Crítica | Anima (2019)

“If you could do it all again
Without a second thought”

Coloquem o som no máximo. Com essa ordem aos seus assinantes é que a Netflix anuncia o curta-metragem de 15 minutos comandado por ninguém menos que o cineasta Paul Thomas Anderson. Juntamente com o lançamento do terceiro álbum solo do vocalista do Radiohead, Thom Yorke, uma produção cinematográfica homônima acompanhou-o no mesmo dia. Este curta, ao passo que estreou no serviço de streaming, também ganhou sessões em salas IMAX, para que o poder dos sons e o poder das imagens pudessem ser captados. Em termos de espetáculo, tal projeto é, sem sombra de dúvidas, uma grandiosa conquista aos nossos sentidos, e que, portanto, a quem puder, merece tanto um som potente quanto uma tela que se aproxime o máximo a uma experiência de cinema. Por toda a sua duração, ANIMA expõe aos berros a capacidade de Paul Thomas Anderson em criar ambientações ricas e um cenário distópico em poucos minutos, assim como a de Yorke em sugestionar uma atmosfera particular das suas músicas. Mesmo assim, essa é uma produção, em contraponto a um interesse, supostamente, só espetacular e grandiloquente, que termina se provando por retratar sentimentos pessoais de Yorke, comovendo pela sinceridade.

O que impressiona no curta mora na coordenação de uma encenação imagética mais abstrata – e que se reorganizará a interpretações distintas – a uma proposta dramática que é simples: um homem procurando uma mulher. Thom Yorke interpreta a si mesmo, tentando retornar um pertence de uma pessoa que estava no trem consigo. O curta então progride, primeiramente, como o mundo dos sonhos, passando de cenário para cenário sem uma continuidade verdadeiramente concreta. O protagonista, ainda que vague inicialmente por um metrô, que é um ambiente mais objetivo que os próximos, passa a caminhar posteriormente por espaços menos compreensíveis, bem mais intangíveis. Grande parte dos ambientes são, com isso, geometricamente disformes, combinados a projeções que criam sombras bastante expressivas nos muros, nos chãos e paredes. Paul Thomas Anderson, no mais, mistura o estonteante design de produção, sempre renovado, com uma cinematografia que também vai se reconfigurando, mudando as suas cores e as suas visões – o que é mérito de Darius Khondji. E a montagem de Andy Jurgensen, coerente à linguagem onírica, é certeira em transpor um ambiente totalmente diferente a outro, transformando-os organicamente.

Há muito poder nas imagens que Thomas Anderson cria, como, por exemplo, na primeiríssima cena do curta: as pessoas ansiosas em tentarem dormir no vagão de um trem. Tentando encontrar uma posição para acomodar as suas cabeças e seus sonos, os braços do passageiro originam, como parte de uma coreografia que tenta igualmente estabelecer uma mensagem, uma certa inquietude. Ninguém está acordado e ninguém está dormindo, porém, em um meio termo nervoso e cansativo. O próprio protagonista torna-se uma personificação da ansiedade, caminhando contra a corrente e mais rápido que a corrente, mas sem mudar nada realmente. Tão angustiado para encontrar a garota que Yorke termina sendo barrado numa mureta, ao tentar sair do metrô. Já o pertence da mulher se perde na sua trajetória – contudo, nem precisava existir, na verdade. Mais para frente, apenas quando para de correr, para de se precipitar, para de querer adiantar a sua chegada a algum lugar, que o seu personagem enfim chega, mudando completamente a sua pose perante o mundo. Na cena que conclui o curta, em paralelo com a primeira, o protagonista pode por fim,  fechar os seus olhos e, sem mais as tais coreografias para o impedir de descansar, dormir.

Thom Yorke quer, portanto, mais que apenas contribuir com três composições, se entregar para ser objeto da encenação de Paul Thomas Anderson – e, consequentemente, essência do que se trata a obra em questão, que também complementa o seu disco em propósitos. O seu corpo em si, visto que a interpretação é completamente corporal, é um destaque à parte, primeiramente por contrariar os demais dançarinos, em coreografias pensadas por Damien Jalet. Mas, ao mesmo tempo, existe uma certa graça nos seus trejeitos, que remete a Buster Keaton e à comédia física, principalmente em como soa ser tão entristecido. Desta maneira, a pessoalidade do curta, que torna-se mais que uma proeza técnica e não pretensa a ser, é resistência à impessoalidade das coreografias. Enfim, encaminhamo-nos para o encontro do personagem de Yorke com a sua amada, uma mulher interpretada justamente por sua parceira na vida real, Dajana Roncione. E esse amor, mesmo que apenas em 15 minutos, consagra-se com verdade na cena dos dois entrelaçando-se e olhando-se. A pompa de grande espetáculo audiovisual – excêntrico em sua medida, mas surpreendentemente encantador – é pretexto para Yorke reviver: os seus pesadelos, a sua intimidade e os seus amores.

Anima – Reino Unido, 2019
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Thom Yorke, Dajana Roncione
Duração: 15 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.