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Crítica | Amores Imaginários

por Luiz Santiago
319 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 2,5

A primeira coisa que Xavier Dolan estabelece de forma sólida em Amores Imaginários (2010) é o seu tema central, ou seja, o impacto de uma paixão compartilhada na amizade entre duas pessoas. O filme, cujo roteiro também é de Dolan, narra a crônica de Francis (Xavier Dolan) e Marie (Monia Chokri), jovens de gênio forte que se apaixonam por Nicolas (Niels Schneider), um rapaz que esbanja simpatia — exceto na sequência final — e que divide em um irritante equilíbrio o nível de atenção dado às outras duas partes do “triângulo amoroso”.

Se fosse por este único aspecto, Amores Imaginários seria um filme muito bom. A abordagem de Dolan para o tema é interessante e pincelada com alguns detalhes que podem ampliar o significado do texto, como a discussão sobre relacionamentos — falaremos dela sob outra visão, mais adiante –, a questão homossexual — que aqui é apenas um detalhe, não o foco do filme — e a tinta que dá cor a tudo: o egoísmo apaixonado de Francis e Marie em querer “se dar bem” com Nicolas e o resultado catastrófico que isso tem para eles.

Na costura geral desses detalhes, Dolan comete dois grandiosos e principais erros que, se estivessem em um filme como Eu Matei a Minha Mãe (2009), sua estreia no cinema, até seria compreensível, mas aqui aparece como uma mistura de mal gosto e peso demasiado em elementos que não deveriam ter tanto peso assim.

O primeiro aspecto é a cadência narrativa do filme, que, como já foi dito, é uma crônica (ou uma junção de crônicas). Até certo ponto nós gostamos da montagem picotada para os eventos e o aparente “desencontro e avanço desordenado” que as rodas de amigos em bares e conversas sobre relacionamentos nos trazem. Mas à medida que o texto dá peso ao triângulo amoroso (esse sim, o melhor elemento da obra), tais cenas individuais parecem deslocadas e, no máximo, servem para distrair o espectador e diminuir a força dramática dos momentos em que aparecem. E isso também vale para a intimidade de Marie e Francis com seus parceiros, uma abordagem que só conseguiria bom resultado final se tivessem o mesmo tratamento, mas há total desequilíbrio nesse ponto (Marie não transa, só fala e fuma; Francis fala e transa, mas da maneira mais sem graça e despropositada possível… e não me diga que essa disparidade tem significado narrativo. Para tanto, o diretor deveria aplicar o mesmo padrão que Nicolas dava aos dois amigos, tratando-os da mesma forma).

O pior de tudo é que a maioria dessas cenas individuais (os amigos no bar, os “depoimentos”) não são mal escritas ou mal atuadas. A direção delas até pode ser exagerada — o jogo de zoom como “chicote visual” aplicado à maioria delas é feio e amador –, mas em geral, funcionam bem se as isolarmos. O grande problema é que, contextualizadas no enredo de Amores Imaginários, parecem frouxas e atrapalham a principal história.

Há quem interprete essas conversas como “narrações” ou “coro grego” ou qualquer coisa do tipo. Bem, eu prefiro não pensar assim, porque se essa foi a intenção do diretor, o filme fica ainda pior. Não faz sentido um drama amoroso de constituição estética barroca revestida de elementos do videoclipe ter “coro grego” para anunciar a ligação entre os eventos. Dolan é muito melhor que isso e creio que ele não pensou nesse tipo de uso. As conversas, a meu ver, estão lá como complemento da atmosfera geral da fita e, novamente, funcionam bem de forma isolada, mas não no contexto.

