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Crítica | Amy

por Luiz Santiago
116 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Documentários biográficos normalmente encontram dificuldades em equilibrar biografado e obra. É curioso, porque em empreitadas assim o ideal é sempre mostrar o indivíduo ao mesmo tempo que se comenta e explora seus feitos, jamais separando as duas coisas, como se fossem feitas por um terceiro e aparecessem no filme quase que como um dado vagamente importante. Neste seu quarto documentário, o diretor Asif Kapadia (Senna, 2010), dribla essa armadilha constante de separação entre artista e obra e nos entrega um panorama humano, musical e emotivo sobre a saudosa Amy Winehouse (1983 – 2011).

O diretor toma como base um vasto material de arquivo, editado juntamente com depoimentos apenas em voz e cenas dos shows da cantora e dos bastidores. Há também alguns takes passáveis de piada e depreciação da figura da artista por um comediante e pelo apresentador Graham Norton que ficam soltos no meio de toda a proposta, mas por serem erros localizados, não possuem assim tanto impacto negativo na qualidade total.

A forma como Asif Kapadia guia a narrativa é bastante ágil e com uma organicidade que espanta o espectador, porque estão figuradas nas duas horas de filme todas as fases da vida de Amy, só que não expostas de forma cronológica e sim dentro de assuntos correlatos, no melhor estilo “progressão-regressão”.

O editor Chris King entra aqui como um cirurgião de tempo. Para um filme com esta premissa e com a quantidade de material disponível, era necessário um montador com um corte preciso e uma sensível noção de transição entre blocos ou pequenas mudanças dentro de cada uma das partes do filme e a experiência de King em documentários anteriores, com propostas de montagem igualmente interessantes, como Saia Pela Loja de Souvenirs (2010), Senna (2010) e All This Mayhem (2014).

Alguns críticos e espectadores reclamaram que o direcionamento do meio para o final da obra é tendencioso e coloca o espectador contra Mitch Winehouse (pai de Amy) e um pouco contra seu empresário [o que não é verdade]. É claro que a visão de Asif Kapadia se deixa mostrar no filme, até porque, seria bastante ingênuo por parte do espectador assistir a um documentário (qualquer documentário, sobre qualquer tema — para aprofundamento do gênero, leia Espelho Partido: Tradição e Transformação do Documentário) e crer piamente que a neutralidade reina sobre qualquer documentação feita sobre qualquer coisa. No entanto, Kapadia não dirige nenhum momento da obra de forma “doutrinadora”, ou criando uma espécie de “desinformação”, manipulando fatos e dados, tanto que além dos depoimentos mais ferrenhos das amigas de Amy, há os depoimentos e ações do próprio pai dela e do próprio empresário que falam por si só.

O filme não se aprofunda exclusivamente na produção dos dois álbuns de estúdio da cantora e compositora, Frank (2003) e  Back to Black (2006), mas eles estão incorporados na trajetória de vida da artista como dois pontos altos. Infelizmente o material de gravação de Frank é menor, mas fica claro que Amy não gostava muito de ser filmada produzindo e entre 2002 e 2003, período em que o disco foi produzido, o sucesso dela estava dentro de um universo menor, sem pressões e sem compromissos que a obrigassem a fazer o que não queria.

A história de Amy é surpreendente. Uma das maiores montanhas-russas que eu já vi acontecer na vida de alguém. Muito sabiamente, o diretor colocou indicações de tempo (dias, meses, semanas) entre um grande evento e outro e o espectador é pego de surpresa pela rapidez com que coisas boas e coisas ruins cercavam a artista; com que rapidez ela conseguia lutar e passar dias e semanas sem beber ou usar drogas e como isso caía por terra a cada novo compromisso que lhe obrigavam (esta é a palavra!) seguir. Realmente, não admira que a fase final de sua vida tenha sido vergonhosa. Uma das últimas sequências, onde vemos que a artista estava progredindo na reabilitação (um mês antes de sua morte) e de repente percebe que não pode fugir de uma turnê e é carregada para um jato particular a fim de comparecer ao evento me cortou o coração.

Amy é um documentário que emociona e nos faz olhar com outros olhos para esta fenomenal artista que perdeu a batalha para as drogas e precocemente nos deixou. Conduzido com forte dinamismo, excelente colocação de trilha sonora (inclusive com demos inéditas), montagem precisa em todos os trechos e finalização que foge do estado emocional lúgubre, o filme se sagra como um dos documentários biográficos mais interessantes de sua geração. Um filme para ver, ouvir e sentir.

