um erro contratar Cooper – na verdade, o diretor e co-roteirista havia antes tentado Cary Grant e Yul Brynner – não vejo essa escalação como o maior problema do longa. De fato, Cooper não só parece talvez velho demais para o papel, como sua própria atuação é um pouco engessada, talvez porque o contraste com a vivacidade de Hepburn seja gigantesco, mas o ator não faz feio e convence quando tem as câmeras viradas exclusivamente para ele em raras oportunidades. No entanto, mesmo considerando que o longa representa a segunda vez em que Wilder se aproxima, ainda que indiretamente do material base, o romance Ariane, Jeune Fille Russe, de Claude Anet, o problema maior está na vazio narrativo que não consegue preencher o espaço que o cineasta dá para a história ao longo dos incompreensivelmente longos 130 minutos de duração.

A premissa é até bem interessante e bem estruturada, com a estudante de violoncelo Ariane Chavasse (Hepburn) envolvendo-se romanticamente com o magnata trotamundos Frank Flannagan (Cooper) quando ela o salva de ser assassinado por um marido ciumento que contratara seu pai, Claude (Chevalier), investigador particular, para descobrir se sua esposa era adúltera. A forma como a base para a história quase fabulesca é estabelecida, por meio de narração em off de Claude, o bom uso de locações em Paris e a relação entre pai e filha, faz os primeiros 30 ou 40 minutos de projeção serem muito agradáveis e divertidas. Infelizmente, porém, o que segue a partir daí é uma infindável repetição temática que desenvolve o relacionamento substancialmente platônico entre os protagonistas de maneira extremamente vagarosa e desinteressante, com o humor ficando restrito ao estranhíssimo ritual de Flannagan que, sempre que se encontra com uma de suas amantes, faz todas as preliminares com acompanhamento musical de um quarteto de cordas (The Gypsies, um grupo verdadeiro) e jantar no quarto de hotel.

Basta reparar quantas vezes a gag dos músicos é usada – sempre tocando as mesmas canções, especialmente Fascination, de Fermo Dante Marchetti – para notar o quanto o longa parece ter apenas uma nota. Ok, duas se contarmos com as simpáticas deduções detetivescas de Claude casada com a mania de sua filha de bisbilhotar seus arquivos. Com isso, tudo fica na superfície, sem nenhuma tentativa de o longa aprofundar seus personagens para além do recorte em cartolina que eles todos são, algo que não seria um problema enorme se o ritmo fosse mais apertado, sem Wilder trabalhar sequências longas e repetitivas que apenas reiteram o que já sabemos, sem efetivamente acrescentar nada de novo a partir de pelo menos a marca da metade do filme.

Nem mesmo o charme de Hepburn, sempre com figurinos impecáveis, ou a normalmente dinâmica estrutura de peça teatral, confinando a ação basicamente a dois ambientes, o apartamento dos Chavasse e o quarto de hotel de Flannagan, o que torna a insistência de Wilder em filmar em locação quase incompreensível, consegue sustentar a narrativa por muito tempo, já que ela é fundamentalmente o caso do cão que corre atrás do rabo. Portanto, jogar a culpa apenas no colo do que se entende como uma escalação equivocada de Gary Cooper é uma grande injustiça com um longa estruturalmente falho, sem substância ou humor para ser mais do que uma curiosidade passageira que exige o investimento de mais de duas horas do espectador sem retorno correspondente.

Wilder não costuma errar e o ano particularmente atarefado em sua carreira talvez tenha afetado seu julgamento especialmente depois das filmagens, lá na ilha de edição. Ou talvez ele, compreensivelmente até, tenha se enamorado de Hepburn, dando-lhe todo o tempo de tela do mundo para brilhar. Seja uma coisa ou outra – ou os dois – diria que Amor na Tarde é sua rara bola fora, a exceção que confirma a regra quase absoluta de uma carreira irretocável.

Amor na Tarde (Love in the Afternoon – EUA, 1957)
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond (baseado em romance de Claude Anet)
Elenco: Gary Cooper, Audrey Hepburn, Maurice Chevalier, John McGiver, Van Doude, Lise Bourdin, Olga Valery, The Gypsies
Duração: 130 min.

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