O segundo aspecto e possivelmente o mais grave deles é o estético, a começar pelo irritante excesso de câmera lenta e injustificáveis takes com câmera na mão. Nós sabemos que ambas as coisas fazem parte do universo narrativo próprio de Dolan, mas faça uma breve comparação do uso que o diretor faz desses elementos em Eu Matei a Minha Mãe e Laurence Anyways (respetivamente, seu filme anterior e seguinte) e o que ele faz aqui em Amores Imaginários. A câmera lenta que funciona perfeitamente em planos como as caminhadas solitárias de Marie e Francis se torna gratuita a cada destaque dramático de chegada, a cada vírgula emocional, a cada nuance particular dos envolvidos. Se estivesse sozinho, poderíamos até ver esse uso como um problema ‘menor’, mas ele arrasta consigo a trilha sonora, que basicamente passa de instigante para chateante.

Eu sei que pareci emburrado demais com o exercício do diretor aqui e talvez tenha dado a impressão de que odiei o filme, o que não é totalmente verdade. Amores Imaginários é uma obra medíocre (no uso original da palavra), com ótimos momentos isolados que, em conjunto, se auto-boicotam. O enredo é interessante, o elenco é afinado (destaque para as ótimas interpretações nos “depoimentos”, a marcante atuação blasé de  Monia Chokri e a alardeada ponta de Louis Garrel ao final), a escolha das canções para a trilha sonora é boa (embora mal utilizada a partir do meio da fita) e existe uma indicação de ciclo amoroso a se fechar após a última cena, o que é ótimo, mas, convenhamos, cinema não é feito apenas de boas intenções, ótima fotografia noturna e bons momentos isolados.

Talvez Amores Imaginários tenha sido uma junção de centenas de ideias do diretor postas num único roteiro sem muito polimento. O resultado, como não podia deixar de ser, é um híbrido de exagero, estranhezas e qualidade em potencial.

Amores Imaginários (Les amours imaginaires) – Canadá, 2010
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Monia Chokri, Niels Schneider, Anne Dorval, Anne-Élisabeth Bossé, Olivier Morin, Magalie Lépine Blondeau, Éric Bruneau, Gabriel Lessard, Bénédicte Décary, François Bernier, Louis Garrel
Duração: 101 min.

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14 comentários

Felipe Farias 24 de maio de 2016 - 00:30

Concordo com o Tiago, que diz que o Dolan se perdeu no final. Acho que é claro que se vê a qualidade autoral de Dolan nesse filme (adoro tudo o que ele filmou depois), mas a mão e o ego cool e descolado pesaram demais no resultado final.

Responder
Luiz Santiago 24 de maio de 2016 - 00:35

Eu gosto muito do Dolan como diretor, tenho verdadeira paixão por “Mommy”, mas esse filme é mesmo um tropeço para ele. Não é “mediano” pelos motivos clichês ou ruins que normalmente classificam os filmes como medianos, né. Mas ou tem exagero ou falta demais. Não é ruim, mas também não é bom. hahaha

Responder
Luiz Santiago 24 de maio de 2016 - 00:35

Eu gosto muito do Dolan como diretor, tenho verdadeira paixão por “Mommy”, mas esse filme é mesmo um tropeço para ele. Não é “mediano” pelos motivos clichês ou ruins que normalmente classificam os filmes como medianos, né. Mas ou tem exagero ou falta demais. Não é ruim, mas também não é bom. hahaha

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Felipe Farias 24 de maio de 2016 - 15:03

É, não é ruim, mas também não é bom. De qualquer jeito, é bem legal ver a evolução do Dolan até Mommy.

Responder
Felipe Farias 24 de maio de 2016 - 15:03

É, não é ruim, mas também não é bom. De qualquer jeito, é bem legal ver a evolução do Dolan até Mommy.

Responder
Luiz Santiago 24 de maio de 2016 - 17:42

Com certeza! Mas fora esse, eu acho bons todos os outros filmes dele. Já viu Laurence Anyways?

Responder
Luiz Santiago 24 de maio de 2016 - 17:42

Com certeza! Mas fora esse, eu acho bons todos os outros filmes dele. Já viu Laurence Anyways?

