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Crítica | Animaniacs (2020) – 1ª Temporada

por Roberto Honorato
2164 views (a partir de agosto de 2020)

Entre todas as animações distribuídas pela Warner que já passaram pela televisão brasileira, Animaniacs era uma das que mais sofria por conta de seu humor referencial e voltado para o público norte-americano, principalmente por conta do enfoque político de algumas esquetes, o que acabou alienando parte da audiência e fez com que muitas crianças simplesmente não tivessem tanto interesse nele além das gags mais pastelão. Mas ainda há aqueles que gostavam de pesquisar cada referência tentando entender as piadas (esse que vos fala), e por isso o retorno da série, pelas mãos do próprio Steven Spielberg,  produtor da versão original, fez com que muitos fãs ficassem animados com o que os irmãos Warner (e a irmã Warner) poderiam trazer de novo para o cenário atual de fake news, Youtube, memes e redes sociais.

Para trazer de volta Yakko, Wakoo e Dot, os três loucos irmãos Warner, que vivem fugindo do estúdio para perturbar diversas celebridades e fazer meta-humor com as tendências, Spielberg decidiu se unir ao serviço de streaming Hulu, que disponibilizou a temporada completa de uma vez, com 13 episódios de vinte minutos, cada um incluindo diversos segmentos, assim como a versão original. A quantidade de episódios pode parecer pequena, mas já temos confirmação de uma segunda temporada para o próximo ano, e o que tivemos até agora foi o suficiente para provar que o retorno de Animaniacs foi um dos mais certeiros de toda a leva de revivals, remakes, reboots, spin-off ou seja lá quantas formas existirem de lucrar com nostalgia.

Um dos sucessos dessa nova versão foi trazer de volta os dubladores originais, o que já foi um tremendo alívio já que a química entre Rob Paulsen (Yakko), Jess Harnell (Wakko) e Tress MacNeille (Dot) é incomparável; sem contar que Paulsen é uma lenda da dublagem, não só pelo seu Yakoo, cuspindo piadas tão rápido que apenas comediantes como Robin Williams ou Groucho Marx poderiam acompanha-lo, mas por dar vida a outros personagens como Dr. Von Scratchansniff ou o famoso rato, Pinky. Mas mesmo que alguns elementos tenham sido mantidos, outros foram repaginados ou mudaram completamente, alguns para melhor, outros… ainda não tenho certeza se funcionaram tão bem quanto os roteiristas imaginam.

Logo de cara podemos ver que o traço da animação não sofreu grandes mudanças e os personagens e cenários continuam no mesmo estilo, dessa vez com ajuda de novas ferramentas que deixaram a arte mais “limpa” e com linhas de arte-final mais definidas (o próprio teaser para a série dizia que “eles estão melhor vetorizados”). É muito bom ver como os personagens continuam tão extravagantes e expressivos quanto antes, e agora a equipe de animadores tem a chance de experimentar mais com os desenhos, tendo segmentos que adotam formatos estéticos completamente distintos, incluindo algumas esquetes com personagens originais e um estilo de animação mais aquarelado; ou a forma que a série se aproveitou da ascensão dos animes nas últimas décadas para desenvolver uma hilária sequência dos irmãos Warner fazendo caras e bocas satirizando clássicos como Dragon Ball e Sailor Moon, mas também produções mais “atuais”, tal qual JoJo´s Bizarre Adventure.

Por ter ficado em hibernação por duas décadas, Animaniacs entende que suas principais tarefas são conquistar um novo público, sem ignorar os fãs que hoje são adultos (socorro!). Além disso, também há de se levar em conta o fato de que em vinte anos a sociedade não é a mesma, principalmente a Hollywood que costuma ser o principal alvo das piadas dos personagens, a mesma que nos últimos anos passou por uma enorme reestruturação por conta de polêmicas como as de Harvey Weinstein, cofundador do estúdio Miramax; a importância do movimento Me Too e a necessidade se ter mais representatividade na indústria.

A série está consciente de seu passado problemático, tanto que não chegam a utilizar a personagem e o conhecido bordão “Olá, Enfermeira”, pelo menos não no mesmo contexto. Ainda assim, não deixam de lado seu característico humor sarcástico logo na música de abertura, similar à original, com pequenas mudanças em alguns versos, informando o espectador como agora foram bem nos “testes de pesquisa em grupo” e apelam para uma abordagem com “igualdade de gênero, pronomes neutros e mais diversidade”, o que é verdade até certo ponto, visto que temos mais mulheres na sala de roteiristas e maior presença de personagens femininas, incluindo novas adições, como uma possível futura adversária para o rato Cérebro, e a nova chefe do estúdio e dos irmãos Warner, que tomou o lugar de Thaddeus Plotz, mas representa bem o estereótipo coorporativo de líder carismático tentando deixar o trabalho mais “divertido”.

Para além da preocupação com seus elementos mais problemáticos, o novo Animaniacs, constantemente se autorreferido como “a versão de reboot”, traz um humor mais atual, mas não deixa de lembrar que foram pioneiros no uso da metalinguagem que hoje é tão popular em Deadpool ou Os Jovens Titãs. Uma das melhores músicas da temporada faz uma recapitulação dos principais eventos das duas décadas em que os Warner estiveram ausentes, desde o surgimento dos smartphones e aplicativos como Uber, até as crises econômicas do mercado norte-americano e o uso de bots em campanhas políticas.