Amy (Reino Unido, EUA, 2015)
Direção: Asif Kapadia
Roteiro: Asif Kapadia
Elenco (vozes, fotos, vídeos de arquivo): Amy Winehouse, Yasiin Bey, Tony Bennett, Mark Ronson, Blake Fielder-Civil, Pete Doherty, Mitch Winehouse, Tyler James, Salaam Remi, Nick Shymansky, Sam Beste, Blake Wood, Monte Lipman
Duração: 128 min.

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16 comentários

Diogo Maia 4 de agosto de 2017 - 19:29

Esse fantástico documentário me fez olhar as coisas de um outro ângulo no que diz respeito à forma como devemos tratar dos vícios das pessoas que amamos. Sempre pensei que devemos deixar os adultos decidirem sobre o que desejam fazer, mas ao acompanhar os acontecimentos relatados e descritos aqui, de certa forma eu compreendi o outro lado: o daqueles que defendem que devemos até proibir que eles alimentem esses vícios, como o segurança da Amy, que vetou pubs e outras festas quando a situação dela piorou bastante. Não que eu tenha mudado completamente de ideia, mas só de ter me mostrado um ponto de vista diferente daquele que eu tenho e me feito pensar sobre o assunto já é um feito louvável, ainda mais no meu caso, pois sou um sujeito meio inflexível. Filmaço.

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Luiz Santiago 4 de agosto de 2017 - 23:31

Acho que o documentário chega a um bom nível justamente quando temos essa questão em pauta, porque ele vai além da simples exposição. De fato, faz pensar bastante sobre o tratamento de vícios e como isso afeta artistas que tem uma rotina e vida muito mais agitada e cheia de afazeres, além da responsabilidade pública e tal. Isso mexe com qualquer um, mais do que fossem apenas pessoas comuns.

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Handerson Ornelas. 16 de fevereiro de 2016 - 15:28

Um documentário simplesmente sensacional. Chorei horrores. Não pelo que Amy sofreu, mas porque todos nós a matamos. Em minha opinião, o doc mostra que a culpa está bem além do pai, do namorado ou dela mesma. Se alguém deu as maiores apunhaladas, esse alguém foi a indústria da música.

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Luiz Santiago 17 de fevereiro de 2016 - 01:05

Também penso assim. Essa pressão/exigência externa para alguém com a fragilidade dela para buscar soluções em drogas e outras coisas acaba tornando a situação bem complicada. E o que eu mais gostei do documentário é que mostrou esse lado dela de buscar, no final, ficar limpa, entrar em contato com as velhas amigas, sabe, fazendo coisas por si mesma, por força de vontade. Até que o pai a arrastou para aquele “último bloco de shows”. E aí, a tragédia fio inevitável…

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Anônimo 11 de janeiro de 2016 - 17:53
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Luiz Santiago 11 de janeiro de 2016 - 19:45

A reflexão do Bennet também me tocou. E é realmente isso. Tempo. Ela teve o azar de ser propensa a atitudes irresponsáveis e estar cercada de duas pessoas que tinham muita influência sobre ela e que só queriam explorá-la, principalmente o pai.

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Gabriel 11 de janeiro de 2016 - 17:55

Heey Luiz!

CHOREI MUITO!

Sempre admirei o trabalho da Amy, mas nunca cheguei a me aprofundar na história da cantora. Confesso que a achava meio patética, mas esse documentário mudou minha visão.

Senti MUITA falta de saber um pouco mais sobre o processo criativo da Amy e adoraria ver os bastidores da conclusão do Back to Black, mas ok… Eu entendo!

(COMENTÁRIOS MAIS PESSOAIS):

O que é aquele pai dela em? Ao longo do filme fui vendo o quanto ele era oportunista e nojento e após a contratação da equipe de filmagem tudo foi confirmado; Quando Amy é levada a força para a turnê me chocou muito também e me abriu um pouco os olhos pra esse mundo midiático.

Excelente crítica, como sempre. Desculpe pelo enorme comentário. Abraço!

