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Crítica | Ana. Sem Título

por Laisa Lima
539 views (a partir de agosto de 2020)

Se existem períodos capazes de fazer com que muitos duvidem da necessidade e da produtividade de sua existência, um deles se direciona aos tempos da ditadura militar. Tendo a América Latina como maior território afetado, o cinema mais uma vez adere a seu espírito significante das dores provenientes do amordaçamento da liberdade e traz o retrato de um povo assolado pela repressão. Visto isso, neste e em outros diversos contextos, o destino feminino não escoa em uma menor coibição. Seja pela revelação de um sofrimento envolvendo um papel exclusivamente das mulheres – a maternidade – e com motivos puramente ditatoriais, descoberto por Alicia (Norma Aleandro) em A HIstória Oficial (1985) em sua busca pela progenitora de sua filha adotiva na Argentina; ou seja pela evocação sem interrupção do ódio pelo regime, notado inclusive nos artifícios em mãos guerrilheiras femininas em Que Bom te Ver Viva (1989); é evidente a batalha travada. E quem poderia esclarecer melhor tal fato do que uma mulher? Assim como no último filme citado e em alguns similares, a diretora Lúcia Murat, em Ana. Sem Título (2020) desenterra uma lembrança que há tempos tenta ser superada. 

Em Ana. Sem Título, Lúcia Murat, experiente no que diz respeito a sua principal temática (a ditadura) já que a própria atravessou torturas e prisões por ter a “audácia” de desejar ter voz na época; participa, aqui, de um relato vindo de seu interior para quem tiver interesse em conhecer uma crônica nada amigável mas extremamente importante. Na obra, Stela (Stella Rabelo) comanda uma narrativa pautada em cartas escritas por mulheres latinas entre 1970 e 1980, que, além de sofrerem com o abuso do governo nestas décadas, têm em comum uma personagem recorrente nas escrituras, chamada de Ana (Roberta Estrela D’Alva). Em uma viagem por países latino-americanos atrás de pegadas da jovem artista, Stela e outras duas pesquisadoras definem uma ampla visão sob o horizonte feminino em meio a um caos político tendencioso a uma violência social, moral e essencialmente governamental. Logo, o feminismo não está declarado apenas nas entrelinhas, mas encontra-se igualmente à frente de um longa-metragem com um fundo biográfico mas um externo de cariz histórico.  

Metade documentário metade ficção, o filme passeia pela condição nada frágil de um gênero considerado como tal em um mundo perigoso para os que desafiam suas leis. A trajetória que parte da vontade de Stela de conhecer Ana funciona como pretexto para algo maior que a singularidade de um único indivíduo; o conjunto de descrições encontradas por Stela eleva o sentimento de injustiça para um grau de senso comum entre mulheres que viveram a repressão ou que se compadecem com as que sobreviveram. Ana, contudo, aparenta uma aura de “mito”; pilar de uma luta intrínseca a questões pertinentes a respeito da emancipação das amarras das vigentes autoridades machistas e enaltecida como uma figura adorada, a personagem serve de introdução para um universo de tirania explorado cuidadosamente para não haver resquícios. Nisso, o tom do filme estaciona no detalhamento da ditadura como meio de inibição dos quereres, especialmente femininos. E embora a personagem de D’Alva condense algumas das insatisfações do gênero, é no olhar das entrevistadas (ou integrantes do longa-metragem) que o enredo vai se construindo.  

Os dois estilos audiovisuais manejados em Ana. Sem Título convergem na confecção de uma atmosfera que, independente do didatismo escolhido para expor o contexto antecedente da película, é bem sucedida em atingir o entendimento das narrativas paralelas reais e as fictícias, sendo possível distingui-las conforme a conveniência da obra. Em sua parte documental, assim observada pela oratória em off de Murat e pelos enquadramentos utilizados em entrevistas,  além dos discursos de mulheres que esmiúçam os trechos da presença feminina no combate à ditadura; a exposição dos processos passados tanto pela humanidade quanto pela revolução do feminismo ganham forma e consistência. Nada é subentendido na trama. Todo panorama da vida em um regime político rigoroso, presenciados em países como Brasil, Chile, Argentina etc, corrobora com o lado afetivo do filme, sendo as protagonistas responsáveis por sintetizar a ilusão com a realidade. Moldando o rumo emocional, a interpretação dos diálogos proferidos pelas especialistas e dos materiais históricos não seriam tão tocantes sem elas e sem uma condução sensível.

Ainda que haja textos engessados, a liberdade com que os atores assumem e tomam a valiosidade das memórias resgatadas em Ana. Sem Título, transformam cada fala em um depoimento. Stela, por exemplo, rompe a quarta parede e aparece às vezes como entrevistadora, partindo dela o principal impulso para o despertar de Ana. A intérprete desta personagem, aliás, compõe cenas de êxtase; mediante seus ideais que se propagam em fortes performances artísticas, como a que moça pinta todo seu corpo, momentos de alívio e de satisfação por finalmente transmitirem o possível pensamento libertário do espectador sobre a ditadura e sua consequente intolerância são experienciados. Já Lúcia, que resistiu aos temores vividos por uma militante nesta mesma era e personificada pela própria criadora do filme, não desenlaça a verossimilhança que o longa-metragem requer. Nada parece somente uma falácia e sim recordações indesejadas, mas úteis para o aprendizado da sociedade.

Ana. Sem Título traz a força de um trabalho de Lúcia Murat. Com maior aprimoramento em idealizar filmes-manifestos, o filme, como outros da cineasta, recai em um acontecimento cronológico suportado pelo povo latino-americano delicado de se tratar. Contudo, seu hibridismo atinge o canal de interesse do público ao mostrar duas faces de uma mesma temática, não esquecendo-se que o choque relacionado à perversidade daquela época precisa existir para atingir um objetivo complicado: a repugnância de tempos que não podem voltar. Murat, então, estuda sem pressa os pontos que fizeram com que o regime alvejasse seu ápice e indaga o porquê das mulheres terem sido excluídas do reconhecimento da resistência ao governo regente. Logo, a arte, frequentemente citada no filme através de Ana e de outras artistas, assumiu, como sempre, um intermediário entre o que podia ou não ser dito. Afinal, na ditadura, um instrumento artístico de protesto era de inviável consumo ou repercussão para todos. Contudo, atualmente, Lúcia Murat é a prova de que a mudança acontece no ramo da arte e em toda uma sociedade.

Ana. Sem Título (Ana. Sem Título – Brasil, Argentina, 2020)
Direção: Lúcia Murat
Roteiro: Lúcia Murat, Tatian Salem Levy
Elenco: Roberta Estrela D’Alva, Stella Rabelo, Felipe Rocha, Renato Linhares, Lucas Canavarro
Duração: 110 min.

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