A série não abaixa a cabeça para tópicos mais divisores, como política, que sempre foram essenciais na construção dos esquetes. Então você pode esperar algumas piadas adultas inseridas de forma mais sutil, mas outras nem tanto, como um segmento envolvendo um ciclope solitário em uma ilha abandonada que serve claramente de caricatura para o ex-presidente Donald Trump, desde a voz até a pele alaranjada. Há quem ache essa parte gratuita, mas não é a primeira vez que os irmãos Warner escolhem uma figura política específica para ser o alvo das piadas.

Mesmo tendo todo esse cuidado, esse reboot tem alguns deslizes, como uma ou outra piada ou referência mais datada, como o momento em que os personagens fazem uma pegadinha com a palavra “updog” (What’s Up, Dog?) ou uma cena que se passa em uma fábrica de fidget spinners (lembra dessa febre?). Até podemos relevar alguns casos, considerando que os roteiros começaram a ser escritos em 2018, mas é algo que quebra um pouco com toda a imagem que a série quer passar de estar sempre um passo à frente de todos. Parte disso se dá pelo novo formato de produções liberando todos os episódios da temporada de uma vez, o que é muito bom para quem quer passar um dia inteiro assistindo o desenho, mas a estrutura narrativa de diversas esquetes e núcleos de personagens talvez funcione melhor da maneira clássica, distribuindo os episódios semanalmente.

Com a saída de Tom Ruegger, o comando da série (Spielberg apenas produz) ficou por conta de Wellesley Wild e Tom Minton, que mantiveram grande parte da estrutura básica de duas a três histórias por episódio, mas decidiram focá-las apenas nos irmãos Warner e a dupla Pinky e Cérebro, tão popular que recebeu seu próprio spin-off durante a exibição do Animaniacs original. É claro que esses dois núcleos são os mais queridos, mas seria bom termos a presença de mais personagens, que fazem bastante falta, deixando o cenário quase vazio, o que antes era uma loucura de personagens correndo para lá e para cá. Eles chegam a fazer uma ponta rápida em um episódio que faz questão de mencionar como eles fazem falta, mas nesse caso o humor autorreferencial não é desculpa o suficiente.

Por falar em figurantes, a temporada mostra quase todas as propriedades animadas da Warner em alguns momentos, dos Looney Tunes a Hanna Barbera, incluindo os Tiny Toons, desenho de onde Animaniacs se originou e que também tem um reboot confirmado. Para quem quer continuar vendo um personagem martelar a cabeça do outro ou Pink e Cérebro bolando planos para dominar o mundo, essa nova versão não vai te decepcionar, mas tirando pequenas participações especiais, o espectador talvez sinta falta de personagens como o esquilo Skippy, sua avó, Slappy; a dupla Rita e Runt, a gangue de pombos, entre outros.

Quanto ao humor adulto e referências mais obscuras, a série mantém a frase de efeito de Yakko, “Obrigado, pessoal”, toda vez que o roteiro faz algum trocadilho ou brincadeira com as palavras que podem ser confundidas com material inapropriado para crianças, ou seja, mesmo com algumas limitações, parece que a equipe criativa ainda tem bastante liberdade. Em questão de referências do cinema e TV, o tipo de coisa que alguns (como eu) adoram, a série segue a tendência de ser mais contemporânea, parodiando o palhaço Pennywise, de It: A Coisa, ou brincando com a câmera lenta de Zack Snyder; mas para quem gosta dos clássicos, é legal ver os Warner fantasiados como os irmãos Marx (grupo de comédia no qual os Warner também foram inspirados), ou uma rápida fala da personagem Dot apontando para os céus e repetindo o bordão da série A Ilha da Fantasia: “É um avião”. Então, dá para agradar desde as crianças até os fãs mais antigos.

No contexto atual, Animaniacs se prova mais relevante do que nunca, e continua tão absurda e engraçada quanto antes, mas em um mundo de informação rápida e descartável, é esperado que algumas piadas não acertem o alvo em cheio, principalmente por conta do seu novo formato. Mesmo tendo em mente os problemas da temporada, eles são pequenos demais em comparação aos acertos, e isso já é o suficiente. No meio de tantos retornos, Animaniacs é um dos que mais tem chance de fazer um comentário pertinente e divertido sobre os últimos anos, e espero que nos próximos também, porque convenhamos, estamos precisando desesperadamente de umas risadas.

Animaniacs – 1ª Temporada — EUA, 2020
Criação: Wellesley Wild, Tom Milton
Direção: Adriel Garcia, Katie Rice, Scott O’Brien, Brett Varon, Erik Knutson
Roteiro: Lucas Crandles, Jordan VanDina, Kathleen Chen, Jess Lacher, Brian Polk, Andrew Barbot, Timothy Nash, Greg White
Elenco: Rob Paulsen, Jess Harnell, Tress MacNeille, Maurice LaMarche, Danny Jacobs, Carlos Alazraqui, Jake Green, Rachael MacFarlane, Frank Welker, Kimberly Brooks, Fred Tatasciore, Eric Bauza, Chris Cox, Phil LaMarr, Jon Bailey
Duração: 13 episódios de aprox. 21 min.

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