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Luiz Santiago 11 de janeiro de 2016 - 19:50

Obrigado pelo comentário, @disqus_Kl3XkcNRYW:disqus!
Cara, eu também fiquei “meio assim” com essa colocação do processo criativo em menor espaço. Mas como você, também entendi a escolha do diretor para isso. Mas isso não faz a gente deixar de desejar ter visto mais… hehehe

E sobre o pai dela, como venho falando nos outros comentários aqui abaixo… simplesmente chocante aquilo. Só o fato do cara contratar cinegrafistas para uma espécie de retiro que a filha queria estar com ele foi o fim pra mim. E claro, a recaída final dela… O bom é que o filme não tira da Amy a responsabilidade de seus atos e a propensão que ela tinha a esse comportamento impulsivo, de buscar saída em drogas e tal. Mas também mostra que mesmo com esse comportamento ela tentou, várias vezes, se ajustar. Se o pai e o segundo empresário se importassem com ela como pessoa, talvez as coisas teriam sido bem diferentes…

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Karam 11 de janeiro de 2016 - 17:11

Amei o filme também. Só senti falta de um aprofundamento no “processo de composição e realização” dos dois álbuns.

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Luiz Santiago 11 de janeiro de 2016 - 17:19

Eu também, cara, principalmente na produção de “Frank”. Mas eu entendi o por quê, dentro da proposta do filme.

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Maitê 11 de janeiro de 2016 - 16:38

Adoro documentários e Amy não me decepcionou. Sou fã de sua música, mas nunca fui fã da cantora. Eu a achava patética, contudo a partir do documentário passei a vê-la em uma espécie de mistura pena e respeito. A forma como viveu sua curta “montanha-russa” de vida me lembrou a biografia de Janis Joplin em Enterrada Viva, ambas dolorosamente solitárias, ambas dolorosamente mal-amadas pelas pessoas que as cercavam. Sobre o pai dela, não vejo como tendencioso, não resta dúvidas de que ele é um canalha, afinal quem leva cinegrafistas para o exato local onde sua filha busca recuperação, paz, redenção? Enfim, a forma como ela é mostrada no palco, em sua última excursão (se não me engano na Búlgaria) é uma das cenas mais deprimentes que já vi. Amy bem que merece este ótimo documentário e sua crítica também.

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Luiz Santiago 11 de janeiro de 2016 - 17:19

Eu evitei ao máximo expor juízo de valor no texto, mas concordo plenamente com você, o pai definitivamente era um canalha e se aproveitava do fato da Amy gostar tanto dele e queria tirar o máximo dela. O fato de ter sido arrastada para um dos últimos shows, justamente quando estava engatando um mês de abstinência de drogas, cortou meu coração… E foi interessante você citar Janis, porque fiz exatamente a mesma relação enquanto assistia ao filme…

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Canonny® 25 de janeiro de 2016 - 13:30

Patética, por quê?
Por ela ser dependente química e não saber lidar com a fama?
Aposto que se fosse um ente querido seu em situação semelhante, vc não o acharia patético.
A mentalidade da maioria e do senso comum é essa: Se não é comigo, dane-se o sofrimento alheio.

Responder
Luiz Santiago 25 de janeiro de 2016 - 16:28

Calma, @disqus_7oVKSRUWlu:disqus. Não foi nesse sentido absurdamente depreciativo que a @disqus_rdmTT9v60n:disqus comentou. O restante do comentário deixa isso claro.

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Canonny® 26 de janeiro de 2016 - 03:53

Ok, senhor moderador.
Apenas estou criticando de forma incisiva o ponto de vista que ela tinha antes de assistir o documentário. Na internet, muita gente faz juízo de valores sem analisar o contexto da situação. Felizmente, a Maitê percebeu(tardiamente) o contexto e o porquê da Amy agir daquela forma. Além de dependente química, ela tinha um horda de abutres(paparazzis) sempre querendo arrancar um pedaço dela.

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Luiz Santiago 27 de janeiro de 2016 - 06:36

É, a internet virou terra de ninguém, está cada vez mais complicado. O ideal é sempre procurar dialogar, para que as coisas se esclareçam. Isso ajuda a evitar confusões.

E cara, eu concordo com você: a Amy, além de problemas pessoais com drogas (remédios) desde a adolescência esteve cercada, na maior parte do tempo, por pessoas que só queriam o dinheiro dela, como o pai, principalmente, na minha opinião.

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