Crítica | Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

O diretor David Yates tinha como desafio tomar um chacoalhão em seu estilo de dirigir, depois de mostrar o que podia fazer com as obras do Universo Harry Potter, onde estacionou em 2007, com A Ordem da Fênix. No ótimo Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016), sua direção esteve bastante correta, mas ele foi beneficiado por um roteiro mais azeitado, pela novidade de termos a adaptação de um improvável livro desse Universo para os cinemas e pela recriação de um pedaço então pouco conhecido do mundo mágico. Era preciso, se não uma reinvenção na forma de como dirigir cenas de ação e composição de sequências com uso de magia, uma maior energia na interação entre bichos e bruxos, presença de trouxas e grandes enfrentamentos de poderosos. Bem… se não temos um estupendo exercício do diretor aqui, pelo menos ele consegue nos manter interessados e nos divertir a maior parte do tempo nesse Os Crimes de Grindelwald. Apesar do roteiro de J.K. Rowling.

Após a intensa polêmica entre fãs quando se confirmou Johnny Depp para o papel de Gerardo (ou Gellert) Grindelwald, a produção do filme correu quase sem grandes impasses, apenas entrecortada por declarações de JK que fizeram uma grande parte dos potterheads torcerem o nariz, especialmente diante da condescendência com que a autora resolveu falar da própria obra (vocês acompanharam a explicação dela para Nagini?). Passado o choque de conveniências, vieram as suspeitas em relação ao filme. A divisão em muitos capítulos (tivemos a confirmação até o quinto filme, inicialmente previsto para 2024) foi o núcleo das principais desconfianças, e este segundo longa da saga mostra que os desconfiados não estavam errados. Pelo menos em termos de enredo.

Visualmente falando a obra é diversão pura e não foi à toa que eu trouxe as modificações e esforço de Yates na direção. A intensa cena de perseguição no início do filme é um exemplo de dinamismo que segue mais ou menos até o final da fita, com partes em conflito muito bem relacionadas, excelente uso de magia sem criar um espetáculo por si só, movimentação às vezes inesperada da câmera e bons ângulos… definitivamente um bom começo. Essa mesma assinatura se observa em cenas como a criação do Ministério Francês e do equivalente ao Beco Diagonal em Paris, num dos mais interessantes trabalhos da direção de arte em todo o filme. Aí também se mostram as maravilhosas criaturas da fita, numa sequência circense bem  musicada e editada (e vale dizer que tanto a trilha sonora quanto a montagem sobem muitos degraus de qualidade nos momentos de luta), com cada bicho em seu momento de destaque e breve nomeação e exposição visual deles que duram o bastante para que os conheçamos e identifiquemos posteriormente.

Com a volta do fotógrafo Philippe Rousselot para este segundo filme, a unidade e riqueza visuais de luz e cores permanecem. Mesmo nos momentos em que a pior coisa do longa (o roteiro) nos faz revirar os olhos, a imagem segue com o seu papel de nos fazer sentir dentro de um mundo mágico. Não há monocromatismo e nem preguiça representada no uso de filtros apenas para mostrar diferentes tons de uma mesma ambientação. Sim, o filme tem predominância de cinza e azul, mas é necessário entender esta é uma proposta do enredo, casando bem com aquilo que o mundo bruxo sofre nesse momento: a ascensão de um líder muitíssimo poderoso, com um discurso que equilibra (pelo menos isso é bom, no roteiro!) a força política que denuncia a incessante busca pelo poder e capacidade destrutiva dos trouxas (“outra guerra não!“) + uma linha mal-disfarçada de segregação e defesa de superioridade de uma família ou raça (magos e ão-magos) sobre outra. Se alguém, por algum motivo, não tinha entendido a mensagem de Harry Potter e a Câmara Secreta, aqui estão as raízes desse pensamento ganhando força e, de certa forma, sentindo o gosto do poder.

No roteiro, digladiam-se o plot de Credence (Ezra Miller em uma interpretação que não traz nada de novo para o personagem), ao lado de Nagini (Claudia Kim) e a ascensão de Grindelwald, cuja presença se entende para diversos lugares e envolve diversas pessoas: Newt Scamander (Eddie Redmayne, brilhando bem menos que no primeiro filme), Albus Dumbledore (Jude Law, em boa demonstração do que é um mago poderoso e sábio ainda “jovem”, mas com pouco tempo de tela para que sua persona se delineie de fato) e o trio de cadência amorosa que está inteiramente perdido e insosso no filme: Jacob Kowalski (Dan Fogler), Queenie (Alison Sudol) — que recebe o tratamento mais estúpido da película — e Tina (Katherine Waterston), a melhor desse trio deslocado, porque ainda traz uma ação útil na trama. De todos, porém, aquele que realmente se destaca é o que muita gente não queria desde o início: Johnny Depp, como Grindelwald. Se tirarmos de cena a reticente e covarde forma com que a autora escreve o relacionamento dele com Dumbledore, tudo o que Depp coloca para representar o buxo é aplaudível. Exaltam-se a sua retórica, a entrega do discurso politicamente tentador sob uma voz calma e ameaçadora e a fomentação de uma personalidade que tende a ser mais forte (em ideias) do que a do próprio Lord Voldemort, cuja base inicial era mais narcísica, egoísta e produto de traumas pessoais do que qualquer outra coisa…

O miolo do filme se desenvolve quase em sobreposição de camadas dramáticas, o que torna muitas partes cansativas e faz com que outras sejam cortadas antes de mostrarem mais o que tinham de bom. Entre um visual encantador e um roteiro que acerta bem pouco, temos um filme que está levemente acima da média e que já mostra um perigo para os futuros produtos da saga: a Síndrome de Deixar Para Depois. A quantidade de apontamentos e introdução de personagens que temos aqui é bem maior do que o roteiro sonha em dar conta, ao mesmo tempo que não se envergonha em deixar muito claro que todas essas coisas serão “vistas no futuro”, uma muleta irritante utilizada por J.K. Rowling, aparentemente pouco preocupada em escrever uma história sólida. Em vez disso, a autora enche o seu texto de digressões e cria uma ~revelação bombástica~ no final que por pouco não ganha status de anticlímax, tamanha é a falta de tato para a construção das surpresas e das primeiras grandes explicações. A magia continua enchendo os nossos olhos e o saldo final ainda consegue ser positivo, mas parece que dessa vez as Artes das Trevas chegaram ao nosso mundo e fizeram do roteiro do filme mais um crime para ser colocado na conta de Grindelwald. Protego Maxima para os futuros longas da franquia!

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald) — Reino Unido, EUA, 2018
Direção: David Yates
Roteiro: J.K. Rowling
Elenco: Johnny Depp, Kevin Guthrie, Carmen Ejogo, Wolf Roth, Eddie Redmayne, Zoë Kravitz, Callum Turner, Derek Riddell, Cornell John, Ezra Miller, Ingvar Eggert Sigurðsson, Poppy Corby-Tuech, Andrew Turner, Maja Bloom, Simon Meacock, David Sakurai, Jude Law, Victoria Yeates, Dan Fogler, Katherine Waterston, Alison Sudol, Claudia Kim, Brontis Jodorowsky
Duração: 134 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.