Responder
Felipe Farias 25 de maio de 2016 - 10:15

Não vi não. Recomenda? Eu vi, além do Mommy e do Amores Imaginários, Tom na Fazenda(gostei bastante) e o Eu Matei Minha Mãe (também gostei, apesar de ser um tanto quanto cru).

Felipe Farias 25 de maio de 2016 - 10:15

Não vi não. Recomenda? Eu vi, além do Mommy e do Amores Imaginários, Tom na Fazenda(gostei bastante) e o Eu Matei Minha Mãe (também gostei, apesar de ser um tanto quanto cru).

Luiz Santiago 25 de maio de 2016 - 15:12

Super recomendo! Ao lado de Mommy é o meu favorito do Dolan. Aliás, tem crítica para todos eles aqui, se quiser dar uma passada para trocar ideia sobre os filmes, seja bem vindo!

Luiz Santiago 25 de maio de 2016 - 15:12

Super recomendo! Ao lado de Mommy é o meu favorito do Dolan. Aliás, tem crítica para todos eles aqui, se quiser dar uma passada para trocar ideia sobre os filmes, seja bem vindo!

Felipe Farias 24 de maio de 2016 - 00:30

Concordo com o Tiago, que diz que o Dolan se perdeu no final. Acho que é claro que se vê a qualidade autoral de Dolan nesse filme (adoro tudo o que ele filmou depois), mas a mão e o ego cool e descolado pesaram demais no resultado final.

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Tiago Lima 11 de dezembro de 2014 - 01:24

Adorei a crítica! Digo que amores imaginários é um culto ao estilo jovem hype e indie que cultuam ( e preenchem ) os inferninhos do Baixo Augusta em SP e portando sofrem do mesmo mal: a primeira vista são lindos esteticamente, mas não funcionam se nós aprofundamos mais.

Li uma crítica, que não me lembro da autoria, que disse que Amores Imaginários é o filme em que Xavier Dolan tenta se encontrar e faz um mix de todas suas influencias.

E acredito neste argumento, pois como você colocou o filme funciona em partes isoladas.Podemos ver uma influencia estética de Almodôvar, uma tentativa de certo realismo com os depoimentos num estilo de Nouvele Vague Francesa e por ai vai, mas que no conjunto ficam falhos. Analiso que nos “depoimentos”, Xavier, tentou dar uma nova linguagem ao estilo de “depoimentos” que usou em Eu Matei Minha Mãe, mas se perdeu no final.

Confesso que gosto do filme, é uma das minhas guilty pleaser, mas não posso negar que o filme tenha falhas, principalmente no meio da projeção e o final também, pois da forma que encerra sua obra, Dolan mostra que seus personagem não tiveram nenhuma evolução dramática e que o ciclo todo será iniciado, com a presença, agora, de Garrel.

No fim o filme funciona mais como um exercício estético, sendo um grande vídeo clip de quase 2 horas.

P.S Eu acho a Monica Chokri a cara da ex-vj Marina Person.

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Luiz Santiago 11 de dezembro de 2014 - 06:46

Pô, Tiago Lima, suas participações nas discussões aqui no site são maravilhosas, cara. Você que é bom cinéfilo, sabe o quanto é difícil uma pessoa que gosta de um filme aceitar ver nele possíveis falhas, mesmo que não concorde, mas se disponha a discutir, entende? Sensacional, cara.

E concordo com você, há realmente toques das influências que você cita e isso mostra o quanto o Dolan é uma esponja do que vê — embora eu o ache bastante independente em termos de estilo, sabe? Acho que ele encontrou bem cedo um parâmetro estético e narrativo bem próprios, talvez quebrado, pelo que ele mesmo disse em entrevistas recentes, em Mommy, o que vamos descobrir logo logo.

Pô, eu SABIA que a impressão de “já ter visto” a Monica Chokri vinha de algum lugar! hahahahahahahaha

Obrigado pelo comentário, meu caro!
Abração.

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